poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

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:: Quinta-feira, Dezembro 29, 2005

duas margens

reiniciando os caminhos já trilhados, sempre em novas circunstâncias, ocorreu-me uma recente travessia matinal do Tejo em que o barco me pareceu, de súbito, ancorado no meio do rio…

a ténue sugestão de neblina
na margem sul e muito ao rés das águas
perpassa no horizonte
sulcado por flamingos
e o rio corre lento na paisagem

Lisboa é uma linha fugidia
a acender-se no velho casario
e ao marulhar do rio
num cais abandonado
a lama vai cobrindo toda a margem

já mal desponta o grave cavername
da velha nau ancorada na vasa
poleiro de gaivotas
entre o mar e as colinas
grito-cinza que se lança à tempestade

e bordam cacilheiros seus destinos
em teias que entretecem densas névoas
e a seda que une as margens
é gente que neles singra
em derrotas já sem leme e sem miragens

mas o Sol que entretanto já espelha
por toda a extensão a madrugada
faz do rio ouro e prata
e aponta ao horizonte
o futuro erguido em poalha alvoroçada

a luz que cobre de cor a paisagem
intensa como o sopro duma aragem
desvenda outro porvir
desdobra a liberdade
de forjar o homem novo na cidade.

publicado por OrCa • às 11:18 PM • categoria: poesiaestórias contadas (7) •

:: estórias:

Bom dia, OrCa, e um BOM ANO de muito amor e realização poética, como mereces.
Obrigada pela boa estreia aqui nos Poemas III, uma estreia com sabor a mar e rio, Lisboa e Barra, os meus lugares de encanto… Compreendi a alegtoria. Na verdade somos um país de homens já sem derrotas, já sem leme e sem miragens. É preciso inventar um canto renovado para que de ano para ano as marés tragam lágrimas lavadas e dias limpos de neblina. Abandonar as naus paradas e fundear a podridão das tábuas. Afinal, o nosso futuro começa agora, com mais um ano novinho em folha, uma nau cujo percurso é ainda incerto, mas vem vestida de esperança… Gostei muito do teu poema. Grata.

Infelizmente não consigo acabar o conto aí abaixo antes que o espírito de Natal fique de novo escondidinho com a árvore de Natal, no sótão. Embrenhei-me de tal modo nas personagens que agora continuá-lo não é coisa que se faça em meia hora, o tempo de que disponho depois das linhas lides familiares! A ver vamos!
BOM ANO, Jorge!

contado por LibeLua  em  12/31  às  12:44 PM

Acabei, mesmo agorinha, (graças ao Ognid, da Catedral e da Amélia Pais, de Ao Longe Os Barcos De Flores)de descobrir que este dia 31 terá mais um segundo por imperativos de acerto cósmico…

Pois que esse segundo seja o do nosso abraço e que ele tenha o tamanho do mundo!

contado por OrCa  em  12/31  às  02:29 PM

Renovar é uma constante da vida… Um Bom Ano!

contado por Carlos Tavares  em  01/06  às  05:42 PM

flagrante delito ..o ter entrado..encantado fiquei ao ler..bruno pires

contado por  em  01/09  às  12:54 AM

Bela retrato “pictórico” de Lisboa (melhor talvez apenas Cesário Verde) a desvendar o nevoeiro que teima em perseguir-nos…

Apreciei este final vigoroso de hino à liberdade e ao homem novo, perante a teimosia “histórica” dos homens providenciais que nos espreitam em cada esquina…

Abraços

contado por manuel  em  01/09  às  12:04 PM

estas tuas palavras vivem-se e respiram-se. Enchem-nos o peito de um ar + puro e tmb + seguro para um poutro futuro. Bjs esmile

contado por TMara  em  01/10  às  08:29 PM

Este teu poema é um hino de esperança neste país de neblinas que não dispersam.
Que venham esses dias melhores.
Beijinhos, Betty

contado por Betty  em  01/13  às  12:13 PM

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