poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

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:: Segunda-feira, Maio 01, 2006

do trabalho

Uma das componentes mais marcantes da natureza humana: a necessidade de agir sobre o meio ambiental e social, produzindo bens alimentares, bem-estar, saber, riqueza material, artística, científica, progresso. Trabalhar. Um direito, um dever, uma necessidade, um vício, um escape, um objectivo, uma benção, uma seca, um castigo mas, sobretudo, uma forma de estar e de ser.  Somos também aquilo que fazemos. Quem se sente realizado no seu, tem aí uma fonte de juventude e saúde mental. Quem se sente injustiçado no seu, quem se sente maltratado, quem se sente explorado, assediado, incompreendido, preterido, aniquilado, tem aí uma fonte de amargura que envenena o quotidiano. Por vezes, quem o tem, lamenta-o, quem o não tem busca-o.  Quem o procura desespera, quem o perde sente o maior vazio da sua existência.  Quem o deixa ficar rotineiro e vazio, definha. Quem se impõe metas e desafios rejuvenesce. Quem se entrega, morre. Quem não luta pela melhoria de condições no seu, dá força à forte corrente do poder.  Quem aprendeu a calar cedeu ao medo.  E cada vez mais o círculo se estreita à volta do trabalhador, neste pequeno Portugal como no mundo inteiro. Este é visto como uma força motriz, um compto, um dígito positivo ou negativo, um alvo a abater ou a promover, conforme o interesse do momento. Os imperativos do lucro, definem o destino do indivíduo, alteram-lhe os planos, a estabilidade, o génio, a vida familiar. A justificação do défice faz-se na plataforma laboral, sacrifica-se na condição laboral, traduz-se no arruinar de vidas, com a conivência e incentivo do Estado. Este é o árbitro silencioso das vidas anónimas. Agora cada vez mais, é o propulsor da instabilidade, porque cada mudança é uma medida economicista susceptível de arredondar as vidas, ao arredondar défices, provocados estes por quem não soube gerir a economia de um país.

Sou professora. Em meia dezena de decretos vi a minha família separada, o meu local de trabalho mudado, o horário de trabalho aumentado, os meus direitos adquiridos esmagados, o meu tempo limitado, o meu grupo de docência alterado, com mais quinhentas pessoas à minha frente para efeitos de concurso, a minha criatividade cerceada, a minha progressão na carreira congelada, a minha idade de reforma aumentada em mais de seis anos e a minha dignidade profissional posta em causa. Sei de quem não tenha sequer conseguido ainda um lugar nesta escalada, apesar de lhe ter sido proporcionada a formação adequada. Sei dos jovens deste país no fim de uma interminável listagem sem esperança. Sei das fábricas paradas, dos campos desertos e lamento. Lamento um país que não soube dimensionar a educação, a formação profissional, o investimento, a produção, e resolve agora moralizar cegamente aqueles que apenas pretendem exercer o seu direito ao trabalho.

Por isso hoje, penso em todos aqueles que foram esmagados pela roda desatenta do progresso, assim lhe chamam preversamente. E sem demagogia, sem pretensões moralistas, apetece-me saudar os que resistem, incutir esperança aos que esperam, animar os que sucumbem, desejar a todos a realização possível no trabalho, a felicidade única de fazer parte de um todo com uma tarefa a cumprir.

Bom dia do Trabalhador! 

publicado por deSaraComAmor • às 02:02 PM • categoria: poesia

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Escreveste tudo e muito bem! beijos

contado por wind  em  05/01  às  09:17 PM

Um excelente texto com um final ainda melhor. Também eu desejo isso e creio que muitos milhões de nós. Vamos à luta!

Um @bração BEM GRANDE do
Zeca da Nau

contado por Zeca da Nau  em  05/01  às  09:29 PM

Um texto de luta, de quem não se entrega. Subscrevo inteiramente as tuas palavras finais.
Beijinhos

contado por lique  em  05/02  às  11:12 PM

Vê lá: impulsionado por ti, até “prantei” logo o meu nome, que a hora é de dar a cara! Grande libelo, amiga. Doloroso, empolgante e cheio de ânimo, como se espera e precisa!

É demais, na verdade, esta “lógica do número”. Trucida a vida toda e o quanto ela tem de nobre, apenas dando algum espaço de conveniência aos títeres e aos bobos da corte.

Naco sublime, este teu texto. Havia de chegar não ao Ministério, mas à ministra, pela mão do próprio filho (se o tem...). Para que a vergonha ainda lhe grite aos ouvidos e trave o passo ao despautério.

Com o devido respeito, vénia e tudo o que de mim esperes, permite-me que rapte este teu texto para o Sete Mares - coisa que será inédita! - pois lhe acho todo o merecimento da mais ampla divulgação. E exemplar!

Beijos e um obrigado sentido.

Beijos.

contado por Jorge Castro (OrCa)  em  05/03  às  12:31 AM

A situação que descreves com primor não difere da vivenciada por nós brasileiros… aliás, creio ser esta a nova lógica economicista e desumana a vigorar em todos os quadrantes.
Disseste bem, sem deixar sucumbir teus ideais.
Deixo um abraço fraterno e solidário.

contado por batista filho  em  05/04  às  11:56 AM

Li este texto no Jorge Castro, mas preferi vir aqui deixar o meu abraço solidário de Mulher e Mãe, para quem a Vida também não tem sido fácil.

Imprimi este texto, para o dar ao meu adolescente filho, para perceber aquilo que os Professores passam, para estarem com eles, a sofrerem por eles, o dia a dia.

Acima de tudo, um texto que acaba por ser comovente, de luta, do não cruzar os braços, de uma Mulher que o sabe ser.

Obrigada.

Um abraço carinhoso

contado por Menina Marota  em  05/06  às  04:48 PM

Colocas muito bem o dedo na nossa ferida nacional.
Nunca houve qualquer estratégia para o país nos últimos (talvez) 50 anos. Sim, porque se o Salazar tinha um projecto para o país na primeira metade do seu longo “reinado”, por muito mau que fosse, que o era, a partir daí foi sempre uma navegação à vista e, muitas vezes, de olhos fechados.
Claro que ainda é cedo para avaliar a gestão do Sócrates, mas a do Cavaco, por exemplo, que na altura até parecia menos má, ficamos a perceber quase 10 anos depois que foi um desastre a médio/longo prazo.
Há sectores que foram praticamente destruídos (indústria, pescas, agricultura). O turismo é titubeante e os serviços, que cresceram como cogumelos, pouco ou nada produzem.
O sector do Estado é uma manta de retalhos mal amanhada, desintegrado e arcaico. As reformas, muitas elas de pormenor e não de fundo, são impostas de cima para baixo e as partes interessadas não trabalham, de facto, no desenho dessas reformas, levando a que nem sequer as percebam e, por isso, só a contra-gosto é que colaboram.
Como contraste, apesar dos inúmeros problemas que têm, os alemães ainda possuem uma indústria e uma agricultura fortes. Estou na Alemanha e é o que vejo, não é o que me contam. A Itália, por exemplo, assenta a economia na indústria, na agricultura e no turismo. E nós? Na Auto-Europa? Onde, cada vez mais, o trabalho é feito por robots?
A angústia relacionada com o trabalho, a tua e a de tantos outros, é o resultado inevitável de políticas consecutivamente incoerentes e desligadas à medida que o poder vai passando de mão em mão.
Mas, no fundo, sabes o que eu acho mesmo? Somos um povo medíocre. Onde o xico-esperto é rei. Não podemos, por isso, esperar uma vida desafogada equivalente à média europeia nos próximos tempos. Mas podemos fazer muito melhor se os governos forem mais inteligentes e tiverem menos preocupações partidárias.
Desculpa ser tão longo, mas a culpa foi tua… não é todos os dias que se lê coisas com tanto interesse como as que descreveste.
Beijos.

contado por Nilson Barcelli  em  05/23  às  01:35 PM

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