a noite emerge de dentro de todas as possibilidades. é o espaço da não-existência, onde o silêncio nos cobre de estrelas na face, como num incêndio. é a hora de todos os rubores e de todas as verdades que vivem nos mistérios. busco na noite o espólio do tempo, busco-o e sinto-o a convergir para um mesmo ponto, o ponto sideral à esquerda da estrela da manhã na constelação do olhar que há muito me segue. talvez um deus mortificado, talvez um espírito sem nome, uma sombra sem lugar, um silêncio vivo. mas é tudo que sei do espólio da minha vida. um lugar onde estive, a miragem de ter estado e ter ouvido uma voz viva e ter sorrido e gargalhado. a inconsubtancialização de um ser em deíticos fundamentos. a identidade importa? apenas para confirmar a existência. existes porque tens nome, ou então se não tens nome não existes e a tua vida é a mentira que te conduz onde não és nem matéria, nem memória. espadas tensas na defesas da muralha. e eu que persisto em entrar pela verdade adentro e colher o seu mel saboroso, partilhado talvez no segredo da morte, talvez nunca venha a ser mais do que um segredo, já velho e esquecido, e já sem mistério será ainda o segredo da minha vida. e porém todas os fios invisíveis das teias do universo me prendem ao segredo e é segredando que me movo entre o gesto e o beijo, entre a palavra e o círculo. a noite abeira-se de mim hoje assim, em harpa e fuga, em flauta opípara de uma música que conduz aos labirintos da existência que vale a pena. aquilo que vemos com os olhos da alma, a pintura que fazemos e compila mais belo o real que a inspirou, o espelho que nos devolve a perfeição, o lugar onde tudo que existe vibra por dentro, num inaudível diapasão. harpejos de uma noite encantada em que me deixo vaguear pelos dois mundos, não sei a qual deles pertenço. ter nas mãos a pedra fria da realidade, sendo só corpo e concreta substância e sendo-o pisar as pedras preciosas do segredo, como quem desatenta o que tanto olha? mas se eu gosto tanto que o meu segredo me persista dentro...!! desfazê-lo em mil peças pequeninas, seria desperdiçar o brilho inteiro e depurado do magnífico brilhante do seu peito. sim, deixo que o segredo siga a direito, pelo atalho mais longo, que vá sem pressa e me deixe o sonho, a salva, a palma, a cítara, o néctar e a ambrósia, o mel da vinha. que tudo enfim permaneça na penumbra que me habita, na sombra que me segue, no segredo aberto da minha vida.