Por vezes quebro a placidez da casa
como quem profana a região secreta do corpo
e possui a sua áurea fruto a fruto
O fascínio da casa consiste na pedra
e na espera sempre de ver entrar o dia
no seu hálito intocável a ceras e madeira nova
na sua melancolia de lugar que se (des)povoa
A casa continuará a existir depois da voz
do som e da fala e depois de tudo
Passos irrequietos no tabuado
fantasmas do futuro avançam já incertos
ainda do seu papel na eternidade
Aqueles que virão depois de mim habitar a casa
já vivem – ouço-os que me ignoram
os sinais - foi existiu esteve era – já não.
Falam de mim como chacais bebendo a alma
da casa que sempre fui
E porém eu é que inventei a casa
pedra a pedra como quem afaga um corpo
e o completa na sua fálica nudez
Fui eu que plantei a palmeira e o plátano
e o chorão que refrescam a casa
Fui eu que inventei o teu nome
a casa o quarto o sonho
O teu nome -
que não sei
Fui eu que
Fui, sim
Fui
eu
E que bela casa…
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