era para ter sido de manhã
nas horas dos mercados ensonados
quando a cidade cospe os amantes
para o lustro obscuro das calçadas
estaria talvez o sol
quase a beijar a madrugada
mas foi de noite ao cair da morte
na hora iluminada da moderna urbe
sob o néon aqueles vultos apressados
unidos pela pele e pelos gestos
caminham resplandecentes como
iluminados filhos do deserto
com os olhares frescos de flores
parecem abraçar a eternidade
mas um corpo nunca mente
ao pulsar como uma estrela
no vazio de uma só noite
talvez nesse momento o mundo
se comprimisse em espasmos
e nós nos elevássemos
à condição de luz somente
mas o encontro viria a dar-se
nas arcadas da memória
como todos os regressos
adiados para sempre
nós que nunca partimos nem chegámos
somos agora o rio e a ponte
sem margem para ancorar
as naus frágeis do presente
"um corpo nunca mente” ...
)*
”...mas um corpo nunca mente
ao pulsar como uma estrela...”
... espero que a “morte” seja só do dia, o cair da noite…
Gostei!
Um abraço e bom domingo
Gostei imenso do teu poema, nomeadamente do final
“nós que nunca partimos nem chegámos
somos agora o rio e a ponte
sem margem para ancorar
as naus frágeis do presente “
Beijinhos
Um poema despojado e belo. Como (apeans) tu sabes.
Beijos
Talvez a navegação singre sem destino, mas “navegar é preciso”, nem que seja apenas para trilhar caminhos já trilhados e descobrir velhas verdades já esquecidas. Sem saudade, entretanto. Tão só como alimento do presente.
Beijos e saudades.