O silêncio tem voz,
uma voz que me vem do mar imenso e me traz
rumores doutras escarpas, outras margens, outros
silêncios, sinais de voo do pensamento, voos por
demais intensos,
loucos como só os pássaros os intentam,
o roçar das asas na onda do vento
o tinir da espuma na crista escavada
a voz apressada da corrente, a sua paz enfeitiçada
o areal que rodopia, magia disseminada,
uma dança de cristais, uma espiral desnorteada,
corpos incinerados na bruma, crustáceos alados,
margens insuspeitas, o cansaço das árvores
mutiladas, o húmus cortando a terra, uma mulher
fertilizada, o azoto abençoado pelas sombras
e a luz que se adivinha na corrente, impávidos
corais nos sentidos, algas perfumadas,
outros prodígios da fantasia, espuma de lava
e mais que o silêncio dessas vagas, essa corrente,
mais que as vozes do mundo encrespadas
há o dos búzios com o mar encarcerado
há uma maré de ilhas por encontrar, margens
cortadas, um rumor de ervas apodrecidas, passos,
ecos de passado, a alma um palacete
abandonado, o olhar um farol incendiado
e no horizonte nenhum navio apita na neblina
nenhum barco ancora na corrente
nenhuma voz é mais silenciosa que a minha.
16 de Janeiro
de 2004
O silêncio tem voz , sem dúvida. E tanto pode ser agradável como bastante desagradável. Creio que isso depende apenas de nós próprios!
Isto é apenas um devaneio meu ...
Beijito.
O silêncio tem voz.
Um poema lindo.
Ao ler-te, senti-me embalado pelo teu poema.
Ondulante, coerente, musical e belo.
Já é “velhinho”, mas gostei imenso de o ler.
Beijos.
Obrigada, amigos, por se terem pronunciado. É bom contar com o vosso calor humano. Um abraço a todos.
"nenhuma voz é mais silenciosa que a minha” ... mas chegou até a mim e se instalou em minh’alma, tal qual um canto irmão.