E depois dos rituais, a chuva veio alagar o mundo, maravilhando os corpos secos de ternura. Os homens ergueram os olhos para os céus com a inquietude dos bichos , duvidando da sua capacidade de produzir milagres e dedicaram-se a inventar novos deuses em cada nuvem que passava. As mulheres sorriram e continuaram a cuidar das rosas e a catar os filhos. Apenas ao entardecer repararam nas lindíssimas flores amarelas que a chuva produziu nas aboboreiras e então sentiram esse sinal como o início de novo ciclo de fertilidade. Ofereceram-se impudicas aos seus homens e estes rejubilaram de prazer, embriagados pela frescura afrodisíaca da chuva na terra molhada. A lama espalhada nos corpos misturava-se com as exudações femininas e com os fluidos que a secura contida e demorada libertava nos homens. Em cada nova descida ao país onde pasta a sabedoria dos deuses, os homens regressavam mais fortes e serenos, como atletas gregos após cada vitória. Então, as mulheres coroavam-nos de ramos de loureiro e deixavam que a chuva lhes lavasse lentamente os corpos para os ungirem com os óleos das plantas balsâmicas do bosque. Despertos pelo amor, mostraram-se laboriosos e reconstruíram os seus ninhos para a estação nova que chegava. Além disso, o excesso de chuva produzia a interioridade necessária ao pensamento e este brotava como os primeiros botões da manhã. Precisavam de recolher-se agora e agachados reflectirem nos milagres produzidos nas suas vidas.
Alguns, porém, apresentavam uma facilidade prodigiosa na recolha dos fenos e dos colmos, na cozedura do barro e regimentação de estacas para construir abrigos. Outros ficavam apenas a olhar e tornavam-se meros transportadores dos materiais necessários. Não era raro estes ficarem parados a meio de um gesto, contemplando o voo de um pássaro, ou as quiméricas forma das nuvens nos céus. Liam sinais e mecanicamente cumpriam as suas tarefas. Em breve as mulheres perceberam a diferença e conduziram cada homem ao seu destino. Sugeriram a uns que fossem em demanda de caça e pesca e a outros que se sentassem nos abrigos a sentir a chuva. Sob um coro de protestos, os homens obedeceram e partiram. Os outros ficaram no refúgio a pensar na força da intempérie e nas origens da chuva ou no mistério oculto nos corpos das mulheres. Assim estiveram durante um logo ciclo de luas, a meio de jejuns, apenas quebrados pela posse ocasional das mulheres que lhes ofertavam cestos de frutos secos e outras simples iguarias.
De noite, estas ofereciam também a sabedoria dos seus corpos e o dia amanhecia orvalhado de verdades profundas como o fogo, a roda, ou a rota das estrelas. Verdades amassadas na forja dos corpos e palavras únicas no tempo, inventadas na discussão acesa do entendimento, essa viagem a dois que se dá fora de qualquer espaço, e produz a paz e a inquietação, fermentando o grão da sabedoria.
Assim as mulheres, porque inspiradoras e condutoras do natural fluir do pensamento, começaram a assumir o carácter divino de tecedeiras do sonho. No espírito dos homens tomavam a forma de regaço, um imenso útero, uma concha de dores e de prazer. Eram elas a força que gerava as tempestades e amainava os corpos. A força que fertilizava a vida e produzia os frutos e o pólen das plantas, a poderosa alquimia da vida, uma força transformadora de tormento e apaziguamento, o paradigma único do sonho.
Mas em breve entre os pensadores começou a insinuar-se a cobra garrida do poder, sempre aliada da sóbria serpente da sabedoria. E ainda antes de provarem os frutos da árvore do conhecimento, já se insinuavam nalguns espíritos ideias precisas de comando. Era como se o pensamento tivesse desembocado numa linearidade absoluta, e os mais argutos tivessem descoberto uma via única e perfeita de orientação para o grupo. Certos das suas certezas e cientes da sua missão, alguns pensadores urdiram a aplicação concreta das suas ideias. Tudo até à data não passava de filosofia, sem que alguém ousasse aplicar-lhe um nome, uma sabedoria passiva que a ser actuante o era a pedido de algum espírito mais perturbado e nunca por imposição. Agora, nascia a ética nas mãos calosas dos primeiros feiticeiros. Ainda aceitavam a divinização da mulher, mas em breve estes sábios começaram a temer o poder que se ocultava nos seus férteis corpos.
E, à medida que aumentava o número de feiticeiros, diminuía a sabedoria geral e a capacidade inventiva dos outros homens. Em breve se moldou a ideia de medo no barro da punição. As mulheres foram assimiladas a uma força geradora de instabilidade. A palavra pecado nasceu por esses dias. Passou a sê-lo efectivamente, quando uma mulher chamada Eva ainda intentou devolver aos homens a capacidade de sonhar e agir.
Em breve, o pecado e a proibição são como uma indesejável erva trepadeira que se enredou nos corpos das mulheres e aprisionou o amor. Homens e mulheres arrastam-se sem vontade própria, mecanizando os gestos, medindo até as carícias na calada da noite. Algo se quebrou dentro dos seus corpos e os estilhaços envenenados circulam no sangue tornando-o uma espessa massa parada.
Algumas mulheres ainda resistem à normalização das suas vidas e ceifam-se de tudo que conspurque e tolha os seus corpos de deusas. Instigam ainda ao sonho, mas a confraria de pensadores apelidou-as de bruxas ou de prostitutas. Aumentou o número de vestais, devotadas aos novos deuses que foram tomando lugar na vontade dos homens. Estas e as demais, perderam a sua razão de ser algures entre os espinheiros dos dias e aguardam o novo milagre das chuvas que devolva os homens ao sonho e as mulheres aos seus corpos. Vestem-se de lua e devolvem-se à natureza em cada doação do corpo, sempre única porque só há um tempo para cada acto de amor. Sabem que um dia a estação das chuvas voltará a alagar o mundo, e a devolver aos homens e mulheres a mistificação dos dias. Os verdadeiros sonhadores encontrarão o pensamento na celebração da vida e esta renovar-se-á em cada manhã diluviana nos seus prodígios por explicar.
Homem e mulher celebrarão o reencontro dos corpos no júbilo arguto da mente. Estes voltarão a ser esbeltos e belos como os dos guerreiros atenienses, ou os dos atletas gregos que haveriam de deixar a sua pegada firme no caminhar da humanidade. E a chuva levará consigo todas as éticas e paradigmas de explicação do mundo, todas as palavras normalizadas e vendidas a fascículos, pagas pelo labor dos homens e mulheres, em suaves prestações e sacrifícios. Finalmente a humanidade voltará a ser livre de reconstruir os seus caminhos na reinvenção da força de amar.
Aberta a janela do teu entendimento, luz nova a arejar o entendimento de todos nós. No somatório do maior número possível de janelas abertas, não só a luz se fará mais forte, como também um vento gostoso a espantar os miasmas em nossas almas… tanto por ver, tanto por sentir, tanto a (re)descobrir…
Belíssimo post! Parabéns.
Encerrei o “ilhamutuns”. N’outra oportunidade voltarei com outro sítio.
Aos blogs aos quais me afeiçoei, continuarei dizendo - “oi!”