sou como a chuva quando cai a meio de Maio
sou terna e fria se nutro ou desmaio
sou calmaria ou lume frio se o mundo afago
alago o dia e dos teus olhos sou pecado
cadência minha a chegada ou a partida
tanto venho inusitada como falto à terra ferida
sou chuva lenta e limpa, água que salva
ou que mitiga a seca fala
da fome antiga nos lábios secos da vida
ouve hoje a água merecida e benta
a respiração das rosas sob a chuva
a água que nos procura dentro
e corpo a corpo navega fundo
abarca a manhã no seio da chuva
um silêncio suave que nos protege
a cadência que nos murmura
as palavras pluviosas da ternura
e sente a canção que a chuva traz
baila na chuva a certeza do amor
vive na chuva a alegria de existir
bebe da chuva o seu doce elixir
deixa que a chuva nos una a pele
e que a água escorra como mel
gota a gota o gume frio da chuva cai
e o dia diluviano apetece mais
atravessamos o dia no silêncio
e por veredas e ínvios caminhos
a chuva vaza o céu e alaga tudo
a chuva é um véu cinza e veludo
que nos liga e protege do mundo