Abro as portas da casa assombrada para que lhe bata o sol e o vento volte a circular nos corredores da madrugada. Liberto um a um os espíritos amplos
que vagueiam sombrios e ébrios pelos cantos, na incerteza da luz que lhes fugiu… Visito os quartos um a um em para quebrar a frialdade, rangem as portas dos armários as memórias de naftalina, os cheiros inebriantes de velhas vidas em velhos estios da minha infância. Quantos ali foram passados, em risos e jogos inventados, crianças que fomos, ali deixámos o eco das gargalhadas…
Ouvem-se ainda passos de mulher em saltos altos e um riso cristalino quase metálico. Outros e outros risos e sorrisos, ou apenas esboços de sorrir,
ou sorrisos que se ficam pelo olhar…
Corro e ainda vejo uma saia que ondeia ao vento no perfeito enquadramento da porta contra o azul do céu. Mulheres da casa. Fitam-me da vida que viveram em retratos cor das sombras, olhos profundos e densos, como em muda censura. Cumpre-me vivê-las onde não viveram. Devo-lhes a palavra que não tiveram. A voz de viver sem palavra que se ouça ainda, de onde falando nunca se ouviu.
Arejo todos os recantos, viro todos os retratos, fecho todos os armários e das gavetas retiro inefáveis saquinhos de doce alfazema sem cheiro, rendas e bordados magníficos, toucados de cetim e espartilhos, saiotes enrendados de ternura e o crochet das mantas e dos tapetes e das cobertas, crochet, sempre crochet, tanto fio tecido e tanto enfado, tantas horas e tanto novelo enleado, tanto tempo do passado, que se passou passajando meias,
bordando em bastidor de bambu, fazendo renda e esperando, sempre esperando, coração a nu. Liberto. Liberto estas mulheres que aqui ficaram, porque sempre aqui estiveram e nenhum outro espaço povoaram e porque aqui ainda deixaram em cestinho de renda, as suas pobres ilusões..
Chamo o mestre de obras e começam as remodelações.
21/01/03