poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Sábado, Janeiro 28, 2006

Ao Cair da Morte

era para ter sido de manhã
nas horas dos mercados ensonados
quando a cidade cospe os amantes
para o lustro obscuro das calçadas
estaria talvez o sol
quase a beijar a madrugada
mas foi de noite ao cair da morte
na hora iluminada da moderna urbe
sob o néon aqueles vultos apressados
unidos pela pele e pelos gestos
caminham resplandecentes como
iluminados filhos do deserto
com os olhares frescos de flores
parecem abraçar a eternidade
mas um corpo nunca mente
ao pulsar como uma estrela
no vazio de uma só noite
talvez nesse momento o mundo
se comprimisse em espasmos
e nós nos elevássemos
à condição de luz somente
mas o encontro viria a dar-se
nas arcadas da memória
como todos os regressos
adiados para sempre
nós que nunca partimos nem chegámos
somos agora o rio e a ponte
sem margem para ancorar
as naus frágeis do presente

publicado por deSaraComAmor • às 05:18 PM • categoria: poesia



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