O silêncio tem voz,
uma voz que me vem do mar imenso e me traz
rumores doutras escarpas, outras margens, outros
silêncios, sinais de voo do pensamento, voos por
demais intensos,
loucos como só os pássaros os intentam,
o roçar das asas na onda do vento
o tinir da espuma na crista escavada
a voz apressada da corrente, a sua paz enfeitiçada
o areal que rodopia, magia disseminada,
uma dança de cristais, uma espiral desnorteada,
corpos incinerados na bruma, crustáceos alados,
margens insuspeitas, o cansaço das árvores
mutiladas, o húmus cortando a terra, uma mulher
fertilizada, o azoto abençoado pelas sombras
e a luz que se adivinha na corrente, impávidos
corais nos sentidos, algas perfumadas,
outros prodígios da fantasia, espuma de lava
e mais que o silêncio dessas vagas, essa corrente,
mais que as vozes do mundo encrespadas
há o dos búzios com o mar encarcerado
há uma maré de ilhas por encontrar, margens
cortadas, um rumor de ervas apodrecidas, passos,
ecos de passado, a alma um palacete
abandonado, o olhar um farol incendiado
e no horizonte nenhum navio apita na neblina
nenhum barco ancora na corrente
nenhuma voz é mais silenciosa que a minha.
16 de Janeiro
de 2004