poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Sábado, Julho 01, 2006

A Lucidez das Rosas

Pintura de John-William Waterhouse

Quando as rosas são lúcidas e amam
quando as rosas se prendem nos poemas
quando as rosas sagram pelos dedos
há uma seiva azul de clorofila e medo
uma seiva que se esgota e se sacia
na insensatez que semeia a poesia

Na lucidez da rosas e dos caules
a essência que entorpece e purifica
as folhas leves destes versos de vida
esta voz única que se decepa
e duma mulher faz voz de poeta

E então toda a poesia é fragrância
e delas bebe a suavidade e a esperança
e como elas morre numa qualquer estação
se o poeta se amortalhar de silêncio
e se embebedar de suave solidão

Se amar é esta sintaxe que me veste
então eu serei a haste e o espinho
de toda a floração inerte - aquela que
nasce e morre e a mão não vê

Aquela que olhos não colhem, lábios não
cheiram beijos não bebem
doçura esta delicada da efémera pétala
que amanhã não será bela

E a poesia rega de dores cada palavra semeada
e a ilusão aduba de amor cada rima encadeada
e o amor arboriza um canteiro abandonado
sempre que a poesia brota do peito amado

Tudo o mais é o tempo que nos sopra
e por cada pétala nova há uma que esmorece
e esquecida se dobra pela haste
outra há que jubilante se renova e nasce

E por cada poema que podamos,
há um que grita no coração que amamos
nesse irrepetível milagre da lucidez das rosas
irrompendo frescas nas palavras que calamos

30 de Março
de 2004

publicado por deSaraComAmor • às 09:19 AM • categoria: poesia



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