Cresce a aurora orvalhada tão escura
Por dentro de meus sonhos em tropel
E tu vens alada de branca formosura
Plantar-me archotes vivos sobre a pele…
Bálsamo de teus olhos sobre os meus
Febre do corpo meu em combustão
Ardem ventos nocturnos e nos céus
Alegria breve colhida em profusão…
Somos campos de luta e de campeio
Corte de beijos em delírio arrebatados
Maré crescendo erguida e de permeio
Barcos em riste de teus seios perfumados
Em meu rosto consentidos e algemados
Cativo de ti derramado em fustre enleio…
... que percorre a intranquilidade de alguns sonhos, como se fosse dona de tudo. E, já agora, em soneto!
gosto tanto de te amar que tu mal sabes
nesse dengoso disfarce do que eu digo
gosto assim de ser eu amante-amigo
quando a fingir amor no meu peito cabes
por ser esta vida só um mar de entraves
por eu não poder tanto estar contigo
velarei por ti o quanto mais consigo
‘inda que ao de longe quanto tu nem sabes
e mal sobrevivo eu assim lembrando
partilhas de olhar ou de uma carência
neste desatino urgente em que eu ando
sem de ti saber suprir tal premência
no ardente desejo de ti mesmo quando
eu percorro a inquietação da tua ausência.
Tacteio teu olhar como se brisa fosse
No rosto inocente de todas palavras por dizer…
Seminais estas veredas em que me espraio
Como ondas ou inaudíveis sons do canto fossem
Tão certas que se esfumam em mistério
Como o decair da tarde no zénite do sol
Ou apenas no gosto acre depois da chuva…
Conforta-nos breve esta solicitude das palavras
Umas pelas outras como doirados reflexos
Alimentando-se das entranhas do vento
Sem outra glória que não seja a emoção alada
E o fio ténue de nós mesmos que as segura…
Habitamos as palavras e elas nos habitam
E nelas fecundamos o tempo e a vida…
As crianças dormem
serenas em seus sonhos
A noite arrefece sem gritar;
abre-se algures um luar
transido de betão
e no silêncio crepitam luzes
de uma outra margem por alcançar.
Somos pontes
e o mundo abeira-se de nós pelos seus arcos,
nas cidades ou nos campos
somos frágeis como barcos
Esquece os gemidos do vento
hoje gelado
as brumas amortalhadas
os véus rasgados
a serra que destila os seus mistérios
que eu vivo na penumbra dos teus olhos
com as estrelas sonolentas
e as velhas oliveiras centenárias
Não partas ainda do tempo
em que a solidão se consome lentamente
inclina o coração para a noite e sente
como é profundo o olhar do universo
a grandeza das coisas que não vemos
e verás que a noite cresce
e as luzes das cidades perdem brilho
e a cidade ao pé das estrelas
desfalece
verás que eu suspendo
a nitidez de cada gesto antigo
guardo Pégasos e prantos
para voar entre as histórias
que invento e nunca conto
mas te mando nas crinas do vento
escritas por magia e em tropel
por um qualquer cavaleiro da esperança
feito em dobras de papel
verás que resistir é apenas
uma questão de levar o fogo do poema
ao ponto onde ruíram as pontes
e em vez das luzes do mundo
visar as estrelas como dantes
reiniciando os caminhos já trilhados, sempre em novas circunstâncias, ocorreu-me uma recente travessia matinal do Tejo em que o barco me pareceu, de súbito, ancorado no meio do rio…
a ténue sugestão de neblina
na margem sul e muito ao rés das águas
perpassa no horizonte
sulcado por flamingos
e o rio corre lento na paisagem
Lisboa é uma linha fugidia
a acender-se no velho casario
e ao marulhar do rio
num cais abandonado
a lama vai cobrindo toda a margem
já mal desponta o grave cavername
da velha nau ancorada na vasa
poleiro de gaivotas
entre o mar e as colinas
grito-cinza que se lança à tempestade
e bordam cacilheiros seus destinos
em teias que entretecem densas névoas
e a seda que une as margens
é gente que neles singra
em derrotas já sem leme e sem miragens
mas o Sol que entretanto já espelha
por toda a extensão a madrugada
faz do rio ouro e prata
e aponta ao horizonte
o futuro erguido em poalha alvoroçada
a luz que cobre de cor a paisagem
intensa como o sopro duma aragem
desvenda outro porvir
desdobra a liberdade
de forjar o homem novo na cidade.
Bem-vindos a esta terceira versão dos POEMAS DE TRAZER POR CASA E OUTRAS ESTÓRIAS. Espero que neste novo servidor possamos receber-vos melhor, embora no mesmo formato e com a mesma decoração, porque sabe bem guardar constâncias num mundo de grandes impermanências. Ainda porque prezamos o azul, como marca do sonho e mar das navegações despretensiosas que fazemos.
Para inaugurar o espaço, começo hoje a publicar a primeira parte de uma estória passada numa inesperada dobra do tempo…
I
Clara e luminosa, ela rasga a pacífica noite, sentindo-se segura ao volante do destino, embora embrenhada numa estrada secundária a circundar a serra. Já avista as luzes da povoação, onde amigos lhe emprestam o brilho ocasional da família. Ao lado, as prendas cintilam como as estrelas e estas piscam alegremente como se espera numa noite de Natal. Tudo a postos e ao alcance da mão, a vida, como o amor, o telemóvel, a estrada até qualquer parte do mundo, os cartões de crédito, o sorriso alisado. Mas a euforia dura pouco. Um objecto na estrada, o carro guina, rodopia, o piso gelado ajuda a dança vertiginosa e ela apenas vê árvores endoidecidas, a estrada varrida por luzes e outros faróis no escuro. O choque foi absolutamente inevitável e cruel, com uma estridência lancinante de latas e vidros partidos.
No outro carro, o homem travou e virou para a berma da estrada minimizando o choque, mas as duas viaturas tocam-se e repelem-se, empurram-se e deslizam vorazmente para o mistério negro da ravina. Silêncio. A noite de repente vestida de uma bruma inquietante em volta dos carros. Talvez a figura bizarra que vem lá do fundo, do que parece ser um aqueduto, seja fruto do choque contra o volante, pensa ela e volta a ler-se outro tanto nos olhos dele. Ambos encaram o homem que se aproxima, como se da própria morte se tratasse. Estão bem, fora as dores no corpo, os zunidos na cabeça, o coração aflito.
Quem se atreve a abraçar a noite e a intranquilidade, deixando a segurança quente do carro? Os faróis banham agora em pleno um rosto enegrecido pelo frio, o nariz vermelho, o ébrio balançar. Um mendigo?
Ambos agem em consonância de gestos e atitudes. Telefonar. Ligar ao mundo. Voltar ao mundo. Pedir ajuda, a polícia, um reboque, um novo passaporte para o bem estar perdido. Mas o seu mundo estilhaçado não deixa ver claro na ordem anterior. Optam por confrontar-se mutuamente, ou enfrentar a escuridão e o velho vagabundo.
Que aconteceu, é ele quem fala primeiro. O vagabundo mede-lhe o estatuto com um rápido olhar à marca do carro e ao corte assertivo do fato escuro. Ela, coberta de lantejoulas e vidros do pára-brisas desfeito, assemelha-se a uma fada da noite, própria para entretecer mendigos solitários numa noite de Natal. Talvez pensasse estar a curtir a ainda breve bebedeira, não tivesse o homem do carro falado e proferido aquelas palavras, que aconteceu? Sim, que aconteceu, articula agora a sua voz gutural, com a cabeça quase metida no interior do carro. Ela afastou-se para onde o hálito não a bafejasse e instintivamente preferiu o ar pouco amigável do homem aperaltado.
Estamos lixados. Perdeu o controle do carro foi? Se calhar ia muito depressa, não? Não! Protestou ela. Foi algo na estrada, bati num pacote qualquer, uma trouxa, um objecto que não pude ver. Talvez algum pertence aí desse senhor…
Eu? Alto lá! Não tenho pertences, tenha paciência. Sou eu e esta garrafa e ali uma mantinha que me deram no último Natal. Um belo tributo cristão, por sinal que foi.
Pois bem, lindo serviço! E agora que vamos fazer, o seu carro anda? Talvez, não sei.
E subir a ravina? Como íamos fazer, mesmo se andasse?
O frio mordia-lhes as mãos, o olhar, a voz, mas a febre de encontrarem ligação ao mundo fê-los revoltear bancos e esvaziar malas, bolsos, nada, o telemóvel saltara para a boca da noite e o dele… jazia mudo e quedo nas profundezas da lataria amolgada.
Vamos ver se passa algum carro na estrada. O silêncio com garras. O vagabundo a rir escarninho. Por aqui? Coisa rara. A estrada nova é mais frequentada, embora evite a serra e se prolongue numa fita interminável, para chegar quilómetros e quilómetros depois ao sítio onde esta chega. O melhor será os senhores ficarem por aqui à espera que venha o dia. E o vento gélido lembra-lhes a urgência de um abrigo, a exposição à noite primordial dos tempos, uma caverna, um buraco onde este vento não entre. Mas onde? Ele quer ir buscar auxílio a pé. Mas teme deixar a desconhecida com o vagabundo embriagado, ela prefere segui-lo, vão. Ao fim de uns passos ouvem a risada sardónica do homem como um mau presságio, ela desequilibra-se na berma, os sapatos são demasiado altos para a noite, para a caminhada, tudo que têm e conhecem como confortável e selectivo, é demasiado inútil para aquela hora e aquele lugar. Não irão longe.
Mas não querem seguir o vagabundo que os convida com o olhar para o seu paraíso. Parece-lhes que ao fazê-lo abraçam para sempre a mesma condição e se perdem da vida, do conforto, da segurança, do brilho lustroso do luxo.
Só me faltava esta, vai ver que nos leva para a gruta de Belém. Ainda lá encontramos o burrico e a vaca ao lado de uma mendiga recém-parida! Ela não sabe rir, a boca é um esgar petrificado que o frio escavou profundamente. Parece-lhe descabido o comentário, como se subitamente se escavasse um outro fosso entre ela e os dois homens, mas desta vez ainda mais intransponível do que o do vagabundo.
Eu vou com ele, disse.
II
Vou também consigo. O meu cavalheirismo impede-me de deixá-la ficar sozinha, disse o homem enquanto fitava a bocarra negra da noite. Mas desconfio destes tipos. Nunca se sabe o que nos podem fazer. Nem sabemos se não está apenas a atrair-nos para o seu antro com más intenções.
Vai ter de confiar. Alguma vez na vida temos de confiar em alguém.
Pois. Confiarmos e sermos esfaqueados pelas costas pelos nossos melhores amigos.
Parece que já passou por isso.
Passei por pior até.
Nota-se.
Chegaram ao refúgio do vagabundo. Nada mais que um açude seco, abrigado do vento. Apenas uma manta e garrafas vazias, uma acabada de encetar.
Já vive aqui há muito tempo?
O suficiente. Por mim trocava de hotel, mas não há mais nenhum na vizinhança.
Hummmm. Silêncio entre os três. O vagabundo oferece um gole da sua garrafa. Ele recusa com um esgar de nojo. Ela apenas diz, polidamente: obrigada, não costumo beber.
Detesto o Natal, acrescentou. Somos obrigados a procurar família, quer a tenhamos ou não. Não sei porquê! Estaria bem melhor na minha casa. Sozinha, sim, mas segura e confortável.
Toda a segurança é ilusória e o conforto, esse, depende de nós. Repare como tudo é relativo… Eu estou aqui absolutamente confortável. Já vocês, não acredito que sintam o mesmo.
Claro, acrescentou o outro, irritado. Numa escala de degradação, cada bocadinho de conforto alcançado, depois de se perder um conforto maior, é sempre melhor que nada.
Degradação? Que entende por degradação? Como pode estabelecer paralelismos entre o viver debaixo de um açude e a degradação do ser?
Hummmm, minha cara filósofa, aposto que tem um curso de humanidades e faz assistência social gratuita. A extrapolação é sua. A degradação da vida, não é a mesma coisa que a degradação do ser.
Calado, o vagabundo seguia um rio interior de aparentes águas calmas. Lançada a discussão deixava que a mulher lhe advogasse a causa. Indiferente.
Não se importo com o que eu sou ou deixo de ser… De facto eu também não acho que sejam a mesma coisa. Mas precisamente a sua omissão teve todo o ar de insinuação. Explique-se. Parece ser exímio em dizer, sem se poder afirmar que disse. Deixe-me também lançar o meu palpite. Político? Gestor?
Minha cara, as lacunas discursivas são o lugar que um bom comunicador deixa ao entendimento do outro. Digamos que é uma espécie de promoção do interlocutor ideal…
O vagabundo fitou-o nos olhos. Objectou friamente: Claro. E eu sou o interlocutor zero, o otário que não ocupa o sentido dessas tais lacunas discursivas, porque não as entende. Claro que não pode haver cumplicidade se esta for acessível à plateia… Por isso, o senhor quer fazer de mim o seu referente.
Hummmm, estou espantado. Para alguém que vive num açude, sabe argumentar bastante bem.
Vê? Eu tinha razão! Mais uma presunção errada a que agora fez! Como se alguém que vive num açude não tivesse capacidade de pensar… Ou continuamos na tese da degradação do ser, por perda de ligações ao social?
Bravo, sim senhora. Agora pareceu-me mais uma socióloga a defender a sua tese de mestrado. E quanto a si, parece-me que também teve a sua dose de intelectualidade. Espanta-me que pessoas integradas possam vir a chegar a isto…
Não consegue imaginar-se no meu lugar, pois não?
Sinceramente, não.
Pois eu sim, acrescentou ela a tiritar de frio. Tanto consigo que algo me tocou nos ossos, assim como a mão gelada da morte.
Afinal é muito frágil. Julgava-a mais forte.
A minha fragilidade é intrínseca à existência humana. Nada mais frágil… Recordo-lhe como ainda há menos de uma hora seguíamos seguros da nossa vida.
Talvez demasiado seguros, disse entre dentes o vagabundo.
Continua