se te digo de palavras que são contos
ou dos cantos das palavras de dizer
que de encantos inebria ou nos faz tontos
tanto quanto quantos cantos te souber
se te digo apenas talvez o que sabes
ou então tudo o que eu sei que queres saber
ficará entre nós um céu sem aves
que de azul se perdeu já do entardecer
vem daí pois seremos bem capazes
de outro sabor descobrirmos nas palavras
que renasça do que eu faço e do que fazes
abrirei também a porta que tu abras
surgirão de nós palavras mais audazes
nesse campo onde semeio e que tu lavras
Gramática do Desejo
Desdobra-se agora a tela
E os rostos
São os semicerrados olhos
E a água o gesto puro
Das linhas
Decifradas..
(A cor
Não desejo
Ainda… )
Os tons breves e o silêncio
Que apenas os gestos
Gritam
E a pele abrindo-se
Sob os dedos…
(A sede
Não ainda
Arde...)
Desnuda-se o olhar
Lento
E abre-se corpo…
Cor e gesto
Ainda e o fogo agora
Entrelaçando-se na forma
Adivinhada…
Volátil espera
De lume e água…
apenas mais um apontamento para combater a (des)arte de se estar só…
era um dia como o de hoje
e tu vieste
era um dia igual a tantos
mas sentiste
chegar a ti alguma voz muda de mágoa
era um dia sem encantos
que acordaste
onde foste no deserto esse mar de água
era um dia como o de hoje
e tu vieste
e os prantos de mil sons emudeceram
era um dia do combate
que quiseste
e logo então mais de mil flores desabrocharam
e assim se fez o dia em que nascemos
e assim se faz no dia a caminhada
e eu sinto ao longe o grito de um poema
contra os medos de tormenta ou vento agreste
ao sentir-te junto a mim nesta jornada
e o dia renasceu
só
porque apenas
era um dia como o de hoje
e tu vieste.
John Mallord William Turner
(1775-1851)
perdida numa tela de Turner
a memória toda de existir
perdida em lugares profundos
entre pedras frias e túmulos
cobertos de água e fascínio
mergulhar na cor no traço puro
ser a textura da tinta ser o poema
ser o risco permaturo no olhar
que pinta a tonalidade única do
momento
sentir o aroma das romanescas
manhãs de amores - no arco
imperfeito da existência
uma rosa ardente
e uma vaga impressão de flores
Gramática do olhar
Descerro os olhos
E descubro os teus pousados no meu rosto.
Sou apenas tela…
Pressinto-te.
Agora é o brilho dourado buscando o verde
Ardendo-me na face…
Rubor evanescente.
Sem mais nada. O ocre da viagem e o sal
E o gesto breve…
Imperecível.
Suspendes agora a cor. Luzem as pálpebras
E a lágrima…
Bebo-te num beijo…
a rima no alfobre onde se arruma
a quadra mera estrofe ou um soneto
se arrimada a ritmo doce em sumaúma
da palavra silabada qual ornato
não tem tempo nem lugar e cada uma
criará outro alimento ao entreacto
onde até o mar azul se faz de espuma
onde até o céu de anil é de outro trato
dando corpo e alento vário à ideia bruta
num afago que afeiçoa a alma à outra.
Sobre o invisível leito das horas
Gastas de memória e de chuva
A eterna marca d´água indelével
E a terra desbravada… fruto ainda.
São estes sulcos veias e o sangue
É líquen em espasmos no caule
Da flor que ainda colhe os raios
No dobrar das folhas e da cor…
Evanescente desejo de caminhos
Sob os pés da viagem. Inesperados
Gomos que os lábios sorvem
Em sede de beijos reclamados ...
Assim, amor, esta ternura. Amoras
No gosto puro de manhãs claras
Que não sendo, são nossas. Tempo
Avaro. Declinar do tempo sob a hora…
Meu belo cisne
preso nas flores do meu peito
meu príncipe imperfeito
perdido nas rotas da vida
Meu cisne branco de luz
o meu corpo é um lago azul
minhas coxas estas algas
meus seios rosas ardentes
minha concha barca imensa
no desejo azul de ti.
Meu belo cisne encantado
obras de feiticeira insana
este branco encantamento
só beijo igual quebrará
e em homem te transforma
Vi as estrelas dos teus olhos
teu sorriso e esses vincos
que a vida riscou em ti
Vi tuas penas teu gesto
e a fuga em redor de mim
Meu amor assim te quero
nas manhãs de fresca alba
caminhando no deserto
marcado de pó e sal
caindo no meu regaço
teus olhos enfim sorrindo
meu pobre cisne cansado…
Cantarás dentro de mim
como canta à noite o vento
a asa tensa em meu corpo
em um sustenido lento
o canto final enfim se ouve
despimos a alma de pássaros
como quem nasce de novo
amantes em corpos estranhos
presos de versos eternos
nas ondas do infinito
abraçados mergulhamos…
recordemos as cores do paraíso
as luminosas dores
a rosa aberta nos sentidos
a volúpia da navegação cega dos cisnes
sigamos o astrolábio da vida
estas palavras adornadas
só dos anjos tão antigas
ou a rota azul das nuvens
que seguem distraídas
para a dissolução lenta
o único paraíso que alguma vez coube
na dimensão opaca de um poema
Dobram-se os dias
A memória é apenas gesso
E as breves frinchas
Nas cortinas rasgadas pelo vento…
E no entanto
Quedo-me suspenso
Desta hora
Nem de partida
Nem chegada…
Espera pura!…
O sangue balbucia o nome inacessível
Das coisas por arder
Bem sabendo
Que o coração rebenta
Nas impossíveis luas
E os pés
São apenas pó nos caminhos
Inalcançados…
E no entanto
Em todas as manhãs
Se soltam andorinhas
E primaveras
Como flores fortuitas
Recolhidas no orvalho
Suspenso
De meus dias…
entre as minhas duas mãos mal cabe o mundo
de futuro imperfeito
e mal amado
entre as minhas duas mãos
entre os meus braços
fica assim o presente que me enleia
enlaçado num passado
que deslaço
entre as minhas duas mãos mal cabe o tudo
daquele nada de que me faço
em palavras
entre as minhas duas mãos
o azul profundo
é um mar de palavras
inventadas
entre as minhas duas mãos cabe o presente
aquele outro de combate
e paliçadas
entre as minhas duas mãos
é mais urgente
pressentir de cada tempo
o inesperado
entre as minhas duas mão o amor ausente
há-de ser pelas minhas mãos sempre esperado.
Persiste o azul como se a boca
Fosse vulcão em transe de soltar-se
E o vermelho apenas indício
Ou ténue labareda em asas de cetim…
Sopram os olhos brasas também azuis
Como se a hora do voo fosse de espera
E a borboleta apenas o corpo da brisa
Que de tão suave se queima e queimando
Se arrisca no canto fugidio da chama....
Flores de lume nos traços do rosto
De azul vestidos como farrapos de céu
Que em dor se abrem e em desejo
Se cumprem sobre as plumas caprichosas
Do voo no esplendor dos dias…
E deste lado apenas o fio de ariane
E a seda de teus laços em que cativo
Me solto em teus abraços. E me comovo
No azul que bebo em coloridos beijos teus.
Talvez neste horizonte o breve fio de água
Despenhando-se na memória. Como esta fraga.
Ave planando sobre a presa e o repentino som
Da pedra. Granito ardendo no intimo silêncio.
Como pomos de fogo calcinados de azul ...
Debruço-me. Talvez a água agora seja apenas
Mãos no gesto de bebê-la. E a ave esta rapina.
Nem voo, nem pássaro sagaz. Ausência ainda.
Pura. Gavião e pomba desenhados no corpo
Do desejo. E meus olhos bêbedos de lonjura.
O vento que agora afasta a cinza é o mesmo
Embora. E a litania é eco no coro deslizante
De meus passos. Não a vereda palmilhada.
Nem as vestes. Ou o sangue seco nos espinhos.
Apenas rumor de fogo na palavra celebrada.
Descalço e de bordão como antigos monges
Colho a folha do carvalho. E enfeito os dias
Porta a porta caminheiro. E no portal de mim
Me acolho exausto. E mordo e rasgo. E clamo
Casa em que me guardo. Terra quanta vejo ...
era para ter sido de manhã
nas horas dos mercados ensonados
quando a cidade cospe os amantes
para o lustro obscuro das calçadas
estaria talvez o sol
quase a beijar a madrugada
mas foi de noite ao cair da morte
na hora iluminada da moderna urbe
sob o néon aqueles vultos apressados
unidos pela pele e pelos gestos
caminham resplandecentes como
iluminados filhos do deserto
com os olhares frescos de flores
parecem abraçar a eternidade
mas um corpo nunca mente
ao pulsar como uma estrela
no vazio de uma só noite
talvez nesse momento o mundo
se comprimisse em espasmos
e nós nos elevássemos
à condição de luz somente
mas o encontro viria a dar-se
nas arcadas da memória
como todos os regressos
adiados para sempre
nós que nunca partimos nem chegámos
somos agora o rio e a ponte
sem margem para ancorar
as naus frágeis do presente
Cresce a aurora orvalhada tão escura
Por dentro de meus sonhos em tropel
E tu vens alada de branca formosura
Plantar-me archotes vivos sobre a pele…
Bálsamo de teus olhos sobre os meus
Febre do corpo meu em combustão
Ardem ventos nocturnos e nos céus
Alegria breve colhida em profusão…
Somos campos de luta e de campeio
Corte de beijos em delírio arrebatados
Maré crescendo erguida e de permeio
Barcos em riste de teus seios perfumados
Em meu rosto consentidos e algemados
Cativo de ti derramado em fustre enleio…