poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Quinta-feira, Agosto 17, 2006

A Estação das Chuvas

E depois dos rituais, a chuva veio alagar o mundo, maravilhando os corpos secos de ternura. Os homens ergueram os olhos para os céus com a inquietude dos bichos , duvidando da sua capacidade de produzir milagres e dedicaram-se a inventar novos deuses em cada nuvem que passava. As mulheres sorriram e continuaram a cuidar das rosas e a catar os filhos. Apenas ao entardecer repararam nas lindíssimas flores amarelas que a chuva produziu nas aboboreiras e então sentiram esse sinal como o início de novo ciclo de fertilidade. Ofereceram-se impudicas aos seus homens e estes rejubilaram de prazer, embriagados pela frescura afrodisíaca da chuva na terra molhada. A lama espalhada nos corpos misturava-se com as exudações femininas e com os fluidos que a secura contida e demorada libertava nos homens. Em cada nova descida ao país onde pasta a sabedoria dos deuses, os homens regressavam mais fortes e serenos, como atletas gregos após cada vitória. Então, as mulheres coroavam-nos de ramos de loureiro e deixavam que a chuva lhes lavasse lentamente os corpos para os ungirem com os óleos das plantas balsâmicas do bosque. Despertos pelo amor, mostraram-se laboriosos e reconstruíram os seus ninhos para a estação nova que chegava. Além disso, o excesso de chuva produzia a interioridade necessária ao pensamento e este brotava como os primeiros botões da manhã. Precisavam de recolher-se agora e agachados reflectirem nos milagres produzidos nas suas vidas.

Alguns, porém, apresentavam uma facilidade prodigiosa na recolha dos fenos e dos colmos, na cozedura do barro e regimentação de estacas para construir abrigos. Outros ficavam apenas a olhar e tornavam-se meros transportadores dos materiais necessários. Não era raro estes ficarem parados a meio de um gesto, contemplando o voo de um pássaro, ou as quiméricas forma das nuvens nos céus. Liam sinais e mecanicamente cumpriam as suas tarefas. Em breve as mulheres perceberam a diferença e conduziram cada homem ao seu destino. Sugeriram a uns que fossem em demanda de caça e pesca e a outros que se sentassem nos abrigos a sentir a chuva. Sob um coro de protestos, os homens obedeceram e partiram. Os outros ficaram no refúgio a pensar na força da intempérie e nas origens da chuva ou no mistério oculto nos corpos das mulheres. Assim estiveram durante um logo ciclo de luas, a meio de jejuns, apenas quebrados pela posse ocasional das mulheres que lhes ofertavam cestos de frutos secos e outras simples iguarias.
De noite, estas ofereciam também a sabedoria dos seus corpos e o dia amanhecia orvalhado de verdades profundas como o fogo, a roda, ou a rota das estrelas.  Verdades amassadas na forja dos corpos e palavras únicas no tempo, inventadas na discussão acesa do entendimento, essa viagem a dois que se dá fora de qualquer espaço, e produz a paz e a inquietação, fermentando o grão da sabedoria.

Assim as mulheres, porque inspiradoras e condutoras do natural fluir do pensamento, começaram a assumir o carácter divino de tecedeiras do sonho. No espírito dos homens tomavam a forma de regaço, um imenso útero, uma concha de dores e de prazer. Eram elas a força que gerava as tempestades e amainava os corpos. A força que fertilizava a vida e produzia os frutos e o pólen das plantas, a poderosa alquimia da vida, uma força transformadora de tormento e apaziguamento, o paradigma único do sonho.

Mas em breve entre os pensadores começou a insinuar-se a cobra garrida do poder, sempre aliada da sóbria serpente da sabedoria. E ainda antes de provarem os frutos da árvore do conhecimento, já se insinuavam nalguns espíritos ideias precisas de comando. Era como se o pensamento tivesse desembocado numa linearidade absoluta, e os mais argutos tivessem descoberto uma via única e perfeita de orientação para o grupo. Certos das suas certezas e cientes da sua missão, alguns pensadores urdiram a aplicação concreta das suas ideias. Tudo até à data não passava de filosofia, sem que alguém ousasse aplicar-lhe um nome, uma sabedoria passiva que a ser actuante o era a pedido de algum espírito mais perturbado e nunca por imposição. Agora, nascia a ética nas mãos calosas dos primeiros feiticeiros. Ainda aceitavam a divinização da mulher, mas em breve estes sábios começaram a temer o poder que se ocultava nos seus férteis corpos.

E, à medida que aumentava o número de feiticeiros, diminuía a sabedoria geral e a capacidade inventiva dos outros homens. Em breve se moldou a ideia de medo no barro da punição. As mulheres foram assimiladas a uma força geradora de instabilidade. A palavra pecado nasceu por esses dias. Passou a sê-lo efectivamente, quando uma mulher chamada Eva ainda intentou devolver aos homens a capacidade de sonhar e agir.

Em breve, o pecado e a proibição são como uma indesejável erva trepadeira que se enredou nos corpos das mulheres e aprisionou o amor. Homens e mulheres arrastam-se sem vontade própria, mecanizando os gestos, medindo até as carícias na calada da noite. Algo se quebrou dentro dos seus corpos e os estilhaços envenenados circulam no sangue tornando-o uma espessa massa parada.

Algumas mulheres ainda resistem à normalização das suas vidas e ceifam-se de tudo que conspurque e tolha os seus corpos de deusas. Instigam ainda ao sonho, mas a confraria de pensadores apelidou-as de bruxas ou de prostitutas.  Aumentou o número de vestais, devotadas aos novos deuses que foram tomando lugar na vontade dos homens.  Estas e as demais, perderam a sua razão de ser algures entre os espinheiros dos dias e aguardam o novo milagre das chuvas que devolva os homens ao sonho e as mulheres aos seus corpos. Vestem-se de lua e devolvem-se à natureza em cada doação do corpo, sempre única porque só há um tempo para cada acto de amor. Sabem que um dia a estação das chuvas voltará a alagar o mundo, e a devolver aos homens e mulheres a mistificação dos dias. Os verdadeiros sonhadores encontrarão o pensamento na celebração da vida e esta renovar-se-á em cada manhã diluviana nos seus prodígios por explicar.

Homem e mulher celebrarão o reencontro dos corpos no júbilo arguto da mente. Estes voltarão a ser esbeltos e belos como os dos guerreiros atenienses, ou os dos atletas gregos que haveriam de deixar a sua pegada firme no caminhar da humanidade. E a chuva levará consigo todas as éticas e paradigmas de explicação do mundo, todas as palavras normalizadas e vendidas a fascículos, pagas pelo labor dos homens e mulheres, em suaves prestações e sacrifícios. Finalmente a humanidade voltará a ser livre de reconstruir os seus caminhos na reinvenção da força de amar.

publicado por libelua • às 12:49 AM • categoria: contos

:: Sexta-feira, Agosto 04, 2006

BASTA !

“When I despair, I remember that all through history the way of truth and love has always won.
There have been tyrants and murderers and for a time they seem invincible but in the end,
they always fall - think of it, ALWAYS.”

Gandhi

publicado por deSaraComAmor • às 02:32 PM • categoria: crónicas

:: Sábado, Julho 22, 2006

Takes

Take 1

respiro a tarde como se renascesse
tranquilas aves silenciosas descem
em voos picados no dorso dos peixes
como um veleiro o tempo apetece
o vento vagueia em vagas sem rumo
e na luz de partida para lá do poente
grinaldas douradas pintadas a sangue
o mistério solene da paz de um instante

Take 2

é no céu da palavra que a poesia irrompe
celebrar o mundo como se celebra um corpo
sentir que o pensamento se despe de sombras
e parte na luminosa poalha do sonho
até onde a concha nos alberga e esconde

Take 3

só o mistério das marés ainda nos confunde
e a nossa voz sem asas criou sombras
escurecemos as palavras como se o Verão
não fosse este oiro que cai e se renova

publicado por deSaraComAmor • às 06:20 PM • categoria: poesia

:: Quinta-feira, Julho 13, 2006

Miragem

Ali onde os cristais brilham no escuro
e um rio de súplica vai para jusante
ali onde os astros tiveram seu declínio
ali mesmo contei o mar sobrante

Ali na alvorada do prazer, na orla do
círculo de sal, dancei dentro da miragem
nas faúlhas de um fogo por arder

Se os cristais eram pétalas, não sei
porque o rio brilhava de prata azul
e havia seda de luz no seu encalço

Era a origem de todas as sedes do
poço da ternura
Era mais que canto mais que uma
aguda espera

Era o declínio dos astros nos sentidos
o magma luzidio, a febre, a sede de rosas
e de estio, eram lufadas de ar no dossel
do mundo e o corpo solto de espadas
e leve de murmúrios…

Delicadamente uma rosa se abriu
em pétalas que caíram leves e soltas, sem
o peso das coisas mortas. Voar é a miragem
mais perfeita, pensei no encalço da luz.

Harpas em torrentes de volúpia e o
zénite do sonho eleva-se no escuro:
Ó amanhecer de um novo Ser nas águas
florais do pensamento - ó miragem dos
sequiosos de novos oásis de vento!

4 de Fev. de 2004

publicado por deSaraComAmor • às 09:31 PM • categoria: poesia

:: Sábado, Julho 08, 2006

estados de alma - Esdrúxulo

abrenúncio fico ao rés do precipício
ortorrômbico de mil faces me estranhei
prognóstico prenuncio aqui-d’el-rei
onanístico num espanto de prepúcio

endovélico me queria desde o início
proletário por caminhos em que andei
alfarrábico por saberes que já nem sei
em paradas festejando o solstício

e lá vou quase ao rés do analítico
alegórico numa fé estapafúrdia
sorumbático que me sinto e abúlico

analfabético entre verve e prosa espúria
clavicórdico tantas vezes evangélico
metafórico de esdrúxulo nesta fúria.

publicado por OrCa • às 09:06 AM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (3) •

:: Sábado, Julho 01, 2006

A Lucidez das Rosas

Pintura de John-William Waterhouse

Quando as rosas são lúcidas e amam
quando as rosas se prendem nos poemas
quando as rosas sagram pelos dedos
há uma seiva azul de clorofila e medo
uma seiva que se esgota e se sacia
na insensatez que semeia a poesia

Na lucidez da rosas e dos caules
a essência que entorpece e purifica
as folhas leves destes versos de vida
esta voz única que se decepa
e duma mulher faz voz de poeta

E então toda a poesia é fragrância
e delas bebe a suavidade e a esperança
e como elas morre numa qualquer estação
se o poeta se amortalhar de silêncio
e se embebedar de suave solidão

Se amar é esta sintaxe que me veste
então eu serei a haste e o espinho
de toda a floração inerte - aquela que
nasce e morre e a mão não vê

Aquela que olhos não colhem, lábios não
cheiram beijos não bebem
doçura esta delicada da efémera pétala
que amanhã não será bela

E a poesia rega de dores cada palavra semeada
e a ilusão aduba de amor cada rima encadeada
e o amor arboriza um canteiro abandonado
sempre que a poesia brota do peito amado

Tudo o mais é o tempo que nos sopra
e por cada pétala nova há uma que esmorece
e esquecida se dobra pela haste
outra há que jubilante se renova e nasce

E por cada poema que podamos,
há um que grita no coração que amamos
nesse irrepetível milagre da lucidez das rosas
irrompendo frescas nas palavras que calamos

30 de Março
de 2004

publicado por deSaraComAmor • às 09:19 AM • categoria: poesia

:: Domingo, Junho 18, 2006

canção do exílio

Minha casa meu rio meu horizonte
coisas que a memória já perdeu
meu dia minha tarde minha noite
meu sono seco de todas as fontes

Minha tribo meu sangue assediado
meu fogo que se acende na neblina
meu ritual de luz dança em surdina
minha busca incessante de ternura

Meu azul de neve na penumbra
minha cidade verde de queixumes
meu silêncio arado nos rochedos
minha terra morrendo de lonjura

Meu sopro de todas as manhãs
cinza das searas incendiadas
meu amor enleado de serpentes
meu poço de todas as verdades

Minha cidade arremessada ao vento
meu rosa seco nesta rua urbanizada
meu nome é sal e esta é a palavra
que cuspo na saudade que me mata

Meu sentir em espadas desferido
meu dossel do céu sem avenidas
minha paixão crescendo ao sol
entre as fases da lua proibidas

Meu sonho nos braços do luar
Meu despertar num delta de silêncio
este lago de lava adormecida
que me aquece o corpo e me ilumina

publicado por deSaraComAmor • às 03:30 PM • categoria: poesia

:: Sábado, Junho 10, 2006

as casas brancas de Sophia

as casas brancas
o céu de anil
e o rosa forte de buganvília

deuses amenos
águas de Abril
espinhos rosas ramagens mil
e um rio flui sorvendo margens
viagens de águas em tons serenos
feitos de sons
das aves todas entre as estevas
gritos
chilreios
de espantar medos

e as chaminés que o fumo levam
pelas giestas e por montados
e o vento é norte
aura de mar
azul mais forte
a desenhar brando contorno em tons de lua
laivos de sal
e de cal nua
feita brancura dolente a sul
e o mar dourado do sol poente
faz-se mais quente
depois do azul

e o rosa forte da buganvília
vulcão de cor no céu de anil
cobre de esperança
o medo e o pranto
nesse quebranto
das casas brancas no mês de Abril.

publicado por OrCa • às 11:20 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (5) •

:: Sexta-feira, Junho 09, 2006

Casa de pedra

Por vezes quebro a placidez da casa
como quem profana a região secreta do corpo
e possui a sua áurea fruto a fruto
O fascínio da casa consiste na pedra
e na espera sempre de ver entrar o dia
no seu hálito intocável a ceras e madeira nova
na sua melancolia de lugar que se (des)povoa
A casa continuará a existir depois da voz
do som e da fala e depois de tudo
Passos irrequietos no tabuado
fantasmas do futuro avançam já incertos
ainda do seu papel na eternidade
Aqueles que virão depois de mim habitar a casa
já vivem – ouço-os que me ignoram
os sinais - foi existiu esteve era – já não.
Falam de mim como chacais bebendo a alma
da casa que sempre fui
E porém eu é que inventei a casa
pedra a pedra como quem afaga um corpo
e o completa na sua fálica nudez
Fui eu que plantei a palmeira e o plátano
e o chorão que refrescam a casa
Fui eu que inventei o teu nome
a casa o quarto o sonho
O teu nome -
que não sei
Fui eu que
Fui, sim
Fui
eu

publicado por deSaraComAmor • às 06:11 PM • categoria: poesia

:: Domingo, Junho 04, 2006

Jardim de Tílias Secretas ou

Cartoon aparentemente deslocado aqui
The Guardian - Steve Bell

Aqui neste desvão da terra
este lugar agreste e mudo
como todos os lugares
geologicamente elevados do mundo
frente à escarpa de vulcânica origem
há um jardim de silêncio profundo
onde vou colher sopros de paz
para espalhar no meu caminho
não tem flores vivas, nem sorrisos de
crianças
o jardineiro não cria rosas apenas se
debruça sobre as pedras e lhes dá
o brilho ocasional das coisas frias
recolhe piedosamente as flores que descaíram
as jarras que o vento levou ou se partiram
e de resto só lá vive o rumor dos ciprestes,
algumas tílias olorosas e a fenda na paisagem
coisas secretas que a cidade viva não tem
que ninguém vê nem aproveita
mas lhes sabe absorver a cor magnífica
porque soube viver e morrer de forma
benta como todos que vão deveriam ir
serenos na sua hora - que nenhuma guerra
ou mão humana adianta

publicado por deSaraComAmor • às 10:27 AM • categoria: poesia

:: Sexta-feira, Maio 26, 2006

o ouro da palavra

O tempo tem andado velho encimesmado; a vida tem sido vaga e variada no seu vagar entediado.
E tendo tido o trigo e a palavra, tendo sido amados pelos deuses, ficamos emudecidos como pedras,
cercados pelas águas de Letes, as incipientes lagoas da alma, onde nadam razões caladas.

Havia sido escrito nas fábulas: teríamos talvez naufragado, mas havíamos de arder em paixões e mágoas
com as cinzas presas na fala. Somos a cadeia anafórica da morte - uma deíxis sem referência temporal -
aproximadamente quase nada se nos quisermos eternizar. Escreverei um dia esta carta so-le-tra-da i-nu-si-ta-da.

Hei-de quebrar o selo do silêncio e oferecer-vos o ouro da palavra se ouro houver no silêncio que vos trago. Devereis
reabrir cada sílaba lacrada, como o papiro da vida, folha frágil, onde o tudo evanescente é o subdomínio matemático
do na-da.

Um vendaval anuncia a dispersão de uma noite de almas e lamentos depois talvez madrugada iluminada. O sol literal,
aquele que beija indiferente a terra ou o mar, o verme ou o roseiral virá diligente aquecer de ternura as águas sábias
e silentes onde Ofélia um dia apareceu le-va-da como um junco do canavial da existência…


publicado por deSaraComAmor • às 11:09 PM • categoria: poesia

:: Domingo, Maio 21, 2006

saudosismo

- proposta de sorriso

estranheza de me ver
campos afora
assim correr
mal irrompe a luz da aurora?

um ramalhete rubro de papoilas
que planto vivas
à entrada de um exílio

que frescas se ouviam as vozes das moçoilas
loiras divas
palpitando em meu auxílio

um tempo de inocência
tal cenário
doçura sem penitência
relicário
onde nem cabe sequer a impertinência
doce de um Cesário

mal sei hoje a quantas ando
e quando
mas em cada instante brando
em que a vida me comove

então
é verem-me a correr para lá a nove!

publicado por OrCa • às 05:30 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (5) •

:: Sexta-feira, Maio 19, 2006

Lucidez da Espera…

Cobre-me o corpo esta memória de cinza breve
Desfolhando sílabas fumegantes. Prenúncio talvez
Da noite sobre o outeiro. Céleres aves d´outrora
Em voo rasante infectadas de vagas profecias ...

O lago é esta flor perdida na foz de um seco rio
Excrescências letais correndo no interior da seiva
Que o manto da lágrima sufoca - a flor e o cio! –
Mandrágora festiva negando-se no vórtice da hora…

Enxutos os olhos é a inútil labareda que se agita
Desmaiada harpa que o canto álacre não requer
Espuma apenas na quebrada onda já sem brio…

Apenas esta ilusão sofrida na lucidez da espera
Corvos brancos pairando sobre o nada e o vento
Em monótona toada gemendo o bater do dia…

publicado por Romeiro • às 10:42 AM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (9) •

:: Domingo, Maio 14, 2006

rimas cavalheirescas

Soprou hoje leve brisa matinal de ensejo,
que me trouxe aqui a este areal extenso,
sedenta de te roubar um beijo.

Cavaleiro meu, porque esperas tu,
para cumprires com este meu
impuro desejo?

Afagar-te ou recolher um olhar teu,
será como tocar a imensidão dos céus
e queimar de sol as asas que me levam.

Bruxuleante chama eu sou e caio
na terra que viu meu sonho arder,
na lonjura em que te busco sem te ver.

Cavaleiro meu, porquê esperar
pela eternidade em nós infinda
para me estreitar de ti faminta?

Sede que trago e não é extinta, acende
em mim desejo azul de tardes
longorosas, envoltas em véu de tule.

Cavaleiro meu, de pérfida espada,
que esperas de mim nesta enseada
em que encalhou nossa barca?

Para sempre te deixo os meus sinais:
na torre em que se fecham os meus ais
te aceno em lenços brancos de cambraia.

E tu, Cavaleiro que passas, em tua
armadura baça, para cima me gritas um verso
e na minha clausura o recebo e agradeço.

Mas, Cavaleiro meu, porquê esperar
pela eternidade em nós infinda
para me estreitar de ti faminta?

publicado por deSaraComAmor • às 10:15 PM • categoria: poesia

:: Segunda-feira, Maio 01, 2006

do trabalho

Uma das componentes mais marcantes da natureza humana: a necessidade de agir sobre o meio ambiental e social, produzindo bens alimentares, bem-estar, saber, riqueza material, artística, científica, progresso. Trabalhar. Um direito, um dever, uma necessidade, um vício, um escape, um objectivo, uma benção, uma seca, um castigo mas, sobretudo, uma forma de estar e de ser.  Somos também aquilo que fazemos. Quem se sente realizado no seu, tem aí uma fonte de juventude e saúde mental. Quem se sente injustiçado no seu, quem se sente maltratado, quem se sente explorado, assediado, incompreendido, preterido, aniquilado, tem aí uma fonte de amargura que envenena o quotidiano. Por vezes, quem o tem, lamenta-o, quem o não tem busca-o.  Quem o procura desespera, quem o perde sente o maior vazio da sua existência.  Quem o deixa ficar rotineiro e vazio, definha. Quem se impõe metas e desafios rejuvenesce. Quem se entrega, morre. Quem não luta pela melhoria de condições no seu, dá força à forte corrente do poder.  Quem aprendeu a calar cedeu ao medo.  E cada vez mais o círculo se estreita à volta do trabalhador, neste pequeno Portugal como no mundo inteiro. Este é visto como uma força motriz, um compto, um dígito positivo ou negativo, um alvo a abater ou a promover, conforme o interesse do momento. Os imperativos do lucro, definem o destino do indivíduo, alteram-lhe os planos, a estabilidade, o génio, a vida familiar. A justificação do défice faz-se na plataforma laboral, sacrifica-se na condição laboral, traduz-se no arruinar de vidas, com a conivência e incentivo do Estado. Este é o árbitro silencioso das vidas anónimas. Agora cada vez mais, é o propulsor da instabilidade, porque cada mudança é uma medida economicista susceptível de arredondar as vidas, ao arredondar défices, provocados estes por quem não soube gerir a economia de um país.

Sou professora. Em meia dezena de decretos vi a minha família separada, o meu local de trabalho mudado, o horário de trabalho aumentado, os meus direitos adquiridos esmagados, o meu tempo limitado, o meu grupo de docência alterado, com mais quinhentas pessoas à minha frente para efeitos de concurso, a minha criatividade cerceada, a minha progressão na carreira congelada, a minha idade de reforma aumentada em mais de seis anos e a minha dignidade profissional posta em causa. Sei de quem não tenha sequer conseguido ainda um lugar nesta escalada, apesar de lhe ter sido proporcionada a formação adequada. Sei dos jovens deste país no fim de uma interminável listagem sem esperança. Sei das fábricas paradas, dos campos desertos e lamento. Lamento um país que não soube dimensionar a educação, a formação profissional, o investimento, a produção, e resolve agora moralizar cegamente aqueles que apenas pretendem exercer o seu direito ao trabalho.

Por isso hoje, penso em todos aqueles que foram esmagados pela roda desatenta do progresso, assim lhe chamam preversamente. E sem demagogia, sem pretensões moralistas, apetece-me saudar os que resistem, incutir esperança aos que esperam, animar os que sucumbem, desejar a todos a realização possível no trabalho, a felicidade única de fazer parte de um todo com uma tarefa a cumprir.

Bom dia do Trabalhador! 

publicado por deSaraComAmor • às 02:02 PM • categoria: poesia



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