poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Terça-feira, Janeiro 09, 2007

asas de borboleta

Pela manhã…
Vejo-as que voam no meu olhar
Os mágicos seres das manhãs estivais
Que pousam em mim como teus sinais

Borboletas nas flores, sedentas de amores
Crisálidas abertas nos corpos ascetas
São marcas a sépia da memória que cessa
Se o corpo apetece e a noite enlouquece

Então…
Vem um navio cruzando a pele acesa
No dorso de barro moldado nos dedos
Nos membros serenos outeiros de segredos
Ancoragem doce na foz dos meus seios
Nas ancas de enleios nos confins do beijo
Noites de veludo num luar de anseio
Hastes que se erguem, efémeras asas
De silêncio e pólen e seiva de sémen

Desfeitas as roupas nas tuas mãos cegas
Ávidas rosas que em si se consomem
Pólen dos corpos a saber a mosto

E um mar que cresce e a maré que avança
Para o voo maior da vaga que dança
E alaga de espuma a úbere caverna
Onde nada a vida e o tempo descansa
E uma ébria borboleta sai de nós nutrida
E pela madrugada lança-se veloz
Sobre o nosso leito de ímpios amantes

Depois…
Serenos partimos neste rio urgente
Navegas para a foz e eu a montante
Como as borboletas no voo de um instante…

2 de Agosto de 2004

publicado por libelua • às 01:03 AM • categoria: poesia

:: Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

A Raiz das Manhãs

Hoje penso em ti
na raiz desta manhã que
entardeceu
Penso em ti como a fonte
e o raio de luz que a encheu
Penso na velada dor
de te ter nos meus sentidos
um fértil rubor, um só
suspiro

O eco no arco do mundo
essa muralha de pedra
entre nós dois erguida
e mesmo assim
trespassada de setas
desferidas

Penso em ti neste dia
silenciado, fechada no
coração do nevoeiro,
molhada de chuva
alheia aos sinais do
desalento porque
mesmo longe
juntos amanhecemos
no vento, rasgando
a seiva da manhã
sempre suspensa
e na paixão entardecemos
indolentes
para anoitecermos
friorentos
na doçura de um sorriso
tonto…
O sorriso que plantará
a raiz das manhãs
em terna mente

23 de Fev.
de 2004

publicado por deSaraComAmor • às 10:14 AM • categoria: poesia

:: Terça-feira, Janeiro 02, 2007

voando, voando sempre

No amanhecer do novo ano, venho aqui voar contigo, convosco… Os blogs, essa inconstante forma de estar e de ser, por aí disponível ao alcance da voz e dos espíritos, têm-me dado oportunidades infinitas e infinitamente aproveitáveis nessa tal arte de encontrar o outro. Tanto lhes devo, pois.

Ao fim de cada ano o saldo mantém-se positivo e as expectativas elevadas. Já nem falo dos afectos, de contabilização impossível.

Como na lei geral da vida, os blogs nascem e morrem, cumprindo-se. Em homenagem viva, um pequeno poema que me foi sugerido por excelente fotografia ‘postada’ há algum tempo na Catedral, pelo amigo Ognid, num desses desafios em que este campo é fértil - se assim o quisermos entender:




voando
voando sempre no descaso do voo
faces de rugas e mãos de guitarras
reflexos de mar em paletas de auroras
palavras de raiva que brotam nos dias
na ânsia das pontes
e esse horizonte que tarda em chegar
voando
voando sempre no acaso do sonho
e a mão fugidia num afago breve
que nos dá alento no dia mortiço
feitiço de vida que nos enternece
e assim apetece beber outro dia
voando
voando sempre…

publicado por OrCa • às 10:28 AM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (2) •

:: Sexta-feira, Dezembro 29, 2006

NoVaS.dO.teU.oLhAr

Sinto o teu olhar ausente em mim seguro
o porto é vasto, e os barcos muitos
cruzando os mares frios de silêncio,
e ondeando em ventos logo impuros.
Mas na tua vela apenas se desfralda
um horizonte de contentamento mudo…

Sinto o teu olhar carícia ardente,
em promissora devoção de flores carnais
em voos de invenção do impossível
em zonas de inscrição de mais e mais
sempre o muito agora e o tudo apenas
na certeza de meus olhos que é serena.

Sinto o teu olhar fresca floração
suspenso nas fráguas inóspitas do mundo
e no horizonte que contemplas vejo escrito
o desejo e a vontade do meu corpo
a dádiva do teu cerrado e mudo.

Enquanto os olhos despedem as palavras
cobre-se de um fervor amargo a tua ausência
e disparam desde já lírios imensos
para as oblíquas voltas do tempo ido
em que nos faremos de novo doce olvido.

Deixo-te novas de um tempo novo:
viajaremos mais pelas colinas e
em novos areais nos deteremos.
Em estridente fogo azul arderá o mundo
enquanto nos fizermos metal uno.

E eu serei a voz que silencia a dor azul
e tu serás o corpo que precede a morte
e ambos seremos cabo de qualquer esperança
que na vida se perfile, esbelta e magnífica,
como se refaz numa menina nova trança.

7 de Junho de 2003

Até 2007! Um Bom ano para todos! 

publicado por libelua • às 10:22 AM • categoria: poesia

:: Terça-feira, Dezembro 26, 2006

Da Escrita

Escrever é um acto impulsivo. És como um fumador passivo, respiras ar e fumo como se não pudesses ingerir um sem o outro. Escreves porque tens de dizer o que houver a dizer a quem dizer, ainda que penses que é a ti próprio que o dizes. Por vezes começas cegamente no lento labor de embrulhar uma ideia, encriptar um gesto, uma vontade, um sentimento, torna-se experimental o que dizes, a tua culinária é saborosa em primeiro lugar para ti, no final sentes-lhe a falta de sal, talvez pimenta, ingeres-te completamente. Um dia avanças com o corpo, arrasas a mente, cobres e descobres a memória, já não podes parar, abraçaste Deus e o Diabo duma só penada, escreves porque te encaminhaste para o labirinto das palavras e descobriste as mil e uma formas de te dizer, o vício da parábola, o vestido luminoso da metáfora, o fingimento a arte de te dramatizares em breves actos de múltiplas cenas. Só tu entras e sais, mas vão contigo outros e outras como tu, os que descreves, os que prescreves, os que lês e os que vendes como tu, pois adquiriste o direito de contradizer, depois de nada mais te restar fazer. Probematizas o vazio, fazes-te imitação do que imitas, filiação, devoção, paixão. Cultivas secretamente Tanatos num vaso de flores salgadas, ao mesmo tempo que te agarras às saias de Édipo para ganhares o direito à tua alma, mas a poesia já te menosprezou o coração como objecto alquímico e tu sabes. Tornaste-te um dia compulsivo, reduziste o mundo ao teu mundo, apartaste-se da fonte, ganhaste as asas da sublimação para um dia substituires num voo a própria vida. Nessa altura o poeta que és ensaia cenários que irradiquem de si possíveis bolbos, raízes abraçadas, persegue obsessivamente a originalidade escreve em dobras de tule, bombazina e tabuada, inventa a tábua rasa criativa, desmonta influências, mata o Outro, devora e vomita estéticas, produz estética. Nessa altura, o poeta está tecnicamente falido.  Como homem. Mas terá atingido a voz mais pura da pedra luminosa da palavra.

publicado por deSaraComAmor • às 05:08 PM • categoria: poesia

:: Domingo, Dezembro 24, 2006

Como todos os dias deviam ser…

Silêncio, muita paz, amor, a luz da partilha incendiada na alma, num tempo como todos os tempos deviam ser… de amor, simplesmente.

publicado por deSaraComAmor • às 02:38 PM • categoria: poesia

:: Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

night rose

pendurados os relógios no tempo em redor da alma,
sentemo-nos sobre o sono e sejamos os épicos
guerreiros da palavra solta e frágil de amarras
a alma a queimar o tecto, a alma amarelecida pelos estios
na ponta narcótica de um cigarro, sejamos rios

a lama ardente já fincada nos teus passos
em volta danças arremessando palavras ao fogo
uma a uma incineradas para que nos expludam
denunciando a celebração de tréguas no tempo
que enfim nos abre o mistério das estrelas
dezembrinamente frias mas ardentes belas

para que nos exista a febre a cintilação das veias
e a palavra te escorra pela garganta como nêspera
docemente mel melodiosa iridiscente e fresca
uma bátega de inocente chuva na púrpura musselina
das despidas vestes minhas do momento

pois há noites opulentas que nos fervem nas mãos
são as noites onde os corpos anoitecem o cansaço
nas ritmadas danças de um harém deserto
bátegas de vento cospem os vidros que desassossegas
no quarto as rosas ferem profundamente verdes

há uma véspera vazia aberta a um litoral diferente
tu que me colhes árvore e avanças entre o pomar
para que te nutra no meu seio de seiva e sol
como num pacto de sangue a noite é-te fiel e morre


publicado por libelua • às 01:21 AM • categoria: poesia

:: Sábado, Dezembro 16, 2006

do mundo das sombras

Pintura de Henri Fuseli, claro…

Acordou com um poema antigo nos lábios como se ao lado do candeeiro estivesse pendurada a voz meiga da luz.  Andava alguém na escuridão mas nada era audível, nem passos nem respiração, apenas estava alguém. Mesmo sem vislumbrar contornos do seu mundo conhecido, sabia-se num outro cujas arestas lhe pareciam arredondadamente leves, suaves e flexíveis, próprias de um espaço de borracha ou algodão. A sensação inominável de ver com os dedos, tactear um mundo que dispensa a visão, porque é luz e dela vive.

Vinham na sua direcção pirilampos que lhe entravam olhos a dentro iluminando-a por fora em mil cores do arco-íris. A pele trémula de afagos, electrizada no íntimo como o candeeiro do imenso salão onde agora dançava, mariposeando em volta de um vasto mundo de estátuas, mármore e peças de marfim. Pausa. Um gole de silêncio, cheio de uma música feita de ecos fragmentados. Cobriam-na rendas que lhe segredavam ao ouvido todas as estórias de todas as bordadeiras e tecedeiras do mundo, um colete que lhe esfaqueava o corpo em cada crime perpetrado em corpo de mulher, lágrimas manchavam os lenços de cambraia esvoaçantes, ela era todas as mulheres menstruadas num mesmo ciclo, muitas mãos lhe puxavam o vestido, rostos tristes de crianças a reclamar-lhe o colo, os bicos túrgidos, apetecidos, revirados, reclamados, mirrados de tanto leite tanta obra de paixão e morte.

Voltou-se para olhar o que deixava atrás de si e nada viu. Quis retorcer, não a deixaram. Ela pertencia agora ao mundo dos sem voz.  Flores, havia flores e círios a arder-lhe no ouvido. Alguém a retomava no extenso palacete da eternidade e ela não sabia.  Açucenas espalhadas pelo chão, odores magníficos da morte e um esquife num carrossel à velocidade da luz. Voava agora projectada a mil anos-luz da realidade, ia talvez feliz, num voo ícaro de encontro a esses braços que sentia eternizados no corpo.  Desapareceu no reverso de um pálido sorriso, adentrando-se na esfera imprecisa do vazio. Conhecer a ausência de gravidade e sentir o arrepio da queda, ser sombra e ser sem se sentir matéria, mas sentir-se matéria no planar cadenciado contra a anti-matéria de outro corpo. Absorvida, sugada, desmineralizada para dentro de alguém, despossuída de si, só matéria gasosa, hélio ou massa leve.

Eleva-se com a leveza de um véu, docemente soprado pela brisa acariciante de um mês primaveril. Suspensa do mundo, despe-se do corpo, transforma-se em sorrisos e porém a doçura de águas quentes, marulhantes, vivas, invade-lhe o que resta dos membros.  Sente a pulsão dos sentidos e quer tocar-se. Nada encontra e porém é amada em cada milímetro da pele por mãos de ave, penosamente leves, na tortura do toque. Debate-se contra uma legião de peixes que a trespassam, um cardume distraído que lhe atravessa o corpo, têm pressa, vão povoar talvez outro sonho, agora surge um polvo, o corpo volta-lhe, as mãos tocam corais que a ferem, o sangue escorre-lhe dos dedos, os seios sangram, as rendas são de rede e envolvem-lhe o corpo pescado pelos sonhos, os anjos voltam para a resgatar do obituário de mais uma noite no mundo das sombras, que brancas se fazem lume.

publicado por deSaraComAmor • às 10:58 AM • categoria: poesia

:: Terça-feira, Dezembro 12, 2006

Manhãs suspensas

... como jardins de Barcelona
imensas, gulosas e frescas
na preguiça de um café,
na incerteza de uma vírgula
ou das asas de uma frase
que venha e voe, que varra
e espalhe o medo, a dor,
o pranto, a poeria derramada
o olhar vórtico preso
à vária resistência, a vida
um violento vulcão extinto,
mas por dentro em ebulição viva,
marulhar de águas gotejantes,
fogo de um navio fantasma
respirando à proa e cuspindo mastros,
e as águas uma navalha acesa,
apontada à telúrica circunstância.
Manhãs suspensas, abismos
que alastram, fugas encetadas
para a fluidez dos astros.
Tudo enfim são anagramas
que as mãos, trôpegas, inscrevem,
na superfície porosa
de um simples guardanapo.
E a vida um papagaio verde
a que já se perdeu o fio
e no poente esbarra e arde.

Manhã de 5 de Maio de 2003

publicado por deSaraComAmor • às 07:57 AM • categoria: poesia

:: Sexta-feira, Dezembro 08, 2006

Infinito Absoluto

Sobe, segue a montanha no seu dorso
olha estas casas que se perdem no vazio
vê os caminhos que o tempo já percorreu
sem que se atingisse o espaço absoluto
olha as muralhas em ruína
os ventos bruscos
sente a inclinação da luz
pelo crepúsculo
alisa a escarpa que se abre
no teu peito e chora meu amor,
chora no ar fresco rarefeito
por todos os espaços que ainda
não percorreste e transpiras por viver
- porque o cais que buscas é a noite
a noite dos predadores sem medo
onde às vezes, mas só às vezes
na transparência do silêncio
entre as montanhas onde vive o tempo
o mar diz o teu nome a medo
na dança das águas contra o vento
e todo o absoluto de uma vida
cabe nesse relativo momento…
Sobe, escala a montanha até ao sol
aqui onde o tempo se retrai
aqui mesmo te reinventei como urze
solitária ou composto de carbono
nascido da terra mãe
Sobe e procura as cinzas
do lume onde o tempo arde
E sente o infinito absoluto
Do teu nome ecoando pelos vales…

20 de Nov. de 2004

publicado por deSaraComAmor • às 06:44 PM • categoria: poesia

:: Terça-feira, Dezembro 05, 2006

A Voz do Silêncio

O silêncio tem voz,
uma voz que me vem do mar imenso e me traz
rumores doutras escarpas, outras margens, outros
silêncios, sinais de voo do pensamento, voos por
demais intensos,
loucos como só os pássaros os intentam,
o roçar das asas na onda do vento
o tinir da espuma na crista escavada
a voz apressada da corrente, a sua paz enfeitiçada
o areal que rodopia, magia disseminada,
uma dança de cristais, uma espiral desnorteada,
corpos incinerados na bruma, crustáceos alados,
margens insuspeitas, o cansaço das árvores
mutiladas, o húmus cortando a terra, uma mulher
fertilizada, o azoto abençoado pelas sombras
e a luz que se adivinha na corrente, impávidos
corais nos sentidos, algas perfumadas,
outros prodígios da fantasia, espuma de lava
e mais que o silêncio dessas vagas, essa corrente,
mais que as vozes do mundo encrespadas
há o dos búzios com o mar encarcerado
há uma maré de ilhas por encontrar, margens
cortadas, um rumor de ervas apodrecidas, passos,
ecos de passado, a alma um palacete
abandonado, o olhar um farol incendiado
e no horizonte nenhum navio apita na neblina
nenhum barco ancora na corrente
nenhuma voz é mais silenciosa que a minha.

16 de Janeiro
de 2004

publicado por deSaraComAmor • às 11:54 PM • categoria: poesia

:: Domingo, Novembro 26, 2006

panteísmo

Pintura de Imelde Tobia, nata a Perugia nel 1911,

tenho uma serra azul a crepitar no mar
neblinas luminosas afagam as pedras
a chuva recolhe para dentro do olhar

tenho esta manhã de gesta inquieta
a poesia solta neste orvalho urbano
a luz que penetra nos cantos da noite
a memória densa que dói e seduz

o tempo aparou as dobras do medo
nascem em casulos borboletas leves
solta-se a ternura na pele dos dedos

escrevem-se cores por fora do sol
liberta-se a voz no verde da serra
há uma idade velha que passa por nós
o corpo que apela à clemência da luz

a natureza espera o meu gesto fútil
pintá-la para quê se o belo existe
além das libações que lhe cumpro hoje

evoco a serra porque é o meu mundo
as árvores solteiras respiram virtude
os poetas bebem harpas e alaúdes
onde só o vento os torna fecundos

a vida que vela sensata por nós
a vela que volteia no ar da manhã
a paixão debruada no brilho da foz
a idade que vira para a baía da paz

reflicto o que vejo neste espelho duplo
de um lado a existência, a fala no outro

a natureza é este corpo suspenso
divindade muda de apaziguamento e luz…

Bom Domingo! 

publicado por deSaraComAmor • às 10:58 AM • categoria: poesia

:: Sábado, Novembro 25, 2006

Polémicas à portuguesa

Nunca ouviram falar de revoluções que ocorrem mesmo em cima do nosso nariz e nós não as vemos? Pois, eu às vezes também me distraio por uns tempos… E desta vez fui-me deixando levar por uma espécie de ataraxia residual, como se tudo em mim funcionasse em modo de segurança e limitei-me a cumprir-me rigorosamente sem vacilar no menor gesto. Ao fim destas semanas comecei a sentir-me como uma máquina de aparar relva no automático e resolvi dar um saltinho ao mundo, só mesmo para ver. Mas ver como veria um turista ou um alienígena acabado de chegar ao Terreiro do Paço. Sim, só aí. Portugal… Pouco sei do mundo. É demasiado complexo e nada se faz sem guerra. E aqui, no país, tudo se faz com conversa, muita conversa, uma espécie de tira teimas estrutural em que cada um anda a ver se é mais teimoso do que o outro, ou se consegue arregimentar mais almas para a sua causa. E a cisão de opiniões é como uma racha tectónica a atravessar as pessoas, como se a liberdade de expressão permitisse antes do mais que cada um se pronuncie em causa alheia, como se fosse sua.

Chamaram-me a atenção para certo fórum do Jornal Expresso. Tinha de ir ver. Dois ou três professores aguentavam estoicamente as chibatadas de uma chusma de gente a opinar sem hesitações sobre a vida dos profissionais da classe. E a proferir insutos. As coisas que aprendi sobre mim! Ronha matinal, por exemplo, uma coisa que deve ter a ver com a rasteira que se passa ao tempo, no turno da manhã. Deve ser por isso que os professores são os únicos funcionários públicos que levam falta ao 1º minuto do segundo toque. Ronha matinal… E ainda outra: temos os filhos sempre no mês de Março. 90 dias de licença de parto e pimba, ganda pontaria, já não trabalhamos nesse ano lectivo! Fantástico como só agora me ocorreu esta virtude programática da classe. Preparar aulas? Qual quê, e como podíamos comparecer no cabeleireiro se o fizéssemos? Nada. Ensina-se a olho. Ia para me inscrever e coadjuvar os meus colegas que lhes iam aparando o fado. Mas, num Jornal como O Expresso em linha? Inacreditável. O anonimato na net dá cobertura às maiores enormidades. Aparecem transvestidos de filhos de professoras traumatizados pelas mães ociosas, chefes de secretaria que as sabem todas, jovens a recibo verde que querem baixar a fasquia da precariedade a toda a gente, dignos senhores reformados a falarem do tempo do outro senhor. Mas todos se contradizem mais tarde ou mais cedo. E os meus colegas lá, com muita calma… ainda lá estarão, na liça? Fechei. 

... para me dar conta de outra cena de injúrias, estas mais civilizadas e a atingir os píncaros da sofisticada manipulação de opinião. A guerra da TLEBS. O queeeê? Quem ainda não sabe o que é a TLEBS, o novo papão que vem aí traumatizar as crianças em idade escolar? A guerra entre os linguistas e os literatos. Valha-me Deus, o que este país se consome em polémicas, rios de tinta só para se sobressair na cena cultural, a intelectualidade disputada, o direito a ditar a cultura no rabo de uma cátedra! Que a Maria Alzira Seixas e o Saramago e outros assim como eles se envolvam na parada, é coisa que me interessa como cor local, a ver o que isto dá… pessoalmente investi todo um ano de trabalho na piiiiiii da Terminologia Linguística e já que a encaixei e lhe vejo o mérito, custa-me que quem nunca deu uma aula no Básico ou Secundário venha mais uma vez opinar sobre o que é que é bom para os alunos. Mas quando vejo a causa nas mãos de um Graça Moura a servir de seta envenenada sua ao Ministério da Educação, e logo no dia seguinte também na boca peluda do Eduardo Prado Coelho que muito oportunamente, como lhe é característico a lança como seta simultaneamente ao Vasco, ao Ministério e ainda a Maria do Carmo Carmona, então percebo que não serve de nada a ataraxia, este mundo quer-me mesmo na liça. E lá terei de ir. Voltei. meus amigos. A polémica é tlebicamente desgastante. Não tolero desinformação, oportunismo, muito menos o espezinhamento do trabalho honesto e transpirado por parte de ninguém, quanto mais dos Graças Mouras deste mundo em busca de protagonisto malgré tout…

E os efeitos destas cascatas conservadoristas são tais, que se teme já uma autópsia linguística ao cadáver de Camões, uma desumanização do ensino, um crime de lesa majestade à língua portuguesa. Uma mãe numa livraria andava ansiosa à procura de uma nova gramática adaptada ao novo programa, receando saber menos do que o filho.  Alguns professores aprendem o que podem, outros rejeitam a mudança recusam a imposição, e todos falam e ninguém sabe quem tem razão. Por mim, uma mudança de designações no domínio da disciplina de Língua Portuguesa não me assusta, sobretudo se melhorar as minhas práticas e puser os alunos a pensar e a perceber a língua materna, mas não me lembro de ter opinado acaloradamente quando ocorreram outras modificações igualmente radicais, noutros domínios do saber. Porque será que neste campo a mudança incomoda e indispõe tanta gente?

Até breve!

publicado por libelua • às 08:34 PM • categoria: poesia

:: Quinta-feira, Novembro 16, 2006

A GEDEÃO – NOS 100 ANOS DO SEU NASCIMENTO (24 DE NOVEMBRO)

(pé ante pé, bato ao de leve na porta, pedindo licença para entrar… não sendo um filho pródigo, nem qualquer outro prodígio, cumpro promessas mais que devidas à excelsa dona desta casa… à falta de flores, trago o Gedeão, sempre fresco, que inspirou, com o seu desassombro, com o seu tão fino sarcasmo e a sua tão doce ironia, estes meus pobres versos...)

gê de ião? – pouco provável
que um átomo p’ra apresentável
requeira algum monograma
porque não usa pijama
e passando a electrólise
careça de mais análise
p’ra concluir o programa

gê de quê?… ah é de António?
mas não se vê o porquê
tal letra assim à mercê…
‘inda se fosse plutónio
agitação de neurónio
neutrónio bombardeado
isso sim daria brado

agora cá esse gê
dando ao rosto um outro nome
sem nos dizer o porquê…

ele havia um Galileu
tipo estranho cuja fome
era muito olhar para o céu
num gesto que era tão seu
que lhe chamavam um vício
(coisa que em boa não deu
p’los lados do Santo Ofício)

disseram-me mesmo agora
que era de sonho tal letra
cruzando pelos céus afora
qual luzidio cometa
e era um gê de grandeza
pois é um gê com certeza
de que se fez um poeta.

- Jorge Castro

publicado por OrCa • às 11:52 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (3) •

:: Sexta-feira, Novembro 10, 2006

TernasSãoAsMadrugadas

Ternas são as madrugadas, bordadas a seda de carícias,
corpos que se buscam como rosas ressequidas,
em manhãs de linho na suspensão das horas e sentidos.
E nesse gesto sem tempo, pára o mundo,
cessa o sonho com sentido, procura-se o infinito,
e no cabo de um braço assim estendido,
nesse promontório ébrio, há uma trémula ilha,
arquipélago vasto desenhado nos teus dedos,
como paisagem pintada de fresco,
a magenta a luz opalina dos gemidos,
um rumor de águas, um latejar de incenso…
Na flor dessas indefesas madrugadas,
em concha nos fechamos a um mundo adormecido
onde a voz dos homens se desfaz em sonho líquido
e o pensamento erra por campos outros florIdos.
E no arco do desejo se desfaz enfim
essa tensa nota de violino, esse rubor meu como carmim
esse rio imenso sem foz nem moinho
essa dor sofrida dos sentidos, apenas fogo,
apenas sustenido, respiração (sopro ferido?)
terna sendo a remissão do desejo solto em riso.
E os meus olhos dançam nos teus dedos
em cada novo afago e terno beijo,
em cada palavra assim esvaída
da queda de nós nos campos verdes
nas cascatas e demais lugares acesos
nos caminhos bordados a palavras e certezas
nos poemas entrelaçados de promessas
na certeza do “nunca” ser demasiado cedo
para tanto amor tanto pássaro desfeito
tanta sede semeada, tanta incursão no medo…
Porque na voz da bruma, meu amor,
teu nome esmorece em queda febril
e o meu gesto de afago queda-se suspenso
despertando em lençóis de neblina,
quando a voz dos teus olhos seca de penumbra
e eu apenas e uma madrugada peregrina
e nada mais do que o barro do silêncio,
um quartzo iluminado na memória, essa
viajante sombria em rendas de menina…
E tu e eu apenas prólogo de uma história
antiga.

9 de Setembro
de 2003

publicado por deSaraComAmor • às 10:54 PM • categoria: poesia



página 2 de 6 páginas
 <  1 2 3 4 >  Último »