poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Domingo, Junho 24, 2007

Concerto de Aranjuez

Tenho uma estória a contar, passada em terras tardias dos tempos em que de Castela soprava a Inquisição e naus partiam sem fala
para terras por achar em busca de riquezas e honrarias e almas para salvar. Oiro havia e pedrarias nos cofres de ferro real. Mulheres
mediam a vida pelas flores rasas da planície, uma esfera de âmbar, um lírio de Andaluzia, uma luz lunar, um rio lume de silêncio a
romper margens vazias, tanta tarde tanta tília, tanta tentação tentilha, os homens andam no mar, os homens amam a guerra, tanta
trégua na muralha a sentinela cicia salvas palmas sevilhanas, marés do Guadalquivir, cabelos negros grilhetas apontadas ao sentir,
uma guitarra fervilha na calçada de Agadir, flores que apetece colher numa tarde na Medina a erosão da caliça, o quarto ateia a preguiça
- eu não parto no navio fico no catre a sonhar com o sonho que sonhei hei-de sonhar algum dia: nas masmorras de Toledo o meu coração
está preso por amar em demasia. Santas vozes me proclamam para arder na fogueira e à noite a morte vem pela fresta da seteira.
Mas numa tarde de sesta, quando a canícula é gesta e as cigarras enlouquecem em grinalda cantaria, tu vens no timbre da tarde quebrando
o selo da morte, as grades rangem a fundo, uma guitarra de âmbar entoa o dedilhar da saudade, rasgamos teias e tules, tu avanças no meu catre,
eu regaço eu languidez, tu tronco tenso raiz mascarilha espadachim cravas cravejas as pedras que rasgam dentro de mim - lágrimas limam as
faces, luares lanças e linhagens e o mistério muda o tempo, o tempo recolhe as asas e a oração assim parte num alazão de porte árabe a trote
em passo flamenco, atrás fica a fogueira dos mestres das santas artes, e tudo enfim nos consuma na fuga em terras de Espanha, perto das cinco
da tarde, tendo o sol por fronteira e o amor como viagem. Sob uma árvore me plantas e ao sol assim me devolves: que a tarde nos seja seda,
que a tarde nos seja sangue, que a tarde nos traga rosas e rimas rezem romances, que a tarde tenha redes que a teia se emaranhe, que o tear
nos prenda e a cal viva nos calcine as palavras entre dentes, que tu me prendas os pulsos, soltos num prado prazer, que tudo enfim nos partilhe como
água fresca subtil, álgida fonte de rir serenata sumarenta como os lábios pela seca sorvem da sede o prazer, assim a salvo do mundo a tarde é
fuga do vento, eu embarco na maré, tu nadas-me corpo adentro é a tarde que nos leva como lírios na corrente… ao longe um som se amplifica
lâminas rasam o mundo, num concerto sem presente de liberdade - magnífico! Nada mais que isto sei, a não ser que este concerto ainda me toca
por dentro esta estória que contei, uma estrela a arder nos lábios, um relicário de memórias da alquimia dos sonhos que me vivem escondidos
no sangue mouro que respiro.

publicado por libelua • às 05:53 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (4) •

:: Sábado, Junho 23, 2007

.

publicado por deSaraComAmor • às 09:52 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (0) •

:: Sexta-feira, Junho 22, 2007

Novo livro de João Maria Nabais

METAMORFOSE

Aqui sentado
procuro
o teu rosto
no meu rosto
já gretado
pelas horas plenas
de solidão -
vivo
um tempo
enamorado
de ilusão
em harmonia
contigo
e o silêncio
luzente da cal
fria da lareira
já passado o natal

pouco já recordo
antes de ti…
a partir de hoje
vou gostar
de estar contigo
apenas
só por estar
sem as medidas
preclaras
fixas
de tempo e espaço
a perturbar o olhar

mais que nunca
preciso de manter
viva esta
necessidade
de tocar o teu olhar
e beijar
um corpo nu
ainda desconhecido
sem restrições

espero
não ser tarde
para te amar
pois não sei
se terei
coragem
para acordar
amanhã
de novo
sem a força perene
da Poesia
a sulcar
com a mão dormente
os papéis
amarrotados
pelo chão
enxuto de sílabas

João Maria Nabais

in Memórias de Amor e Sedução
2000

Lançamento do livro de autoria de João-Maria Nabais, intitulado

Terra de Húmus e Neblinas
Edições Ceres
Apresentação pela Dr.ª Francisca Trindade
Leitura de poemas por Alexandra Santos e autor

23 de Junho (sábado), pelas 16 horas – Auditório da Biblioteca Municipal, Rua da Bandeira

Barreiro

JOÃO-MARIA NABAIS, médico Pediatra.

A sua obra literária (poesia) consta de quinze livros publicados: O Silêncio das Palavras – 1992; Crepúsculo das Noites Breves – 96; Instantes e Vivências – 97; POEMAS - 97; Novos Navegantes – 98; Memórias de Amor e Sedução – 2000; Cidade dos Rios – 01; Sons de Urbanidade – 01; Espírito do Vento – 02; Monsaraz – 02; Palhais – 02; Criança, Um Tempo de Fuga – 02; Interior à Luz – 03; O Lugar e o Mito – 05; Terra de Húmus e Neblinas – 2007
___________

Distinguido por mais de uma vez: Prémio Moldarte Pintura / 1987; Prémio ANTÓNIO PATRÍCIO de Poesia / 1996, 2002 e 2006 com os livros Poemas, Sons de Urbanidade e O Lugar e o Mito, todos pela Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos; Medalha de Mérito Cultural da Associação de Escritores Médicos e Jornalistas de Bucareste – Roménia / 2004
___________

Tem cerca de duas centenas de artigos e ensaios publicados nas áreas das Ciências da Saúde, História da Medicina, Escritores Médicos, Judaísmo e de Literatura.
Já fez perto de três dezenas de comunicações sobre História da Medicina e realizado conferências científicas nacionais e internacionais sobre a gesta dos médicos sefarditas portugueses.

Parabéns, meu querido amigo.

publicado por libelua • às 12:11 AM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (0) •

:: Segunda-feira, Junho 18, 2007

o segredo

a noite emerge de dentro de todas as possibilidades. é o espaço da não-existência, onde o silêncio nos cobre de estrelas na face, como num incêndio. é a hora de todos os rubores e de todas as verdades que vivem nos mistérios. busco na noite o espólio do tempo, busco-o e sinto-o a convergir para um mesmo ponto, o ponto sideral à esquerda da estrela da manhã na constelação do olhar que há muito me segue. talvez um deus mortificado, talvez um espírito sem nome, uma sombra sem lugar, um silêncio vivo. mas é tudo que sei do espólio da minha vida. um lugar onde estive, a miragem de ter estado e ter ouvido uma voz viva e ter sorrido e gargalhado. a inconsubtancialização de um ser em deíticos fundamentos. a identidade importa? apenas para confirmar a existência. existes porque tens nome, ou então se não tens nome não existes e a tua vida é a mentira que te conduz onde não és nem matéria, nem memória. espadas tensas na defesas da muralha. e eu que persisto em entrar pela verdade adentro e colher o seu mel saboroso, partilhado talvez no segredo da morte, talvez nunca venha a ser mais do que um segredo, já velho e esquecido, e já sem mistério será ainda o segredo da minha vida. e porém todas os fios invisíveis das teias do universo me prendem ao segredo e é segredando que me movo entre o gesto e o beijo, entre a palavra e o círculo. a noite abeira-se de mim hoje assim, em harpa e fuga, em flauta opípara de uma música que conduz aos labirintos da existência que vale a pena. aquilo que vemos com os olhos da alma, a pintura que fazemos e compila mais belo o real que a inspirou, o espelho que nos devolve a perfeição, o lugar onde tudo que existe vibra por dentro, num inaudível diapasão. harpejos de uma noite encantada em que me deixo vaguear pelos dois mundos, não sei a qual deles pertenço. ter nas mãos a pedra fria da realidade, sendo só corpo e concreta substância e sendo-o pisar as pedras preciosas do segredo, como quem desatenta o que tanto olha? mas se eu gosto tanto que o meu segredo me persista dentro...!! desfazê-lo em mil peças pequeninas, seria desperdiçar o brilho inteiro e depurado do magnífico brilhante do seu peito. sim, deixo que o segredo siga a direito, pelo atalho mais longo, que vá sem pressa e me deixe o sonho, a salva, a palma, a cítara, o néctar e a ambrósia, o mel da vinha. que tudo enfim permaneça na penumbra que me habita, na sombra que me segue, no segredo aberto da minha vida.

publicado por deSaraComAmor • às 10:52 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (0) •

:: Domingo, Junho 17, 2007

às vezes um barco

Ilustração de Paulo Neto

às vezes um barco desliza para longe
entre céu e mar as nuvens movem-se
e parece que o barco nos voa

na barra já longa o aceno ao sonho
a vela emplumada branca madragoa
e asa de gaivota o barco voa

na luz ou na névoa o barco vai cheio
a carga não pesa o barco flutua

nas vagas do mundo às vezes não volta
o barco perdeu-se
na rota insegura

se volta vazio sem carga nas redes
o barco não larga
o sal da viagem

e a carga prossegue e parte e reparte
cada vez mais ágil

se o barco desiste, apodrece ao cais
a flor da aventura

lá longe o aceno o barco não sabe
se regressa cedo

o barco é o sonho o amor que perdura
e eu sigo lá dentro
na sei quando vou não sei quando venho

publicado por deSaraComAmor • às 02:15 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (1) •

:: Sábado, Junho 16, 2007

poema ao sol


Sweet Songs Of Sun
Colocado por MarinaOfLight

sol seja
solfejo o sol na maré cega
há sempre o lume da tarde
no sonho que pranteio
há uma elgância de porte
e renda
nas gaivotas encrespadas
no velho poste
e no ar que me admite
rebola um sol de cetim
uma válvula de antracite
noiva das brumas a água
em preia-mar regride
para o sol que nos une
o sol sonhado a salvo
de marés negras
sol seja o limite
solfejo o sol e a cereja
hoje sem sol o dia de metal
tem estas frágeis borboletas
atentas ao pólen do universo
perfeitamente imóvel
hoje sem sol nem sal
o sol é este respirar oculto e cheio
sol seja o teu olhar
que profundamente beija o meu

publicado por libelua • às 12:16 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (0) •

:: Sexta-feira, Junho 15, 2007

manhãs de flores

manhãs de flores
entre o canteiro das tuas mãos
a fresca flora fala de amores
e eu sou a terra
tu jardineiro da minha pele
em erosão
a fala fértil fala de goivos
como da noite à manhã nova
ruborizados noivos
em surdina se comprovam

embora triste
é pela manhã que a rosa cresce
e o peito se levanta do leito em neve
a fala ferve ao lume
em fogo leve
e já desfeito o linho dos lençóis
ainda na voz se ouve em sal
o algodão que ainda dói
mas esquece

é pela manhã que a lua
desce do seu alto parapeito
o pedestal dos amantes do deserto
segredos abrem as corolas ao amor
secretos lírios os tensos membros
entre as horas se desfolham
colhidos lentos

e entre os olhos cresce a estrela
e se demora na sua alta distinção
de raros estios

e entre beijos nos cai o selo
a pele abre o seu solto seio
e salmos da alma
são dos corpos arrepio e
lastro ou fogareiro
é raso o rasto do nevoeiro
mas a flora fina de cambraia
que é o desejo
ainda assim no escuro veio…

publicado por deSaraComAmor • às 10:12 AM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (0) •

:: Quarta-feira, Junho 13, 2007

Shamballa

como se vai para Shamballa
quantas águias fazem falta
quantos rios sobranceiros
para sobrevoar Shamballa
quantas escarpas gritam
no caminho das nuvens
ah, diz-me se me ouves
nomear Shamballa como
a cidade do amor
e das rosas eternas
e se me batem os ventos
na vela da viagem mas
não deixes que Shamballa
se perca como miragem
nas terras altas do condor
deixa que o caminho nos
percorra pelo rasto dos lírios
as lágrimas puras do amor
mas não cheguemos já
ao seu mítico traçado
há viagens que nunca partem
junto à tiara da tarde
ou de qualquer outro lado
a viagem evade-nos
para Shamballa a cidade
cítara dos sonhos bordados
como se não tivéssemos nascido
para morrer entrincheirados
entre as muralhas secas
do destino, mas verdes e lânguidos
na busca de Shamballa
sempre luminosa
na desértica sede do caminho…

publicado por deSaraComAmor • às 10:08 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (0) •

:: Quarta-feira, Maio 30, 2007

A Voz dos Humildes

Não têm voz
foi-lhes sonegada no Estado Novo
um estigma que já vinha dos pais
tiraram-nos da escola na 3ª classe
onde aprendiam o que era possível
quando não estavam na casa da professora,
a D. Antónia das Pazes,
a fazer limpezas ou outros trabalhos
de que eram capazes

Antigamente era assim
perdiam a voz nos bancos da escola
a meio da tabuada, ou da laboriosa escrita do nome
aldeias duras e difíceis
searas e papoilas serenas fainas e duras
a espinha vergada e ainda tão nova…

A progenitura humilde
havia perdido a fala - havia o medo,
havia a jorna e o patrão, havia a prole e faltava o pão
(não me digam que sou neo-realista porque o neo-realismo
era a fome da Carrusca e a Carrusca existiu, deu-me o seu colo
e a seara de Fonseca e a de Catrina tiveram pele e boca
e esta era faminta)

Nunca ninguém os pôs na Segurança Social
faziam pequenos trabalhos de costura
ou de limpeza
mulheres sobretudo, às vezes viúvas
são humildes, não têm fala
os médicos não resistem a esmagar os balbucios
ficam irritados com a tremura da fala
e humilham-nos
na sua soberba de senhores da cura
falam tão alto, os feiticeiros da prescrição:
mais uns comprimidos para adormentar
empatar a dor
e saia, antes que perca de novo a paciência
que anda a fazer por aqui, pensa o médico
moderno, por vezes até o diz.
Mas se eu não sou surdo, doutor,
por que me grita assim?

E o desprezo do homem do banco
a conta a zeros, há tanto, tanto tempo
despesas de manutenção, que pensa?
A sua dívida é imensa…
Humildes recebem no rosto a estalada
e vão para casa pedir ajuda aos filhos,
que se passa?

Nasceram no Estado Novo
conheceram a esperança a meio da voz,
nada lhes mudou a curvatura da espinha
são humildes, não têm fala
passam junto de nós, não os ouvimos
uma geração inteira que definha
e o Estado Novo que voltou
não se vê ainda,
mas cria agora dilectos filhos
sem voz, porque se lhes amputa o pensamento
como se lhes exige o corte aprumado das unhas
a dentição perfeita - maus tratos lá em casa
falta de nutrição, filhos sem fala
onde na fala falta o pão

A receita do novo estado
prescrita aos homens de mérito
não falar e aceitar
o que trouxer o tempo e o tempo
traz o silêncio e a promoção
a cunha e a distinção. E a fome
calada do emprego perdido a meio
da velha estação…

O estado novo nas caravelas do passado
é um novo estado moderno e equipado
europeu e esclarecido - estamos com o mundo
estamos perdidos na dimensão incomensurável
do sucesso empresarial. Somos pesos na balança
equilibramos a dívida que não criámos.
Ganhamos para alguém o pão do lucro
a produtividade é que nos mantém à tona
do olhar do chefe, não podes fraquejar, só os fortes
alcançarão o lugar da raça,
a raça pura dos que não são humildes
e sabem atraiçoar
esses conhecem o medo,
avaliam e entregam os seus pares
têm medo, não podem fraquejar
os outros que são humildes
às vezes falam, não são de fiar.

E eu que falo e digo,
havia de me tomar o medo de fazer greve geral?
Ah, não, a mim não me metem medo
por enquanto o mundo
está na palma da minha mão
claro e distinto nos seus sinais
de alarme
não nasci no Estado Novo
nem sou humilde, e sei falar
Que faço eu aqui
que escrevo num deserto
este panfleto da infâmia que nos afronta
e não o mando para longe,
para onde as almas velhas
humilhadas o colham
como uma nova flora de palavras
e de esperança
que os vingue da fala humilhada
da humilíssima alma
para onde os jovens sem lugar
as almas úteis sem trabalho
os novos humildes o possam apanhar?
Que se passa com os que têm voz,
já ninguém a sabe usar?
Ah, velhas fileiras da palavra
arautos da revolução,
por onde andam os cravos que cantáveis
as vossas canções nascidas das armas
e da coragem? 

publicado por libelua • às 04:36 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (0) •

:: Sexta-feira, Maio 25, 2007

Chuva de Maio

sou como a chuva quando cai a meio de Maio
sou terna e fria se nutro ou desmaio
sou calmaria ou lume frio se o mundo afago
alago o dia e dos teus olhos sou pecado

cadência minha a chegada ou a partida
tanto venho inusitada como falto à terra ferida
sou chuva lenta e limpa, água que salva
ou que mitiga a seca fala
da fome antiga nos lábios secos da vida

ouve hoje a água merecida e benta
a respiração das rosas sob a chuva
a água que nos procura dentro
e corpo a corpo navega fundo

abarca a manhã no seio da chuva
um silêncio suave que nos protege
a cadência que nos murmura
as palavras pluviosas da ternura

e sente a canção que a chuva traz
baila na chuva a certeza do amor
vive na chuva a alegria de existir
bebe da chuva o seu doce elixir

deixa que a chuva nos una a pele
e que a água escorra como mel
gota a gota o gume frio da chuva cai
e o dia diluviano apetece mais

atravessamos o dia no silêncio
e por veredas e ínvios caminhos
a chuva vaza o céu e alaga tudo
a chuva é um véu cinza e veludo
que nos liga e protege do mundo

publicado por deSaraComAmor • às 09:11 AM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (0) •

:: Quinta-feira, Janeiro 25, 2007

Fractal animado

Por vezes sabe bem parar. Para depois voltar com novo elan. E porque as palavras também repousam, deixo-vos este fractal animado, as minhas cores, aquelas que procuro cultivar no meu jardim, à beira da realidade plantado.

publicado por libelua • às 12:14 AM • categoria: poesia

:: Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

A Fria Paisagem Urbana

Devora-me hoje um fogo frio
que cresce em ondas de ansiedade.
Conto gaivotas a fugir de terra,
que no mar há serenidade.

Vislumbro fantasmas que não tenho,
medos que não conheci,
nuvens dispersas, formas travessas,
palavras que não entendi.

O frio que cobre o azul do céu,
cai a pique sobre mim,
em solarengos recantos
que recortam edifícios,
entre a riqueza e os antros.

Escrevo porque o que vejo
é vistosa tirania,
é contraste, é cortejo,
da crua realidade,
que acende a luz do dia.

E escrevo também porque sim,
palavras que querem sair,
sangue, pulsar, vida assim,
compulsividade também em mim…
estranheza pelo que vi.

18 de Janeiro de 2002

(cinco anos depois, já não sei escrever assim, nem a paisagem interior se mantém fria, apesar da bruma matinal. Apenas a compulsividade permanece dinâmica e inactiva, em luta contra a tirania do tempo. Não há. Recorro à catalogação dos dias impulsivos.)

publicado por deSaraComAmor • às 09:58 AM • categoria: poesia

:: Segunda-feira, Janeiro 15, 2007

Casa Assombrada

Abro as portas da casa assombrada para que lhe bata o sol e o vento volte a circular nos corredores da madrugada.  Liberto um a um os espíritos amplos
que vagueiam sombrios e ébrios pelos cantos, na incerteza da luz que lhes fugiu… Visito os quartos um a um em para quebrar a frialdade, rangem as portas dos armários as memórias de naftalina, os cheiros inebriantes de velhas vidas em velhos estios da minha infância. Quantos ali foram passados, em risos e jogos inventados, crianças que fomos, ali deixámos o eco das gargalhadas…
Ouvem-se ainda passos de mulher em saltos altos e um riso cristalino quase metálico. Outros e outros risos e sorrisos, ou apenas esboços de sorrir,
ou sorrisos que se ficam pelo olhar…
Corro e ainda vejo uma saia que ondeia ao vento no perfeito enquadramento da porta contra o azul do céu. Mulheres da casa. Fitam-me da vida que viveram em retratos cor das sombras, olhos profundos e densos, como em muda censura. Cumpre-me vivê-las onde não viveram. Devo-lhes a palavra que não tiveram. A voz de viver sem palavra que se ouça ainda, de onde falando nunca se ouviu.
Arejo todos os recantos, viro todos os retratos, fecho todos os armários e das gavetas retiro inefáveis saquinhos de doce alfazema sem cheiro, rendas e bordados magníficos, toucados de cetim e espartilhos, saiotes enrendados de ternura e o crochet das mantas e dos tapetes e das cobertas, crochet, sempre crochet, tanto fio tecido e tanto enfado, tantas horas e tanto novelo enleado, tanto tempo do passado, que se passou passajando meias,
bordando em bastidor de bambu, fazendo renda e esperando, sempre esperando, coração a nu. Liberto. Liberto estas mulheres que aqui ficaram, porque sempre aqui estiveram e nenhum outro espaço povoaram e porque aqui ainda deixaram em cestinho de renda, as suas pobres ilusões..
Chamo o mestre de obras e começam as remodelações.

21/01/03

publicado por libelua • às 10:20 AM • categoria: poesia

:: Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

a respiração dos lírios

deixa que os lírios se espalhem
onde passas pela tarde
que seja a única forma
de fazer florir nos lábios
o sorriso alto das montanhas
todas as ruas e praças
vindas do bosque das mágoas
e o som lento e elevado
da flauta nupcial das aves

verás a nudez
de antigos régios dosséis
formas como lamparinas
o desalinho de sedas e lençóis
será nesse recolhimento da voz
que ouvirás a respiração dos lírios
mas pensarás em limbos
e em aves ao recolher da dor
será ai que nos deitaremos
com um poema à flor do corpo

publicado por deSaraComAmor • às 09:45 AM • categoria: poesia

:: Terça-feira, Janeiro 09, 2007

asas de borboleta

Pela manhã…
Vejo-as que voam no meu olhar
Os mágicos seres das manhãs estivais
Que pousam em mim como teus sinais

Borboletas nas flores, sedentas de amores
Crisálidas abertas nos corpos ascetas
São marcas a sépia da memória que cessa
Se o corpo apetece e a noite enlouquece

Então…
Vem um navio cruzando a pele acesa
No dorso de barro moldado nos dedos
Nos membros serenos outeiros de segredos
Ancoragem doce na foz dos meus seios
Nas ancas de enleios nos confins do beijo
Noites de veludo num luar de anseio
Hastes que se erguem, efémeras asas
De silêncio e pólen e seiva de sémen

Desfeitas as roupas nas tuas mãos cegas
Ávidas rosas que em si se consomem
Pólen dos corpos a saber a mosto

E um mar que cresce e a maré que avança
Para o voo maior da vaga que dança
E alaga de espuma a úbere caverna
Onde nada a vida e o tempo descansa
E uma ébria borboleta sai de nós nutrida
E pela madrugada lança-se veloz
Sobre o nosso leito de ímpios amantes

Depois…
Serenos partimos neste rio urgente
Navegas para a foz e eu a montante
Como as borboletas no voo de um instante…

2 de Agosto de 2004

publicado por libelua • às 01:03 AM • categoria: poesia



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