Tenho uma estória a contar, passada em terras tardias dos tempos em que de Castela soprava a Inquisição e naus partiam sem fala
para terras por achar em busca de riquezas e honrarias e almas para salvar. Oiro havia e pedrarias nos cofres de ferro real. Mulheres
mediam a vida pelas flores rasas da planície, uma esfera de âmbar, um lírio de Andaluzia, uma luz lunar, um rio lume de silêncio a
romper margens vazias, tanta tarde tanta tília, tanta tentação tentilha, os homens andam no mar, os homens amam a guerra, tanta
trégua na muralha a sentinela cicia salvas palmas sevilhanas, marés do Guadalquivir, cabelos negros grilhetas apontadas ao sentir,
uma guitarra fervilha na calçada de Agadir, flores que apetece colher numa tarde na Medina a erosão da caliça, o quarto ateia a preguiça
- eu não parto no navio fico no catre a sonhar com o sonho que sonhei hei-de sonhar algum dia: nas masmorras de Toledo o meu coração
está preso por amar em demasia. Santas vozes me proclamam para arder na fogueira e à noite a morte vem pela fresta da seteira.
Mas numa tarde de sesta, quando a canícula é gesta e as cigarras enlouquecem em grinalda cantaria, tu vens no timbre da tarde quebrando
o selo da morte, as grades rangem a fundo, uma guitarra de âmbar entoa o dedilhar da saudade, rasgamos teias e tules, tu avanças no meu catre,
eu regaço eu languidez, tu tronco tenso raiz mascarilha espadachim cravas cravejas as pedras que rasgam dentro de mim - lágrimas limam as
faces, luares lanças e linhagens e o mistério muda o tempo, o tempo recolhe as asas e a oração assim parte num alazão de porte árabe a trote
em passo flamenco, atrás fica a fogueira dos mestres das santas artes, e tudo enfim nos consuma na fuga em terras de Espanha, perto das cinco
da tarde, tendo o sol por fronteira e o amor como viagem. Sob uma árvore me plantas e ao sol assim me devolves: que a tarde nos seja seda,
que a tarde nos seja sangue, que a tarde nos traga rosas e rimas rezem romances, que a tarde tenha redes que a teia se emaranhe, que o tear
nos prenda e a cal viva nos calcine as palavras entre dentes, que tu me prendas os pulsos, soltos num prado prazer, que tudo enfim nos partilhe como
água fresca subtil, álgida fonte de rir serenata sumarenta como os lábios pela seca sorvem da sede o prazer, assim a salvo do mundo a tarde é
fuga do vento, eu embarco na maré, tu nadas-me corpo adentro é a tarde que nos leva como lírios na corrente… ao longe um som se amplifica
lâminas rasam o mundo, num concerto sem presente de liberdade - magnífico! Nada mais que isto sei, a não ser que este concerto ainda me toca
por dentro esta estória que contei, uma estrela a arder nos lábios, um relicário de memórias da alquimia dos sonhos que me vivem escondidos
no sangue mouro que respiro.
METAMORFOSE
Aqui sentado
procuro
o teu rosto
no meu rosto
já gretado
pelas horas plenas
de solidão -
vivo
um tempo
enamorado
de ilusão
em harmonia
contigo
e o silêncio
luzente da cal
fria da lareira
já passado o natal
pouco já recordo
antes de ti…
a partir de hoje
vou gostar
de estar contigo
apenas
só por estar
sem as medidas
preclaras
fixas
de tempo e espaço
a perturbar o olhar
mais que nunca
preciso de manter
viva esta
necessidade
de tocar o teu olhar
e beijar
um corpo nu
ainda desconhecido
sem restrições
espero
não ser tarde
para te amar
pois não sei
se terei
coragem
para acordar
amanhã
de novo
sem a força perene
da Poesia
a sulcar
com a mão dormente
os papéis
amarrotados
pelo chão
enxuto de sílabas
João Maria Nabais
in Memórias de Amor e Sedução
2000
Lançamento do livro de autoria de João-Maria Nabais, intitulado
Terra de Húmus e Neblinas
Edições Ceres
Apresentação pela Dr.ª Francisca Trindade
Leitura de poemas por Alexandra Santos e autor
23 de Junho (sábado), pelas 16 horas – Auditório da Biblioteca Municipal, Rua da Bandeira
Barreiro
JOÃO-MARIA NABAIS, médico Pediatra.
A sua obra literária (poesia) consta de quinze livros publicados: O Silêncio das Palavras – 1992; Crepúsculo das Noites Breves – 96; Instantes e Vivências – 97; POEMAS - 97; Novos Navegantes – 98; Memórias de Amor e Sedução – 2000; Cidade dos Rios – 01; Sons de Urbanidade – 01; Espírito do Vento – 02; Monsaraz – 02; Palhais – 02; Criança, Um Tempo de Fuga – 02; Interior à Luz – 03; O Lugar e o Mito – 05; Terra de Húmus e Neblinas – 2007
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Distinguido por mais de uma vez: Prémio Moldarte Pintura / 1987; Prémio ANTÓNIO PATRÍCIO de Poesia / 1996, 2002 e 2006 com os livros Poemas, Sons de Urbanidade e O Lugar e o Mito, todos pela Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos; Medalha de Mérito Cultural da Associação de Escritores Médicos e Jornalistas de Bucareste – Roménia / 2004
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Tem cerca de duas centenas de artigos e ensaios publicados nas áreas das Ciências da Saúde, História da Medicina, Escritores Médicos, Judaísmo e de Literatura.
Já fez perto de três dezenas de comunicações sobre História da Medicina e realizado conferências científicas nacionais e internacionais sobre a gesta dos médicos sefarditas portugueses.
Parabéns, meu querido amigo.
a noite emerge de dentro de todas as possibilidades. é o espaço da não-existência, onde o silêncio nos cobre de estrelas na face, como num incêndio. é a hora de todos os rubores e de todas as verdades que vivem nos mistérios. busco na noite o espólio do tempo, busco-o e sinto-o a convergir para um mesmo ponto, o ponto sideral à esquerda da estrela da manhã na constelação do olhar que há muito me segue. talvez um deus mortificado, talvez um espírito sem nome, uma sombra sem lugar, um silêncio vivo. mas é tudo que sei do espólio da minha vida. um lugar onde estive, a miragem de ter estado e ter ouvido uma voz viva e ter sorrido e gargalhado. a inconsubstancialização de um ser em deiticos fundamentos. a identidade importa? apenas para confirmar a existência. existes porque tens nome, ou então se não tens nome não existes e a tua vida é a mentira que te conduz onde não és nem matéria, nem memória. espadas tensas na defesas da muralha. e eu que persisto em entrar pela verdade adentro e colher o seu mel saboroso, partilhado talvez no segredo da morte, talvez nunca venha a ser mais do que um segredo, já velho e esquecido, e já sem mistério será ainda o segredo da minha vida. e porém todas os fios invisíveis das teias do universo me prendem ao segredo e é segredando que me movo entre o gesto e o beijo, entre a palavra e o círculo. a noite abeira-se de mim hoje assim, em harpa e fuga, em flauta opípara de uma música que conduz aos labirintos da existência que vale a pena. aquilo que vemos com os olhos da alma, a pintura que fazemos e compila mais belo o real que a inspirou, o espelho que nos devolve a perfeição, o lugar onde tudo que existe vibra por dentro, num inaudível diapasão. harpejos de uma noite encantada em que me deixo vaguear pelos dois mundos, não sei a qual deles pertenço. ter nas mãos a pedra fria da realidade, sendo só corpo e concreta substância e sendo-o pisar as pedras preciosas do segredo, como quem desatenta o que tanto olha? mas se eu gosto tanto que o meu segredo me persista dentro...!! desfazê-lo em mil peças pequeninas, seria desperdiçar o brilho inteiro e depurado do magnífico brilhante do seu peito. sim, deixo que o segredo siga a direito, pelo atalho mais longo, que vá sem pressa e me deixe o sonho, a salva, a palma, a cítara, o néctar e a ambrósia, o mel da vinha. que tudo enfim permaneça na penumbra que me habita, na sombra que me segue, no segredo aberto da minha vida.
Ilustração de Paulo Neto
às vezes um barco desliza para longe
entre céu e mar as nuvens movem-se
e parece que o barco nos voa
na barra já longa o aceno ao sonho
a vela emplumada branca madragoa
e asa de gaivota o barco voa
na luz ou na névoa o barco vai cheio
a carga não pesa o barco flutua
nas vagas do mundo às vezes não volta
o barco perdeu-se
na rota insegura
se volta vazio sem carga nas redes
o barco não larga
o sal da viagem
e a carga prossegue e parte e reparte
cada vez mais ágil
se o barco desiste, apodrece ao cais
a flor da aventura
lá longe o aceno o barco não sabe
se regressa cedo
o barco é o sonho o amor que perdura
e eu sigo lá dentro
na sei quando vou não sei quando venho
sol seja
solfejo o sol na maré cega
há sempre o lume da tarde
no sonho que pranteio
há uma elgância de porte
e renda
nas gaivotas encrespadas
no velho poste
e no ar que me admite
rebola um sol de cetim
uma válvula de antracite
noiva das brumas a água
em preia-mar regride
para o sol que nos une
o sol sonhado a salvo
de marés negras
sol seja o limite
solfejo o sol e a cereja
hoje sem sol o dia de metal
tem estas frágeis borboletas
atentas ao pólen do universo
perfeitamente imóvel
hoje sem sol nem sal
o sol é este respirar oculto e cheio
sol seja o teu olhar
que profundamente beija o meu
manhãs de flores
entre o canteiro das tuas mãos
a fresca flora fala de amores
e eu sou a terra
tu jardineiro da minha pele
em erosão
a fala fértil fala de goivos
como da noite à manhã nova
ruborizados noivos
em surdina se comprovam
embora triste
é pela manhã que a rosa cresce
e o peito se levanta do leito em neve
a fala ferve ao lume
em fogo leve
e já desfeito o linho dos lençóis
ainda na voz se ouve em sal
o algodão que ainda dói
mas esquece
é pela manhã que a lua
desce do seu alto parapeito
o pedestal dos amantes do deserto
segredos abrem as corolas ao amor
secretos lírios os tensos membros
entre as horas se desfolham
colhidos lentos
e entre os olhos cresce a estrela
e se demora na sua alta distinção
de raros estios
e entre beijos nos cai o selo
a pele abre o seu solto seio
e salmos da alma
são dos corpos arrepio e
lastro ou fogareiro
é raso o rasto do nevoeiro
mas a flora fina de cambraia
que é o desejo
ainda assim no escuro veio…
como se vai para Shamballa
quantas águias fazem falta
quantos rios sobranceiros
para sobrevoar Shamballa
quantas escarpas gritam
no caminho das nuvens
ah, diz-me se me ouves
nomear Shamballa como
a cidade do amor
e das rosas eternas
e se me batem os ventos
na vela da viagem mas
não deixes que Shamballa
se perca como miragem
nas terras altas do condor
deixa que o caminho nos
percorra pelo rasto dos lírios
as lágrimas puras do amor
mas não cheguemos já
ao seu mítico traçado
há viagens que nunca partem
junto à tiara da tarde
ou de qualquer outro lado
a viagem evade-nos
para Shamballa a cidade
cítara dos sonhos bordados
como se não tivéssemos nascido
para morrer entrincheirados
entre as muralhas secas
do destino, mas verdes e lânguidos
na busca de Shamballa
sempre luminosa
na desértica sede do caminho…