Por vezes sabe bem parar. Para depois voltar com novo elan. E porque as palavras também repousam, deixo-vos este fractal animado, as minhas cores, aquelas que procuro cultivar no meu jardim, à beira da realidade plantado.
Vieram as pálidas noites de Inverno,
vieram os frios, vieram os medos, os
serões amenos, os véus de desejos.
Vieram galopes, cavalos ardentes,
dorso tão possante, fugazes de sede.
Corroem-se as almas no poço da dor,
arrastam-se os corpos dos enregelados
filhos da noite que clamam amor.
As noites são dóceis, os gestos são
fósseis, os homens são ternos, as
mulheres febris, são rosas do Inferno.
Abrem seus quadris, avançam seus peitos
abarcam o mundo no vão dos seus
seios. E calam no homem a sede de
amor, são a mãe que zela, a amante
bela, a terra que acolhe, a lua que sonha,
a manta de esperança que afasta os
espectros, nas transgressões de Inverno
tão parcos momentos. E passa um vento gélido
uma brisa ardente e do fundo da terra
rompe de repente o cAvaleiro das trevas,
em seus voos de serpente, suas fugas
álacres na escuridão das mentes.
Soltaram-se as éguas, no gelo da noite
e luzem seus corpos de geada inerte,
suor que derrete o pasmo de ser. De crinas
ao vento perseguem a morte na orla
do tempo, na terra que chove, no flanco
sem gente, no sonho da bela que nelas
se sente, amazona louca, esperando o luar,
montando a ilusão, cavalgando a dúvida
naquela planície rasa de razão…
São feras, são dores, são luas de amores,
lobas que nos olham pela escuridão,
rasgando o desejo, louvando a imensidão
da noite de Inverno, nova transgressão
ponta do novelo que a fiandeira tece em
riso escarninho, memória de ascese, frágil
o tear do seu pensamento, neve que se pôs
no leito de fogo, na brasa apagada, da cinza
dos anos, dos inúteis panos que tece com as
mãos e borda profanos. Sonha com seus anos
sua seiva morta, seu tear de enganos,
a lembrança solta, nas asas do demo.
Transgressões na noite, cálice de fogo,
rubro vinho quente na forja da dor. São
noites de Inverno, são noites de amor.
5 de Nov.
de 2003
Devora-me hoje um fogo frio
que cresce em ondas de ansiedade.
Conto gaivotas a fugir de terra,
que no mar há serenidade.
Vislumbro fantasmas que não tenho,
medos que não conheci,
nuvens dispersas, formas travessas,
palavras que não entendi.
O frio que cobre o azul do céu,
cai a pique sobre mim,
em solarengos recantos
que recortam edifícios,
entre a riqueza e os antros.
Escrevo porque o que vejo
é vistosa tirania,
é contraste, é cortejo,
da crua realidade,
que acende a luz do dia.
E escrevo também porque sim,
palavras que querem sair,
sangue, pulsar, vida assim,
compulsividade também em mim…
estranheza pelo que vi.
18 de Janeiro de 2002
(cinco anos depois, já não sei escrever assim, nem a paisagem interior se mantém fria, apesar da bruma matinal. Apenas a compulsividade permanece dinâmica e inactiva, em luta contra a tirania do tempo. Não há. Recorro à catalogação dos dias impulsivos.)
Abro as portas da casa assombrada para que lhe bata o sol e o vento volte a circular nos corredores da madrugada. Liberto um a um os espíritos amplos
que vagueiam sombrios e ébrios pelos cantos, na incerteza da luz que lhes fugiu… Visito os quartos um a um em para quebrar a frialdade, rangem as portas dos armários as memórias de naftalina, os cheiros inebriantes de velhas vidas em velhos estios da minha infância. Quantos ali foram passados, em risos e jogos inventados, crianças que fomos, ali deixámos o eco das gargalhadas…
Ouvem-se ainda passos de mulher em saltos altos e um riso cristalino quase metálico. Outros e outros risos e sorrisos, ou apenas esboços de sorrir,
ou sorrisos que se ficam pelo olhar…
Corro e ainda vejo uma saia que ondeia ao vento no perfeito enquadramento da porta contra o azul do céu. Mulheres da casa. Fitam-me da vida que viveram em retratos cor das sombras, olhos profundos e densos, como em muda censura. Cumpre-me vivê-las onde não viveram. Devo-lhes a palavra que não tiveram. A voz de viver sem palavra que se ouça ainda, de onde falando nunca se ouviu.
Arejo todos os recantos, viro todos os retratos, fecho todos os armários e das gavetas retiro inefáveis saquinhos de doce alfazema sem cheiro, rendas e bordados magníficos, toucados de cetim e espartilhos, saiotes enrendados de ternura e o crochet das mantas e dos tapetes e das cobertas, crochet, sempre crochet, tanto fio tecido e tanto enfado, tantas horas e tanto novelo enleado, tanto tempo do passado, que se passou passajando meias,
bordando em bastidor de bambu, fazendo renda e esperando, sempre esperando, coração a nu. Liberto. Liberto estas mulheres que aqui ficaram, porque sempre aqui estiveram e nenhum outro espaço povoaram e porque aqui ainda deixaram em cestinho de renda, as suas pobres ilusões..
Chamo o mestre de obras e começam as remodelações.
21/01/03
deixa que os lírios se espalhem
onde passas pela tarde
que seja a única forma
de fazer florir nos lábios
o sorriso alto das montanhas
todas as ruas e praças
vindas do bosque das mágoas
e o som lento e elevado
da flauta nupcial das aves
verás a nudez
de antigos régios dosséis
formas como lamparinas
o desalinho de sedas e lençóis
será nesse recolhimento da voz
que ouvirás a respiração dos lírios
mas pensarás em limbos
e em aves ao recolher da dor
será ai que nos deitaremos
com um poema à flor do corpo
Pela manhã…
Vejo-as que voam no meu olhar
Os mágicos seres das manhãs estivais
Que pousam em mim como teus sinais
Borboletas nas flores, sedentas de amores
Crisálidas abertas nos corpos ascetas
São marcas a sépia da memória que cessa
Se o corpo apetece e a noite enlouquece
Então…
Vem um navio cruzando a pele acesa
No dorso de barro moldado nos dedos
Nos membros serenos outeiros de segredos
Ancoragem doce na foz dos meus seios
Nas ancas de enleios nos confins do beijo
Noites de veludo num luar de anseio
Hastes que se erguem, efémeras asas
De silêncio e pólen e seiva de sémen
Desfeitas as roupas nas tuas mãos cegas
Ávidas rosas que em si se consomem
Pólen dos corpos a saber a mosto
E um mar que cresce e a maré que avança
Para o voo maior da vaga que dança
E alaga de espuma a úbere caverna
Onde nada a vida e o tempo descansa
E uma ébria borboleta sai de nós nutrida
E pela madrugada lança-se veloz
Sobre o nosso leito de ímpios amantes
Depois…
Serenos partimos neste rio urgente
Navegas para a foz e eu a montante
Como as borboletas no voo de um instante…
2 de Agosto de 2004
Hoje penso em ti
na raiz desta manhã que
entardeceu
Penso em ti como a fonte
e o raio de luz que a encheu
Penso na velada dor
de te ter nos meus sentidos
um fértil rubor, um só
suspiro
O eco no arco do mundo
essa muralha de pedra
entre nós dois erguida
e mesmo assim
trespassada de setas
desferidas
Penso em ti neste dia
silenciado, fechada no
coração do nevoeiro,
molhada de chuva
alheia aos sinais do
desalento porque
mesmo longe
juntos amanhecemos
no vento, rasgando
a seiva da manhã
sempre suspensa
e na paixão entardecemos
indolentes
para anoitecermos
friorentos
na doçura de um sorriso
tonto…
O sorriso que plantará
a raiz das manhãs
em terna mente
23 de Fev.
de 2004
No amanhecer do novo ano, venho aqui voar contigo, convosco… Os blogs, essa inconstante forma de estar e de ser, por aí disponível ao alcance da voz e dos espíritos, têm-me dado oportunidades infinitas e infinitamente aproveitáveis nessa tal arte de encontrar o outro. Tanto lhes devo, pois.
Ao fim de cada ano o saldo mantém-se positivo e as expectativas elevadas. Já nem falo dos afectos, de contabilização impossível.
Como na lei geral da vida, os blogs nascem e morrem, cumprindo-se. Em homenagem viva, um pequeno poema que me foi sugerido por excelente fotografia ‘postada’ há algum tempo na Catedral, pelo amigo Ognid, num desses desafios em que este campo é fértil - se assim o quisermos entender:
voando
voando sempre no descaso do voo
faces de rugas e mãos de guitarras
reflexos de mar em paletas de auroras
palavras de raiva que brotam nos dias
na ânsia das pontes
e esse horizonte que tarda em chegar
voando
voando sempre no acaso do sonho
e a mão fugidia num afago breve
que nos dá alento no dia mortiço
feitiço de vida que nos enternece
e assim apetece beber outro dia
voando
voando sempre…