Sinto o teu olhar ausente em mim seguro
o porto é vasto, e os barcos muitos
cruzando os mares frios de silêncio,
e ondeando em ventos logo impuros.
Mas na tua vela apenas se desfralda
um horizonte de contentamento mudo…
Sinto o teu olhar carícia ardente,
em promissora devoção de flores carnais
em voos de invenção do impossível
em zonas de inscrição de mais e mais
sempre o muito agora e o tudo apenas
na certeza de meus olhos que é serena.
Sinto o teu olhar fresca floração
suspenso nas fráguas inóspitas do mundo
e no horizonte que contemplas vejo escrito
o desejo e a vontade do meu corpo
a dádiva do teu cerrado e mudo.
Enquanto os olhos despedem as palavras
cobre-se de um fervor amargo a tua ausência
e disparam desde já lírios imensos
para as oblíquas voltas do tempo ido
em que nos faremos de novo doce olvido.
Deixo-te novas de um tempo novo:
viajaremos mais pelas colinas e
em novos areais nos deteremos.
Em estridente fogo azul arderá o mundo
enquanto nos fizermos metal uno.
E eu serei a voz que silencia a dor azul
e tu serás o corpo que precede a morte
e ambos seremos cabo de qualquer esperança
que na vida se perfile, esbelta e magnífica,
como se refaz numa menina nova trança.
7 de Junho de 2003
Até 2007! Um Bom ano para todos!

Escrever é um acto impulsivo. És como um fumador passivo, respiras ar e fumo como se não pudesses ingerir um sem o outro. Escreves porque tens de dizer o que houver a dizer a quem dizer, ainda que penses que é a ti próprio que o dizes. Por vezes começas cegamente no lento labor de embrulhar uma ideia, encriptar um gesto, uma vontade, um sentimento, torna-se experimental o que dizes, a tua culinária é saborosa em primeiro lugar para ti, no final sentes-lhe a falta de sal, talvez pimenta, ingeres-te completamente. Um dia avanças com o corpo, arrasas a mente, cobres e descobres a memória, já não podes parar, abraçaste Deus e o Diabo duma só penada, escreves porque te encaminhaste para o labirinto das palavras e descobriste as mil e uma formas de te dizer, o vício da parábola, o vestido luminoso da metáfora, o fingimento a arte de te dramatizares em breves actos de múltiplas cenas. Só tu entras e sais, mas vão contigo outros e outras como tu, os que descreves, os que prescreves, os que lês e os que vendes como tu, pois adquiriste o direito de contradizer, depois de nada mais te restar fazer. Probematizas o vazio, fazes-te imitação do que imitas, filiação, devoção, paixão. Cultivas secretamente Tanatos num vaso de flores salgadas, ao mesmo tempo que te agarras às saias de Édipo para ganhares o direito à tua alma, mas a poesia já te menosprezou o coração como objecto alquímico e tu sabes. Tornaste-te um dia compulsivo, reduziste o mundo ao teu mundo, apartaste-se da fonte, ganhaste as asas da sublimação para um dia substituires num voo a própria vida. Nessa altura o poeta que és ensaia cenários que irradiquem de si possíveis bolbos, raízes abraçadas, persegue obsessivamente a originalidade escreve em dobras de tule, bombazina e tabuada, inventa a tábua rasa criativa, desmonta influências, mata o Outro, devora e vomita estéticas, produz estética. Nessa altura, o poeta está tecnicamente falido. Como homem. Mas terá atingido a voz mais pura da pedra luminosa da palavra.
Silêncio, muita paz, amor, a luz da partilha incendiada na alma, num tempo como todos os tempos deviam ser… de amor, simplesmente.
pendurados os relógios no tempo em redor da alma,
sentemo-nos sobre o sono e sejamos os épicos
guerreiros da palavra solta e frágil de amarras
a alma a queimar o tecto, a alma amarelecida pelos estios
na ponta narcótica de um cigarro, sejamos rios
a lama ardente já fincada nos teus passos
em volta danças arremessando palavras ao fogo
uma a uma incineradas para que nos expludam
denunciando a celebração de tréguas no tempo
que enfim nos abre o mistério das estrelas
dezembrinamente frias mas ardentes belas
para que nos exista a febre a cintilação das veias
e a palavra te escorra pela garganta como nêspera
docemente mel melodiosa iridiscente e fresca
uma bátega de inocente chuva na púrpura musselina
das despidas vestes minhas do momento
pois há noites opulentas que nos fervem nas mãos
são as noites onde os corpos anoitecem o cansaço
nas ritmadas danças de um harém deserto
bátegas de vento cospem os vidros que desassossegas
no quarto as rosas ferem profundamente verdes
há uma véspera vazia aberta a um litoral diferente
tu que me colhes árvore e avanças entre o pomar
para que te nutra no meu seio de seiva e sol
como num pacto de sangue a noite é-te fiel e morre
Pintura de Henri Fuseli, claro…
Acordou com um poema antigo nos lábios como se ao lado do candeeiro estivesse pendurada a voz meiga da luz. Andava alguém na escuridão mas nada era audível, nem passos nem respiração, apenas estava alguém. Mesmo sem vislumbrar contornos do seu mundo conhecido, sabia-se num outro cujas arestas lhe pareciam arredondadamente leves, suaves e flexíveis, próprias de um espaço de borracha ou algodão. A sensação inominável de ver com os dedos, tactear um mundo que dispensa a visão, porque é luz e dela vive.
Vinham na sua direcção pirilampos que lhe entravam olhos a dentro iluminando-a por fora em mil cores do arco-íris. A pele trémula de afagos, electrizada no íntimo como o candeeiro do imenso salão onde agora dançava, mariposeando em volta de um vasto mundo de estátuas, mármore e peças de marfim. Pausa. Um gole de silêncio, cheio de uma música feita de ecos fragmentados. Cobriam-na rendas que lhe segredavam ao ouvido todas as estórias de todas as bordadeiras e tecedeiras do mundo, um colete que lhe esfaqueava o corpo em cada crime perpetrado em corpo de mulher, lágrimas manchavam os lenços de cambraia esvoaçantes, ela era todas as mulheres menstruadas num mesmo ciclo, muitas mãos lhe puxavam o vestido, rostos tristes de crianças a reclamar-lhe o colo, os bicos túrgidos, apetecidos, revirados, reclamados, mirrados de tanto leite tanta obra de paixão e morte.
Voltou-se para olhar o que deixava atrás de si e nada viu. Quis retorcer, não a deixaram. Ela pertencia agora ao mundo dos sem voz. Flores, havia flores e círios a arder-lhe no ouvido. Alguém a retomava no extenso palacete da eternidade e ela não sabia. Açucenas espalhadas pelo chão, odores magníficos da morte e um esquife num carrossel à velocidade da luz. Voava agora projectada a mil anos-luz da realidade, ia talvez feliz, num voo ícaro de encontro a esses braços que sentia eternizados no corpo. Desapareceu no reverso de um pálido sorriso, adentrando-se na esfera imprecisa do vazio. Conhecer a ausência de gravidade e sentir o arrepio da queda, ser sombra e ser sem se sentir matéria, mas sentir-se matéria no planar cadenciado contra a anti-matéria de outro corpo. Absorvida, sugada, desmineralizada para dentro de alguém, despossuída de si, só matéria gasosa, hélio ou massa leve.
Eleva-se com a leveza de um véu, docemente soprado pela brisa acariciante de um mês primaveril. Suspensa do mundo, despe-se do corpo, transforma-se em sorrisos e porém a doçura de águas quentes, marulhantes, vivas, invade-lhe o que resta dos membros. Sente a pulsão dos sentidos e quer tocar-se. Nada encontra e porém é amada em cada milímetro da pele por mãos de ave, penosamente leves, na tortura do toque. Debate-se contra uma legião de peixes que a trespassam, um cardume distraído que lhe atravessa o corpo, têm pressa, vão povoar talvez outro sonho, agora surge um polvo, o corpo volta-lhe, as mãos tocam corais que a ferem, o sangue escorre-lhe dos dedos, os seios sangram, as rendas são de rede e envolvem-lhe o corpo pescado pelos sonhos, os anjos voltam para a resgatar do obituário de mais uma noite no mundo das sombras, que brancas se fazem lume.
... como jardins de Barcelona
imensas, gulosas e frescas
na preguiça de um café,
na incerteza de uma vírgula
ou das asas de uma frase
que venha e voe, que varra
e espalhe o medo, a dor,
o pranto, a poeria derramada
o olhar vórtico preso
à vária resistência, a vida
um violento vulcão extinto,
mas por dentro em ebulição viva,
marulhar de águas gotejantes,
fogo de um navio fantasma
respirando à proa e cuspindo mastros,
e as águas uma navalha acesa,
apontada à telúrica circunstância.
Manhãs suspensas, abismos
que alastram, fugas encetadas
para a fluidez dos astros.
Tudo enfim são anagramas
que as mãos, trôpegas, inscrevem,
na superfície porosa
de um simples guardanapo.
E a vida um papagaio verde
a que já se perdeu o fio
e no poente esbarra e arde.
Manhã de 5 de Maio de 2003
Sobe, segue a montanha no seu dorso
olha estas casas que se perdem no vazio
vê os caminhos que o tempo já percorreu
sem que se atingisse o espaço absoluto
olha as muralhas em ruína
os ventos bruscos
sente a inclinação da luz
pelo crepúsculo
alisa a escarpa que se abre
no teu peito e chora meu amor,
chora no ar fresco rarefeito
por todos os espaços que ainda
não percorreste e transpiras por viver
- porque o cais que buscas é a noite
a noite dos predadores sem medo
onde às vezes, mas só às vezes
na transparência do silêncio
entre as montanhas onde vive o tempo
o mar diz o teu nome a medo
na dança das águas contra o vento
e todo o absoluto de uma vida
cabe nesse relativo momento…
Sobe, escala a montanha até ao sol
aqui onde o tempo se retrai
aqui mesmo te reinventei como urze
solitária ou composto de carbono
nascido da terra mãe
Sobe e procura as cinzas
do lume onde o tempo arde
E sente o infinito absoluto
Do teu nome ecoando pelos vales…
20 de Nov. de 2004
O silêncio tem voz,
uma voz que me vem do mar imenso e me traz
rumores doutras escarpas, outras margens, outros
silêncios, sinais de voo do pensamento, voos por
demais intensos,
loucos como só os pássaros os intentam,
o roçar das asas na onda do vento
o tinir da espuma na crista escavada
a voz apressada da corrente, a sua paz enfeitiçada
o areal que rodopia, magia disseminada,
uma dança de cristais, uma espiral desnorteada,
corpos incinerados na bruma, crustáceos alados,
margens insuspeitas, o cansaço das árvores
mutiladas, o húmus cortando a terra, uma mulher
fertilizada, o azoto abençoado pelas sombras
e a luz que se adivinha na corrente, impávidos
corais nos sentidos, algas perfumadas,
outros prodígios da fantasia, espuma de lava
e mais que o silêncio dessas vagas, essa corrente,
mais que as vozes do mundo encrespadas
há o dos búzios com o mar encarcerado
há uma maré de ilhas por encontrar, margens
cortadas, um rumor de ervas apodrecidas, passos,
ecos de passado, a alma um palacete
abandonado, o olhar um farol incendiado
e no horizonte nenhum navio apita na neblina
nenhum barco ancora na corrente
nenhuma voz é mais silenciosa que a minha.
16 de Janeiro
de 2004