poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Domingo, Novembro 26, 2006

panteísmo

Pintura de Imelde Tobia, nata a Perugia nel 1911,

tenho uma serra azul a crepitar no mar
neblinas luminosas afagam as pedras
a chuva recolhe para dentro do olhar

tenho esta manhã de gesta inquieta
a poesia solta neste orvalho urbano
a luz que penetra nos cantos da noite
a memória densa que dói e seduz

o tempo aparou as dobras do medo
nascem em casulos borboletas leves
solta-se a ternura na pele dos dedos

escrevem-se cores por fora do sol
liberta-se a voz no verde da serra
há uma idade velha que passa por nós
o corpo que apela à clemência da luz

a natureza espera o meu gesto fútil
pintá-la para quê se o belo existe
além das libações que lhe cumpro hoje

evoco a serra porque é o meu mundo
as árvores solteiras respiram virtude
os poetas bebem harpas e alaúdes
onde só o vento os torna fecundos

a vida que vela sensata por nós
a vela que volteia no ar da manhã
a paixão debruada no brilho da foz
a idade que vira para a baía da paz

reflicto o que vejo neste espelho duplo
de um lado a existência, a fala no outro

a natureza é este corpo suspenso
divindade muda de apaziguamento e luz…

Bom Domingo! 

publicado por deSaraComAmor • às 10:58 AM • categoria: poesia

:: Sábado, Novembro 25, 2006

Polémicas à portuguesa

Nunca ouviram falar de revoluções que ocorrem mesmo em cima do nosso nariz e nós não as vemos? Pois, eu às vezes também me distraio por uns tempos… E desta vez fui-me deixando levar por uma espécie de ataraxia residual, como se tudo em mim funcionasse em modo de segurança e limitei-me a cumprir-me rigorosamente sem vacilar no menor gesto. Ao fim destas semanas comecei a sentir-me como uma máquina de aparar relva no automático e resolvi dar um saltinho ao mundo, só mesmo para ver. Mas ver como veria um turista ou um alienígena acabado de chegar ao Terreiro do Paço. Sim, só aí. Portugal… Pouco sei do mundo. É demasiado complexo e nada se faz sem guerra. E aqui, no país, tudo se faz com conversa, muita conversa, uma espécie de tira teimas estrutural em que cada um anda a ver se é mais teimoso do que o outro, ou se consegue arregimentar mais almas para a sua causa. E a cisão de opiniões é como uma racha tectónica a atravessar as pessoas, como se a liberdade de expressão permitisse antes do mais que cada um se pronuncie em causa alheia, como se fosse sua.

Chamaram-me a atenção para certo fórum do Jornal Expresso. Tinha de ir ver. Dois ou três professores aguentavam estoicamente as chibatadas de uma chusma de gente a opinar sem hesitações sobre a vida dos profissionais da classe. E a proferir insutos. As coisas que aprendi sobre mim! Ronha matinal, por exemplo, uma coisa que deve ter a ver com a rasteira que se passa ao tempo, no turno da manhã. Deve ser por isso que os professores são os únicos funcionários públicos que levam falta ao 1º minuto do segundo toque. Ronha matinal… E ainda outra: temos os filhos sempre no mês de Março. 90 dias de licença de parto e pimba, ganda pontaria, já não trabalhamos nesse ano lectivo! Fantástico como só agora me ocorreu esta virtude programática da classe. Preparar aulas? Qual quê, e como podíamos comparecer no cabeleireiro se o fizéssemos? Nada. Ensina-se a olho. Ia para me inscrever e coadjuvar os meus colegas que lhes iam aparando o fado. Mas, num Jornal como O Expresso em linha? Inacreditável. O anonimato na net dá cobertura às maiores enormidades. Aparecem transvestidos de filhos de professoras traumatizados pelas mães ociosas, chefes de secretaria que as sabem todas, jovens a recibo verde que querem baixar a fasquia da precariedade a toda a gente, dignos senhores reformados a falarem do tempo do outro senhor. Mas todos se contradizem mais tarde ou mais cedo. E os meus colegas lá, com muita calma… ainda lá estarão, na liça? Fechei. 

... para me dar conta de outra cena de injúrias, estas mais civilizadas e a atingir os píncaros da sofisticada manipulação de opinião. A guerra da TLEBS. O queeeê? Quem ainda não sabe o que é a TLEBS, o novo papão que vem aí traumatizar as crianças em idade escolar? A guerra entre os linguistas e os literatos. Valha-me Deus, o que este país se consome em polémicas, rios de tinta só para se sobressair na cena cultural, a intelectualidade disputada, o direito a ditar a cultura no rabo de uma cátedra! Que a Maria Alzira Seixas e o Saramago e outros assim como eles se envolvam na parada, é coisa que me interessa como cor local, a ver o que isto dá… pessoalmente investi todo um ano de trabalho na piiiiiii da Terminologia Linguística e já que a encaixei e lhe vejo o mérito, custa-me que quem nunca deu uma aula no Básico ou Secundário venha mais uma vez opinar sobre o que é que é bom para os alunos. Mas quando vejo a causa nas mãos de um Graça Moura a servir de seta envenenada sua ao Ministério da Educação, e logo no dia seguinte também na boca peluda do Eduardo Prado Coelho que muito oportunamente, como lhe é característico a lança como seta simultaneamente ao Vasco, ao Ministério e ainda a Maria do Carmo Carmona, então percebo que não serve de nada a ataraxia, este mundo quer-me mesmo na liça. E lá terei de ir. Voltei. meus amigos. A polémica é tlebicamente desgastante. Não tolero desinformação, oportunismo, muito menos o espezinhamento do trabalho honesto e transpirado por parte de ninguém, quanto mais dos Graças Mouras deste mundo em busca de protagonisto malgré tout…

E os efeitos destas cascatas conservadoristas são tais, que se teme já uma autópsia linguística ao cadáver de Camões, uma desumanização do ensino, um crime de lesa majestade à língua portuguesa. Uma mãe numa livraria andava ansiosa à procura de uma nova gramática adaptada ao novo programa, receando saber menos do que o filho.  Alguns professores aprendem o que podem, outros rejeitam a mudança recusam a imposição, e todos falam e ninguém sabe quem tem razão. Por mim, uma mudança de designações no domínio da disciplina de Língua Portuguesa não me assusta, sobretudo se melhorar as minhas práticas e puser os alunos a pensar e a perceber a língua materna, mas não me lembro de ter opinado acaloradamente quando ocorreram outras modificações igualmente radicais, noutros domínios do saber. Porque será que neste campo a mudança incomoda e indispõe tanta gente?

Até breve!

publicado por libelua • às 08:34 PM • categoria: poesia

:: Quinta-feira, Novembro 16, 2006

A GEDEÃO – NOS 100 ANOS DO SEU NASCIMENTO (24 DE NOVEMBRO)

(pé ante pé, bato ao de leve na porta, pedindo licença para entrar… não sendo um filho pródigo, nem qualquer outro prodígio, cumpro promessas mais que devidas à excelsa dona desta casa… à falta de flores, trago o Gedeão, sempre fresco, que inspirou, com o seu desassombro, com o seu tão fino sarcasmo e a sua tão doce ironia, estes meus pobres versos...)

gê de ião? – pouco provável
que um átomo p’ra apresentável
requeira algum monograma
porque não usa pijama
e passando a electrólise
careça de mais análise
p’ra concluir o programa

gê de quê?… ah é de António?
mas não se vê o porquê
tal letra assim à mercê…
‘inda se fosse plutónio
agitação de neurónio
neutrónio bombardeado
isso sim daria brado

agora cá esse gê
dando ao rosto um outro nome
sem nos dizer o porquê…

ele havia um Galileu
tipo estranho cuja fome
era muito olhar para o céu
num gesto que era tão seu
que lhe chamavam um vício
(coisa que em boa não deu
p’los lados do Santo Ofício)

disseram-me mesmo agora
que era de sonho tal letra
cruzando pelos céus afora
qual luzidio cometa
e era um gê de grandeza
pois é um gê com certeza
de que se fez um poeta.

- Jorge Castro

publicado por OrCa • às 11:52 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (3) •

:: Sexta-feira, Novembro 10, 2006

TernasSãoAsMadrugadas

Ternas são as madrugadas, bordadas a seda de carícias,
corpos que se buscam como rosas ressequidas,
em manhãs de linho na suspensão das horas e sentidos.
E nesse gesto sem tempo, pára o mundo,
cessa o sonho com sentido, procura-se o infinito,
e no cabo de um braço assim estendido,
nesse promontório ébrio, há uma trémula ilha,
arquipélago vasto desenhado nos teus dedos,
como paisagem pintada de fresco,
a magenta a luz opalina dos gemidos,
um rumor de águas, um latejar de incenso…
Na flor dessas indefesas madrugadas,
em concha nos fechamos a um mundo adormecido
onde a voz dos homens se desfaz em sonho líquido
e o pensamento erra por campos outros florIdos.
E no arco do desejo se desfaz enfim
essa tensa nota de violino, esse rubor meu como carmim
esse rio imenso sem foz nem moinho
essa dor sofrida dos sentidos, apenas fogo,
apenas sustenido, respiração (sopro ferido?)
terna sendo a remissão do desejo solto em riso.
E os meus olhos dançam nos teus dedos
em cada novo afago e terno beijo,
em cada palavra assim esvaída
da queda de nós nos campos verdes
nas cascatas e demais lugares acesos
nos caminhos bordados a palavras e certezas
nos poemas entrelaçados de promessas
na certeza do “nunca” ser demasiado cedo
para tanto amor tanto pássaro desfeito
tanta sede semeada, tanta incursão no medo…
Porque na voz da bruma, meu amor,
teu nome esmorece em queda febril
e o meu gesto de afago queda-se suspenso
despertando em lençóis de neblina,
quando a voz dos teus olhos seca de penumbra
e eu apenas e uma madrugada peregrina
e nada mais do que o barro do silêncio,
um quartzo iluminado na memória, essa
viajante sombria em rendas de menina…
E tu e eu apenas prólogo de uma história
antiga.

9 de Setembro
de 2003

publicado por deSaraComAmor • às 10:54 PM • categoria: poesia

:: Quarta-feira, Novembro 01, 2006

do tempo da escrita e da escrita sem tempo

Por vezes atravessamos momentos em que a verbalização concreta do que claramente sentimos se impõe sobre quaisquer metáforas mais ou menos felizes. E hoje, sei que podia urdir enleios de escrita, versos sem métrica, uma estória inusitada, uma conversa com os meus poetas mortos, descrever-me outra e sempre eu, e estaria a iluminar os meus recantos, a purificar os meus sentidos, a escrever na lusa língua, a humanizar-me na minha racionalização do real. Podia. Mas já há muito que não consigo mais do que revisitar o disco rígido e ressuscitar uns versos antigos para pôr aqui. O tempo. O tempo ocupou o lugar do próprio tempo e não sobra nada que o tempo me permita transformar em tempo. Nada. Cansaço. Horários de restos de horários. Tarde e noite. Horas vazias pelo meio. A preencher com tempo que nunca sobra para tudo que os novos tempos me pedem. E tempo também em casa, manhãs aflitas a correr contra o tempo e hoje, dia em que os filhotes me pedem passeios com a mãe, preencherei o meu dia com trabalho, ainda tonta da noite de trabalho, o chegar a casa sem lugar para estacionar, carregando a pasta do dia e a pasta da noite e a pasta de existir.

Por isso, sinto-me assim como uma pedra que mais não deseja que desaparecer devagarinho no sono e ficar por lá muito tempo, para refrescar a cabeça os nervos, o corpo, a memória, tudo… fugir a esta anódina burocracia que nos embranquece a criatividade, numa longa folha branca por imprimir, já que o tempo esse é um tirano burocrático que pressiona, pressiona as têmporas até partir.

Este ano lectivo apresenta-se rugoso de conflitos, áspero de incertezas, o fantasma do exílio sempre a pairar, sempre a vir encapotado lembrar que para o ano, ou no outro, ou no outro, estarei de novo onde calhar. Ou nem isso. E trabalho, trabalho, trabalho acumulado em piras por arder. Cada vez mais trabalho. Talvez seja melhor desistir de querer. Seja o que for. Resumir-me à condição plena de trabalhar de manhã à noite, sem feriados nem fins de semana e conceber o mundo uma interminável aula onde sou sujeito e objecto de aprendizagem de mim própria e desistir de querer pintar o perfil das flores ou a aura das folhas que leva o vento nas suas asas rítimicas… Deixar de fingir a dor que não sinto e passar a sentir a dor que não sei sentir.

Uma profissão que já nos deu tantas letras, tantos poetas, tantos homens que fizeram história pela palavra, uma profissão que sustenta almas, assim desmerecida, espezinhada como as minhas folhas que não consigo alcançar? Não estranhem se por uns tempos este blog se ausentar de textos meus. Que este silêncio se transforme temporariamente numa crónica de desistência. Será a novidade do novo tempo a tomar conta de todo o meu tempo. Mas não a fazer-me desistir de continuar a semear a resistência. Voltarei.

Obrigada pelas vossas passagens, silenciosas ou não.
Até breve, espero.

publicado por libelua • às 12:43 PM • categoria: poesia



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