a vida é assim, deserto semeado de amor,
mercado vazio de sentimentos, floresta de
encantos e de loucos, lago plácido onde
nadam os espíritos da noite e os anjos das
manhãs de flores
a vida é isto, é tudo, é um sol a despontar
após a chuva, um sorriso a beijar o mundo
conchas na maré vazia, e cabelos soltos ao
vento, pés descalços na areia e a força, o viço
de estarmos mais vivos e intensos
por isso, hoje a manhã é música, é ritmo, é maré
é paisagem cor de mel, é leve borboleta em anil,
é um balão rasando o céu, baile de gaivotas no
porão, dança azul de sete véus, beijos, risos,
uma mesa e os amigos no café
colar de conchas e de luzes e de búzios e de
palavras e de risos - a magia das pedras nos
meus dedos, uma serra a pingar no arvoredo
e o mistério, o desafio das coisas novas e desejos
de um dia despido de medos
um veleiro veloz ao vento uma vela leve
adeja no interior da pele sempre mais perto
uma certeza incerta no azul do pensamento
e a festa prossegue no olhar mar adentro
tudo começa numa página branca de palavras
e nós que as queremos alvas saindo dos dedos
e da alma e dos olhos ramalhetes de paixão e
tudo que se faz num dia assim é gesto de leveza
em céu de marfim...porque a vida…
é acordar com um beijo pronto nos lábios e
afastar com um pé os possíveis despojos de
invernos precoces e andrajosos e sentir que
mesmo na maré vazia, estarmos vivos é uma
perpétua aventura de sol e fantasia…
Bom fim de semana!
L’ARBRE JAUNE de Edouard CHAULLET (1924 - 1995)
Huile sur toile - 55 x 46 cm
Vislumbro um tempo, para lá do tempo, penumbra acesa,
rubi azul, espaço entre o ido e o porvir, entre o que é
e o que não existe - ónix branco intemporal, quartzo
a pulsar fora do mundo. É um espaço vago que entre o nada
e o tudo se perfila, tempo de indizível refúgio, espaço invisível
como nidação que só a ave vê, ninho que se plantou em beiral
de inacessível penhasco.
Existe o tempo da montanha e o espaço do mar, o tempo do murmúrio
e o tempo volúvel do girassol. Tantos os tempos tantos os sentires,
tantos os espaços, tantas as falésias, tantas as vidas, tantos os adventos,
tanto o amor, tanto o espaço fluido de um tempo nem chegado nem ido,
que temporiza o sentir, acerta o diapasão, enlaça as palavras, se abre
em mundo sobre nós, se fecha sobre nós em desejo, voando mais veloz
que a maresia ou o sopro de um beijo…
Existe um tempo para lá do tempo: esse em que nos contemplamos
e nos não vemos __ espuma de onda em dispersão; esse em que
nos sentimos sem sentir __ espuma de onda desmaiada ;
esse em que nos desejamos alvos e a que nos entregamos em intemporal enlace,
maior que qualquer espaço ou onda que se quebre em fúria num penhasco…
Existe um tempo que não é de ninguém, mas secretamente nosso apenas,
como oculto é também em frágil penhasco, o exíguo espaço
em que intemporalmente planamos, rajada de vento que somos nos braços vazios de alguém…
02/03/03
Um comentário de Batista Filho, uma estória sua sobre a inquietação. Está ali abaixo tão escondido… Não resisti a dar-lhe espaço…
Perdoa, amiga, dessa vez “chegar” de tão longe e deixar um comentário tão extenso. Li com atenção e fui tomado de “inquietação” por este e pelo post seguinte. N’alguns dos meus momentos de inquietação saiu o que se segue:
Não escrevia
só ruminava
de há muito.
Ler? Isso sim
tinha valia
nos poucos livros que tinha
e na terra tanta
tanto trabalhada
... que nem um palmo era sua!
Se uma rã cantasse na tarde quente
era chuva, no aprontar que chega logo.
Se rasga-mortalha
(ave agourenta)
pousasse na cancela da casa, tão somente
sorte a do cristão!
Mas se piasse
melhor comprar caixão… se rico fosse!
... pois que pobre carece disso não:
é oferecer a carne nua à terra-mãe
que da matéria morta renascia flor e grão
arrebentando de tanto viço
como se a terra, de barriga cheia
de puro gozo desse riso.
Cismando sobre tal mote, alembrou
como era mesmo o nome?
Decorar?! - dar conta nunca pudera
quanto mais nome estrangeiro!
... mas enfeixara bem o que ouvira:
“Nesse mundão de deuses, de todo lugar e gente
nadica de nada se perde, nem havera de perder;
dos lugares mais afastados e deuses diferentes
nadica de nada se cria ou havera de criar;
nesse mundão de deuses sem conta
(e quase crença nenhuma!)
nadica de nada há de se perder ou se criar
tudo havera de se transformar, tudo havera de mudar.”
Nada se perde ou se cria, nadica!
... só se muda
às vezes
até de lugar!
(E como foi um estrangeiro de sapiciência que o disse
quase todo mundo acreditou nessa ciência, sem atinar sabedoria
... mas ele não! - nunca fora mesmo de ir logo acreditando
só por acreditar!)
Não escrevia.
Só ruminava… de há muito.
Um bicho morto na estrada
era sempre engolido por um sem conta d’outros bichos.
E daquela matéria morta e bruta vinha a energia que precisava
cada criatura presa ao chão ou que pelo mundo vagava.
Mas se da matéria morta e bruta nada se perdia, tudo mudava
pra donde então a energia que um dia animara aquela matéria
que dias outros vira o sol nascer, morrer, renascer… qual ciclo das marés?!
Nadica de nada dizia.
Só ruminava… de há muito
enquanto os seus pés arrastavam-no para a estação.
(Na estação, carcomida pelos cupins, alguns fantasmas, por demais conhecidos, indagavam com os olhos porque já não se fora. Nem isso sabia ao certo, mas sabia que chegara a hora… Disfarçava uma lágrima quando o trem apitou, bem lá no fundo da sua alma. Olhou para o alto. Enxergou a ave. Antes, só a pressentira. Sentiu um misto de alegria e dor. Deixou-se engolir pelo vagão. Enquanto o trem se punha em marcha, mirou pela janela… a ave mirou-o, longa e ternamente, depois partiu, qual flecha veloz, rumo ao infinito azul… dos olhos do homem, igualmente azuis, fez-se maré cheia, pois compreendera: as suas penas não eram suficientemente fortes, para que ele pudesse acompanhá-la.)
Segunda-feira, 16:30, a aproximar-se o fim do dia, prestes a começar o meu turno, com uma aula de acompanhamento de alunos, seguida das aulas da noite. Chego ao meu local de trabalho no momento em que uma viatura da escola segura parte com uma miúda a chorar, entalada entre dois guardas. Uma chusma de alunos, alguns adultos, curiosos que passam, mantêm-se no local ainda a digerir a estupefacção. Ouço os comentários ao passar e não preciso de mais nada para saber que a miúda, uma adolescente bem nutrida, perdeu a cabeça e cravou um xis-ato nas costas de um colega. Recordo a imensidão de vezes em que tive de apreender tesouras e xis-atos, clips e agrafos, por se transformarem em armas inocentemente letais. Recordo o rapazinho que se feriu no olho com os bicos de uma tesoura, a miúda que se defendeu do gang rival e feriu outra com uma garrafa partida e cortante, o jovem que ofereceu ácido moreático a uma miúda deficiente, como se fosse um perfume… e assusto-me. Viste como ela entrou ontem na aula? Passou-se. Até parecia a nossa patroa! Ela nem é nossa stora. Se fosse um stor dava-lhe logo uma berlaitada! ouvi na semana passada, a propósito, segundo percebi, de uma aula de acompanhamento de alunos em que a professora impôs algumas regras.
Um destes dias, numa turma da tarde onde vigora tendencialmente a risota e o trolóló, para os pôr a pensar e incentivar o gosto pela lusa gramática resolvi pôr a prémio, para além de uma nota positiva na caderneta, um inocente chocolate. O moço que o ganhou suou as estopinhas ao atacar as estruturas subordinadas e lá as desenvolveu em arquitectónica beleza. Foi simbólico. Ficámos todos felizes. Na reunião de pais, conta-me a Directora de Turma, cai a polémica. Oferecer um chocolate? Então ela acha que o meu filho é algum miserável que passa fome? Reprovação geral de todos os outros. Só ofereceu a um aluno? Isso é que está mal. Se oferecia a um, devia ter oferecido a todos. Risada minha. Que raios. Afinal o meu erro foi não ter oferecido também chocolates aos pais para me deixarem trabalhar e deitar mão a todas as formas possíveis de gerir aquelas hostes… Imagino quantos recursos meus não serão ainda julgados em hasta paterna… eu que me entrego e envolvo e não desisto nunca.
Desprendo-me das memórias e dirijo-me à reprografia, para levantar material imprescindível às aulas da noite. Na sexta-feira havia deixado os originais, impressos em minha casa, prontos a serem policopiados. Numa mudança de turno, as funcionárias, acusando o excesso de serviço, tinham-lhe perdido o norte. Telefonei de manhã para me assegurar que tinha o material pronto. Soube que seria preciso voltar a entregar o original. Sugestão da funcionária: mandar por mail. Rejubilei por poder poupar os meus tinteiros… Mas agora verifico, pelo ar surpreso da funcionária, que não chegou nada. Parece que o mail da reprografia não anda a funcionar lá muito bem. Transpiro. E agora? Alívio! Tenho tudo na minha “pen”. Preciso apenas de imprimir algures, sendo o algures o maior dos desafios numa escola. Sala de profes, dos 3 Pcs um não tem saída usb, outros dois têm, mas não reconhecem a pen. Aliás, arrancam e empanturram logo, com o peso dos anos em que serviram no Montepio Geral, entidade donde partiu há anos incomensuráveis a generosa oferta. Desnecessário seria esse périplo: a impressora tem um letreiro enorme: Avariada. A outra ainda maior: Não mexer. Biblioteca: os dois Pcs têm saída usb, mas não me reconhecem a pen. Pc da funcionária. Ok. Ela confirma que reconhece todas as pens, indiscriminadamente do seu volume ou proveniência. Estou salva, penso. Não. A funcionária não tem ordem de deixar os professores acederem ao Pc. Brilhante. Lembro-me que tenho o material publicado num site da net.
Volto atrás e tento aceder. O tempo vai-se esgotando. Lenta, lenta, a lista azul preguiça e o site não abre. Toca a campainha. Chegou a hora de comparecer na sala de profes, para ser chamada a substituir alguém que falte. Desisto. Talvez não me chamem. Assim foi. Ninguém faltou. Regresso à Biblioteca e ao meu site. O tempo a passar. Vitória. Abro o documento e dou ordem de impressão. Nada. Outra vez. A impressora muda e queda. A funcionária diz que ela já anda assim há uns dias. Desisto. Vou ao Conselho Executivo. Imprimir só na Secretária, mas tenho de ter autorização do Administrador de rede e o dito não está. O Pc da assistente do CD nem tem net, nem tem saída usb. Que me resta? Improvisar na aula, usar a experiência e saber acumulado de recurso móvel em que nos fomos transformando, ano após ano de contrariedades afins. Descrever esta minha aventura, na esperança de que algum alto responsável a leia e daí se lembre de nos erigir a estátua dos otários da nação, os únicos funcionários do estado que têm de adquirir do seu bolso todo o material de escritório que utilizam na sua profissão, sem direito sequer a dedução no IRs. Apetece-me fazer a greve dos tinteiros e deixar de facilitar, personalizar, melhorar aprendizagens já que isso me sai do bolso, como aliás me sai agora o meu futuro, na módica quantia de 360.000 euros. E jamais chegarei a professor titular, passe embora o meu brilhantismo, os “en” cursos e especializações, as “en” avaliações de Bom ou de Excelente que possa vir a ter, as anónimas experiências de sucesso saído de um cérebro que não será o mesmo daqui a poucos anos. E isso também não traz vantagens a ninguém, pois mesmo com todas as titularidades e brilhantismos a fasquia dos escalões superiores continuará elevadíssma, sujeita a injustas quotas. Ou seja, ser ou não ser bom, é pouco importante afinal. A melhoria das práticas administrativamente aniquilada. A morte profissional anunciada por um estatuto que hipocritamente diz visar uma melhoria do ensino, mas só se preocupa em equilibrar o défice, à custa de todos os educadores.
Em suma, isto tudo serve para dizer que estou em greve. E não digo mais, porque ainda estou na ressaca dos mil e um testes que tive de fazer durante o fim de semana para o recorrente e estão aqui alinhadinhos à minha frente para corrigir. Talvez devesse fazer também a greve das canetas. Mas quem deixará de aproveitar estes dois dias para organizar o trabalho acumulado? E pronto. Anónima e silenciosa greve de zelo. Quem explica aos pais e encarregados de educação que com um poder autista, incompetente, teimoso, surreal e cínico, ninguém sabe muito bem para onde caminha a Educação neste país?
Lá fora o frio, a fuga, a fúria da noite
Lá fora um dilúvio de sombras a derrocada
enlameada das árvores e dos homens
que ficaram sozinhos no coração do vento.
Lá fora a chuva em diapasão de gotas
um fustigar das almas soltas, a chuva
que alaga a terra e as sepulturas,
a chuva que limpa as sarjetas, lava o
gasóleo das estradas, e dilui a terra
em lama urbanizada, a lava industrial
das cidades cercadas de betão.
Lá fora chuva, ventania e lodaçal.
Cá dentro cítaras acesas e círios serenos
ardendo na mansidão dos druidas.
Cá dentro a placidez da noite no fogo
ameno das vestais. Cá dentro a roda,
a pedra, o círculo e uma brisa de
auroras boreais. Cá dentro a inclinação
do sono, a visitação dos medos e desejos,
a fúria das bacantes em volta do sopro de Orfeu
os ventos que sopram pela mente, as paisagens
do sonho reciclado, as crateras da memória,
fundas, lacunais, transbordantes de novas
intemporais histórias. Mas o sono desliza
mansamente pela cadência da chuva e os
cabelos espalham-se pela alva almofada
e tudo apascenta como rebanho desinquieto,
finalmente seco, na protecção de um tecto…
noite de 24 de Out. de 2003
En las afueras de Toledo (Los viejos), 1912. Óleo sobre tela, 210 x 185 cm. Diego Rivera.
as cidades acépticas
as cidades hipócritas nos seus
labirínticos saneamentos
escondem males que antes urinavam
na via pública
as cidades gangrenam silenciosas
fomes
pálidos lamentos
nas cidades há velhos e novos
que arrastam nos pés as memórias
de ser gente - umas vezes atrevem-se
a atravessar o brilho das montras
outras buscam anódinas paredes
com medo de empobrecer o valor predial
dos edifícios da baixa
ou de tolher a súbita pressa do socialismo
em lhe cuspir nos pés
às vezes arriscam olhar o mundo
na decrepitude de um leito
subterrâneos como ratos
pudicamente limpos pelo centro de dia
e até há agora, dizem,
homens que bebem como se fosse vinho
a negra humidade do relento
mas não os vemos sentados ao sol
como antes nos arredores frescos
de Toledo
Podia começar por ser um passeio na cidade e o cenário ser um poema de Cesário Verde, numa paleta de Outono. Podia ser Outubro e as primeiras chuvas a caírem nas poças da calçada. Lisboa seria ainda uma cidade mourisca, sem as ferragens luzidias dos carros que agora passam e pesam no ar como ameaças de morte por asfixia gástrica. A subida seria leve e fácil, sinuosamente lenta do Carmo para a Trindade, a pé, pelas vielas e escadinhas exalando murmúrios de parnasiana saudade. Haveria gabardinas a proteger do excesso de luz no olhar, haveria gaivotas atardadas no regresso à ribeirinha recolhida na extensão da maré. A melancolia vinha directamente da iluminação a gás, em simbiose de sombras distorcidas na calçada, materializadas em vultos e vivências anónimas presas num tempo, em efémeras buscas, preocupações rotineiras. Não saberiam talvez ainda. Um quotidiano tísico arregimentado pelas mãos expressivas nos gestos que vão esboçando, os membros tensos, a subida rápida do eléctrico, podíamos tê-lo apanhado e rir pela inesperada correria, corados e felizes como rosas, mas então teria sido raro e leve o prazer da subida, mal começa e já chegamos, ainda bem que viemos a pé, iludimos assim as nuvens do tempo.
Somos breves e agora juntos parecemos maiores, talvez seja “aquela visão da fantasia” (1) que buscamos ébrios de absinto às “ (...) mesas espelhentas do Martinho.”, em arrojos pueris na ponta do verso alexandrino, Laura que passa e não te olha, uma deslumbrante Milady feita de arminho e indiferença, o vidro da tosse que vem no último momento, a solidão embrulhada em papéis, quem os lê, quem os eleva à condição de documentos dos dias das horas dos arrojos e lamentos? Se a minha amada um longo olhar me desse/ Dos seus olhos que ferem como espadas,/Eu domaria o mar que se enfurece/ E escalaria as nuvens rendilhadas”. (1) Não importa se seria Laura, se Lídia se outra qualquer a teu lado, pálida e mítica no seu momento secretamente arrebatado. Éramos apenas frágeis sombras sem matéria e porém a noite coloria cada gesto e palavra nascida do silêncio, a despeito da chuva esparsa que escorria tornando o (nosso) mundo uma aguarela impressionista.
A caminho do Príncipe Real, podíamos parar e olhar para trás. Uma cidade é um livro aberto com suas páginas soltas, suas janelas fechadas, suas metáforas em vasos ressequidos, suas paisagens pinceladas de pessoas, a captação única do momento, oculta em cada olhar, suas sintonias de luz, sombra e luar. Podíamos beber o ar que se respira em Lisboa húmida, Lisboa brumosa, o outonal fervor das folhas molhadas, pisadas, privadas de voar e ficar apenas assim num banco a olhar o Tejo, sacudidos pelos ruídos dos eléctricos sacolejantes, gizando os carris em agudos lamentos. “Se ela deixasse, extático e suspenso/ Tomar-lhe as mãos “mignonnes” e aquecê-las,/Eu com um sopro enorme, um sopro imenso/ Apagaria o lume das estrelas”. A intemporalidade a nosso lado, escrita no arrojo com que nos negávamos a mão e desenhávamos os barcos do Tejo, em cada luz que se movimentava na escuridão distante. Dirias, olha este é o nosso presente, que não existiu, porque somos um passado de luto que busca o radioso futuro que pousa às vezes brevemente nas pombas pálidas dos amantes. Olha, estas são as memórias que colhemos dos poetas e vestimos para parar o tempo, fazendo desta noite a semente que busca a terra como eu te busco no reverso da minha mente. Mil e uma memórias te cerceiam neste momento, porque este é o silêncio criador onde nos abrigámos para reunir todos os murmúrios frágeis da noite amante. Um passeio de Outono, uma árvore esplendida onde nos plantamos para tomar os pulsos da cidade e medir a intensidade do momento que nos resta, antes de voltarmos a ser passado.
Então tu dirias do teu gesto “Sentado à mesa dum café devasso/ Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura/ Nesta Babel tão velha e corruptora/ Tive tenções de oferecer-te o braço”. (2) E eu com a distância que vai entre um verso e um gesto haveria de quebrar o poema nas tuas mãos para te ocultar o meu rosto em rosas, nada é tão pueril como um pensamento geminado e verbal resgatado à timidez da voz. Sim, pouco posso dizer de um corpo esvaído em ternura a planar entre nós. Dão-nos esta anisocronia para pintar a gosto e não temos paleta nem tintas, nem sequer um lençol para provar que existimos e marcámos o mundo com as nossas cinzas. Fica o teu berço estendido, uma estátua que amanheceu inusitada no largo e os varredores da Câmara levaram conjuntamente com as últimas folhas caídas do velho plátano. Diligentes almas recolherão as nossas palavras, rasgadas a canivete num banco de precárias formas, moldado pela imaginação prodigiosa doutros Cesários, loucos, pessoas invidentes e visionárias em fuga à realidade crua dos bicos de gás na calçada. Que dirias tu, depois, do teu braço pendente, da tua boca cheia de palavras e dos meus passos de arminho, cada vez mais perto, cada vez mais profundos na tua pele e sem cronologia habitável. Nada!
Passarias poético e luminoso como astro ou barco no lastro das correntes quentes do oceano. Fecharíamos a noite “...sem pecado e sem inocência.” (3). Por que nos dariam mais se o tempo é um violino incompleto, cujas cordas afinadas se quebram uma a uma nas nossas mãos cansadas? A nossa dimensão não é a vida. Nem é a morte, diria eu como se fosse Natália e trouxesse já as mãos impressas com os títulos frescos da próxima madrugada. “Triste eu saí. Doía-me a cabeça./ Uma turba ruidosa, negra, espessa,/Voltava das exéquias dum monarca. (...) Avultava, num largo arborizado, Uma estátua de rei num pedestal”. (2) “E se aquela visão da fantasia/ Me estreitasse ao peito alvo como arminho,/Eu nunca, nunca mais me sentaria/ Às mesas espelhentas do Martinho”. (1)
Hoje saímos do poema. Cá fora o sol aperta-nos contra si como filhos renascidos da maré negra dos fados. Somos um esboço inequívoco de luz amarelecida pelo tempo, mas avivada pela vida nas artérias de cada único momento. Uma subida até ao arrojo da alma despida de corpo poético, talvez seja o último eléctrico da noite a partir sem regresso, o vento de feição e as caravelas a bailar no olhar, passageiros enfeitiçados vamos, é tempo, ouve-se, muito ao longe, um poeta murmurar perigosamente perto dos nossos ouvidos:
(…)
Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;
Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.
Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.
(…)
(4)
(1)Cesário Verde “Arrojos”
Lisboa, Diário de Notícias, 22 de Março de 1874
(2) Cesário Verde “Eu, que sou feio”
(3) Natália Correia “Queixa das Jovens Almas Censuradas”
(4) Cesário Verde “Eu e ela”
correm as manhãs à solta na cidade sem flores
nenhuma poesia nos estendais nem nos olhares
nem nas ruas escuras da rouquidão dos motores
o tempo demora-se à janela a beber a neblina
ou a sonhar árvores de algodão na bruma
todas as coisas parecem suspensas até o mar
basta um gesto para tocar o pensamento
um punhado de matéria eléctrica funcional
prosaicamente penso o que vejo e nada mais
e vejo a triangulação do mundo
escondida em formas perfeitas e angulares
parabólicas mudas a captar sinais
ecos de vidas urbanizadas ou por urbanizar
que explodem ao longe sem sequer gritar
somos a medida única das coisas sensoriais
mas não podemos continuar a ser paisagem
que as silvas invadiram e abraçaram na
memória confortável do olhar