outonalidades a sépia na paisagem sem lugar
palavras de flores por vir rosas de chá
em voos displicentes na tarde tolhida
luminosas aves entre terra e mar
outonalidades rubras de mosto arrecadado
a exacta geometria da parra luzidia
a paz dos frutos a semente incendiada
a serra atapetada de folhas
folhas do passado em alegres revoadas
parecem pássaros que nunca viram
o declínio da luz na cidade
tons de trigo seco na memória
talvez nunca tão louras lembranças
como estas da luz que entardecia
no lugar onde nos púnhamos elevados
e cada caminho desembocava em poesia
simples sonoridades na simetria do olhar
talvez o sol que se fragmenta em
douradas linhas circulares
os dedos trémulos de saber absoluto
que afloram a melancolia enredada na fala
como se fosse folha e rodopiasse
para as enamoradas paisagens da alma
Uns versos bem antigos, pesados e sonantes, como eu já não sei fazer. Já publicados na versão I deste blog.
Votos de bom fim de semana!
Vieste Lua cheia dos meus dias
por uma noite de chuva igual a esta
desceste na falua dos meus olhos
e meu corpo se vestiu de melancolia
eu frágil, frágil ilha descoberta,
inventada certamente por ti num
qualquer mapa de mistério
e em minha flora te fiz giesta,
de meus sonhos árvore intensa,
de meus versos fera e lidador,
meu perímetro teus braços
minhas colinas abraços, meus recifes a
doçura de teus beijos encantados
longe, longe e perto o teu olhar,
a tua voz meu deserto, voz de Merlin
exilado, voz de quem vagueia
perdido e se encontrou a meu lado,
tu vento insubmisso vieste de madrugada,
e no degelo do meu sol de Inverno,
há uma poção que faço e não bebo,
minha paixão intenso apelo, tu,
tu a raiz que não cresceu, como quando
o amor é mais forte que aquele
que o pensou. Como quando o fosso
é abismo e a ravina falésia. Qual dos dois,
pergunto-me eu, nos inventou? E a
lava fez-se rocha e a rocha erosão
e o tempo ficou na minha ilha, erguendo
castelos nas dunas da ilusão…
Ilhas depois e muitos sóis passados
na invenção da Obra nos perdemos
Fiquei a saber que me inventaste como
composto de carbono e ácido, ou flor
rara do silêncio. Fiquei a saber que as
nossas naus se perderam na eternidade
de um abraço e a intensidade foi o meu
leme, para um infinitivo adiado.
Faróis vieram e eu não vi teu rosto,
na intermitência da ofuscante luz
seguiu-se a escuridão e o silêncio
a imensa densidade que seduz…
Ainda hoje não sei quem me inventou
Se foste tu ou se fui eu. Porque há a
intensidade, esta latitude de meus versos
intenso amor, intensa a vela, intenso
o vento, intensa e bela a noite em
que te encontro…
Pintura de Israel Zzepda
Que somos nós mais do que projectos em curso, com a dimensão cósmica que a natureza nos conferiu? Sabê-lo é fazer da incerteza o manto dos dias, pois exacta e previsível só a pulsão dos corpos celestes, os seus movimentos admiravelmente conjuntos, regrados, regidos pela lógica volumétrica da matéria própria. Se nos posicionarmos no enquadramento desta ordem, teremos uma consciência salutarmente materialista da nossa ínfima importância, mas também do enorme privilégio que nos coube, enquanto espectadores ocasionais do universo, uma possibilidade entre milhares que gerou a nossa existência, no plano superior da cadeia animal. Quanta fragilidade rodeou o nosso nascimento e crescimento e continua a regular a nossa vida? É por essa fragilidade que me inquieto, quando me vejo una e indivisível, num universo de seres unos e indivisíveis sujeitos às duras leis da natureza, passageiros ocasionais que problematizam e questionam, ou não, a magia da vida, o paradigma imutável da existência.
Essa consciência aguda de ser, longe de qualquer ética existencialista, posiciona-me mais no plano da idealização da vida. E há uma dialéctica intransponível nesta opção: por um lado a enfatização de tudo que nela é prazer, ou seja a pulsão vital, em detrimento da pulsão de morte; por outro lado, a problematização da existência para a compreender melhor; finalmente a idealização da existência, para a tornar ou sentir melhor. Suponho que qualquer estágio da maturidade humana implique esta via absolutamente interactiva atarvés da qual cada ser pode, em qualquer momento da sua existência, gerir em seu proveito ou de outrem os três planos de adaptação ao real.
Não aponto caminhos para a felicidade, nem para o equilíbrio. Lembro como Nietzsche, sem ser niilista, no sentido que agora lhe atribuímos, o milagre da união do espírito dionisíaco (música, êxtase, essência, aniquilação do indivíduo subjectivo, impulso de vida, uno e primordial) e o espírito apolíneo (sonho, beleza, forma, aparência, princípio da individualização, palavra) como forças artísticas opostas e para mim complementares nascidas da nossa própria natureza. Pelo meio fica o homem teórico, aquele que justifica racional e eticamente a existência. Só nesta complementaridade pode surgir algum vislumbre de equilíbrio no homem moderno. E não nos enganemos, nem procuremos criar a partir deste mero exercício de raciocínio a ideia de que existe neste percurso um homem privilegiado, culto e esclarecido. Não. Foi o que procurei indicar no exercício abaixo, chamemos-lhe poético ou não.
Considero que a “inquietação” é comum a qualquer homem, mais ou menos moderno, mais ou menos esclarecido, mais ou menos teórico ou erudito. Afinal, o imperativo único que nos norteia é cada vez mais, e assustadoramente cada vez mais, o de procurar a felicidade, uma espécie de onanismo apologético, quase inconsciente.
Será, talvez, a perda das opções supracitadas que nos faz muitas vezes optar por vias individualistas de insatisfação, sofrimento, desilusão, renúncia e incapacidade de intervenção nos múltiplos sentidos das problemáticas sociais, políticas e ideológicas do mundo que nos rodeia, misturando-se numa mesma pulsão, o querer ter, o querer ser, e o querer querer. E tudo isto vem a propósito de um mail que um leitor teve a amabilidade de me enviar, numa sua longa madrugada, e me pôs a meter a mão em seara alheia, sujeita à ira dos filósofos vivos e dos que estando mortos, sempre viverão, e felizmente para mim não poderão já exercê-la.
Foto de GeoffRoy Demarquet
Eu tenho um poema a despontar,
Como pedras cravadas de ironia.
Eu tenho o poema de todas as manhãs
Que escorre como a humidade nas umbrias
E se resume a umas breves sensações
Eternamente por todos os homens já sentidas.
Eu sinto a leve inquietação das nuvens negras
Que abriram já outras manhãs
E ensombraram outros espíritos,
Outro seres que no céu leram
Suas dores futuras, suas incertezas,
Suas indómitas dúvidas…
Eu tenho flores insaciadas de mulheres acesas
Em sol nas palhas,
De homens labutando em terras vastas,
De suor perlando as (suas) poucas falas,
De corpos ainda por sossegar,
Nas noites de físico repouso,
Raros sonhos, labuta que nunca verga,
Faina que nunca busca
A quimérica sombra do monte.
Eu tenho o poema das inquietações todas,
Da chuva que vem e traz aluviões,
Da seca que sedimenta,
Da geada que corrói.
Eu tenho o poema de todos os incertos tempos
E sei que sou apenas mais uma voz
Que dá corpo a um mesmo imutável lamento.
Eu tenho um poema…
Mas os sinais nos céus
E a inclinação das giestas
Apenas lembram que o meu sol declina
E em gargalhadas de irónico escoamento,
Cederei o meu lugar neste carrossel da vida
A outros olhos que irremediavelmente verão
As mesmas cor do mundo
E os seus sinais de inquietação.
Ou a eternidade das pedras
E dos corpos em fusão…
14 de Julho de 2003
Óleo sobre tela de Hamido
é natural
que o vento venha uivar à janela
a dor gasta dos dias
que as palavras perfuradas
trespassadas pelos tempos
caiam por terra
como coisas metralhadas
em guerras vazias
que tudo que eu diga
tenha ressonâncias antigas
frágeis, nuas, inconsúteis
com a voracidade da vida
porém eu insisto
aí onde perturbares o lago
a sua quietude contida
escreverás no meu peito
a maldição da poesia
eis que o Verão de novo se insinua
sob a pele nua dos dias
em mil e uma despedidas na boca febril do sol
na água salgada da vida
e viver é esta promessa que dança louca
na rosa luminosa do presente
como se tudo fosse uma questão de cor
a espalhar sobre o que se sente
Bom fim de semana!