Take 1
respiro a tarde como se renascesse
tranquilas aves silenciosas descem
em voos picados no dorso dos peixes
como um veleiro o tempo apetece
o vento vagueia em vagas sem rumo
e na luz de partida para lá do poente
grinaldas douradas pintadas a sangue
o mistério solene da paz de um instante
Take 2
é no céu da palavra que a poesia irrompe
celebrar o mundo como se celebra um corpo
sentir que o pensamento se despe de sombras
e parte na luminosa poalha do sonho
até onde a concha nos alberga e esconde
Take 3
só o mistério das marés ainda nos confunde
e a nossa voz sem asas criou sombras
escurecemos as palavras como se o Verão
não fosse este oiro que cai e se renova
Ali onde os cristais brilham no escuro
e um rio de súplica vai para jusante
ali onde os astros tiveram seu declínio
ali mesmo contei o mar sobrante
Ali na alvorada do prazer, na orla do
círculo de sal, dancei dentro da miragem
nas faúlhas de um fogo por arder
Se os cristais eram pétalas, não sei
porque o rio brilhava de prata azul
e havia seda de luz no seu encalço
Era a origem de todas as sedes do
poço da ternura
Era mais que canto mais que uma
aguda espera
Era o declínio dos astros nos sentidos
o magma luzidio, a febre, a sede de rosas
e de estio, eram lufadas de ar no dossel
do mundo e o corpo solto de espadas
e leve de murmúrios…
Delicadamente uma rosa se abriu
em pétalas que caíram leves e soltas, sem
o peso das coisas mortas. Voar é a miragem
mais perfeita, pensei no encalço da luz.
Harpas em torrentes de volúpia e o
zénite do sonho eleva-se no escuro:
Ó amanhecer de um novo Ser nas águas
florais do pensamento - ó miragem dos
sequiosos de novos oásis de vento!
4 de Fev. de 2004
abrenúncio fico ao rés do precipício
ortorrômbico de mil faces me estranhei
prognóstico prenuncio aqui-d’el-rei
onanístico num espanto de prepúcio
endovélico me queria desde o início
proletário por caminhos em que andei
alfarrábico por saberes que já nem sei
em paradas festejando o solstício
e lá vou quase ao rés do analítico
alegórico numa fé estapafúrdia
sorumbático que me sinto e abúlico
analfabético entre verve e prosa espúria
clavicórdico tantas vezes evangélico
metafórico de esdrúxulo nesta fúria.
Pintura de John-William Waterhouse
Quando as rosas são lúcidas e amam
quando as rosas se prendem nos poemas
quando as rosas sagram pelos dedos
há uma seiva azul de clorofila e medo
uma seiva que se esgota e se sacia
na insensatez que semeia a poesia
Na lucidez da rosas e dos caules
a essência que entorpece e purifica
as folhas leves destes versos de vida
esta voz única que se decepa
e duma mulher faz voz de poeta
E então toda a poesia é fragrância
e delas bebe a suavidade e a esperança
e como elas morre numa qualquer estação
se o poeta se amortalhar de silêncio
e se embebedar de suave solidão
Se amar é esta sintaxe que me veste
então eu serei a haste e o espinho
de toda a floração inerte - aquela que
nasce e morre e a mão não vê
Aquela que olhos não colhem, lábios não
cheiram beijos não bebem
doçura esta delicada da efémera pétala
que amanhã não será bela
E a poesia rega de dores cada palavra semeada
e a ilusão aduba de amor cada rima encadeada
e o amor arboriza um canteiro abandonado
sempre que a poesia brota do peito amado
Tudo o mais é o tempo que nos sopra
e por cada pétala nova há uma que esmorece
e esquecida se dobra pela haste
outra há que jubilante se renova e nasce
E por cada poema que podamos,
há um que grita no coração que amamos
nesse irrepetível milagre da lucidez das rosas
irrompendo frescas nas palavras que calamos
30 de Março
de 2004