Minha casa meu rio meu horizonte
coisas que a memória já perdeu
meu dia minha tarde minha noite
meu sono seco de todas as fontes
Minha tribo meu sangue assediado
meu fogo que se acende na neblina
meu ritual de luz dança em surdina
minha busca incessante de ternura
Meu azul de neve na penumbra
minha cidade verde de queixumes
meu silêncio arado nos rochedos
minha terra morrendo de lonjura
Meu sopro de todas as manhãs
cinza das searas incendiadas
meu amor enleado de serpentes
meu poço de todas as verdades
Minha cidade arremessada ao vento
meu rosa seco nesta rua urbanizada
meu nome é sal e esta é a palavra
que cuspo na saudade que me mata
Meu sentir em espadas desferido
meu dossel do céu sem avenidas
minha paixão crescendo ao sol
entre as fases da lua proibidas
Meu sonho nos braços do luar
Meu despertar num delta de silêncio
este lago de lava adormecida
que me aquece o corpo e me ilumina
as casas brancas
o céu de anil
e o rosa forte de buganvília
deuses amenos
águas de Abril
espinhos rosas ramagens mil
e um rio flui sorvendo margens
viagens de águas em tons serenos
feitos de sons
das aves todas entre as estevas
gritos
chilreios
de espantar medos
e as chaminés que o fumo levam
pelas giestas e por montados
e o vento é norte
aura de mar
azul mais forte
a desenhar brando contorno em tons de lua
laivos de sal
e de cal nua
feita brancura dolente a sul
e o mar dourado do sol poente
faz-se mais quente
depois do azul
e o rosa forte da buganvília
vulcão de cor no céu de anil
cobre de esperança
o medo e o pranto
nesse quebranto
das casas brancas no mês de Abril.
Por vezes quebro a placidez da casa
como quem profana a região secreta do corpo
e possui a sua áurea fruto a fruto
O fascínio da casa consiste na pedra
e na espera sempre de ver entrar o dia
no seu hálito intocável a ceras e madeira nova
na sua melancolia de lugar que se (des)povoa
A casa continuará a existir depois da voz
do som e da fala e depois de tudo
Passos irrequietos no tabuado
fantasmas do futuro avançam já incertos
ainda do seu papel na eternidade
Aqueles que virão depois de mim habitar a casa
já vivem – ouço-os que me ignoram
os sinais - foi existiu esteve era – já não.
Falam de mim como chacais bebendo a alma
da casa que sempre fui
E porém eu é que inventei a casa
pedra a pedra como quem afaga um corpo
e o completa na sua fálica nudez
Fui eu que plantei a palmeira e o plátano
e o chorão que refrescam a casa
Fui eu que inventei o teu nome
a casa o quarto o sonho
O teu nome -
que não sei
Fui eu que
Fui, sim
Fui
eu
Cartoon aparentemente deslocado aqui
The Guardian - Steve Bell
Aqui neste desvão da terra
este lugar agreste e mudo
como todos os lugares
geologicamente elevados do mundo
frente à escarpa de vulcânica origem
há um jardim de silêncio profundo
onde vou colher sopros de paz
para espalhar no meu caminho
não tem flores vivas, nem sorrisos de
crianças
o jardineiro não cria rosas apenas se
debruça sobre as pedras e lhes dá
o brilho ocasional das coisas frias
recolhe piedosamente as flores que descaíram
as jarras que o vento levou ou se partiram
e de resto só lá vive o rumor dos ciprestes,
algumas tílias olorosas e a fenda na paisagem
coisas secretas que a cidade viva não tem
que ninguém vê nem aproveita
mas lhes sabe absorver a cor magnífica
porque soube viver e morrer de forma
benta como todos que vão deveriam ir
serenos na sua hora - que nenhuma guerra
ou mão humana adianta