poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Sexta-feira, Maio 26, 2006

o ouro da palavra

O tempo tem andado velho encimesmado; a vida tem sido vaga e variada no seu vagar entediado.
E tendo tido o trigo e a palavra, tendo sido amados pelos deuses, ficamos emudecidos como pedras,
cercados pelas águas de Letes, as incipientes lagoas da alma, onde nadam razões caladas.

Havia sido escrito nas fábulas: teríamos talvez naufragado, mas havíamos de arder em paixões e mágoas
com as cinzas presas na fala. Somos a cadeia anafórica da morte - uma deíxis sem referência temporal -
aproximadamente quase nada se nos quisermos eternizar. Escreverei um dia esta carta so-le-tra-da i-nu-si-ta-da.

Hei-de quebrar o selo do silêncio e oferecer-vos o ouro da palavra se ouro houver no silêncio que vos trago. Devereis
reabrir cada sílaba lacrada, como o papiro da vida, folha frágil, onde o tudo evanescente é o subdomínio matemático
do na-da.

Um vendaval anuncia a dispersão de uma noite de almas e lamentos depois talvez madrugada iluminada. O sol literal,
aquele que beija indiferente a terra ou o mar, o verme ou o roseiral virá diligente aquecer de ternura as águas sábias
e silentes onde Ofélia um dia apareceu le-va-da como um junco do canavial da existência…


publicado por deSaraComAmor • às 11:09 PM • categoria: poesia

:: Domingo, Maio 21, 2006

saudosismo

- proposta de sorriso

estranheza de me ver
campos afora
assim correr
mal irrompe a luz da aurora?

um ramalhete rubro de papoilas
que planto vivas
à entrada de um exílio

que frescas se ouviam as vozes das moçoilas
loiras divas
palpitando em meu auxílio

um tempo de inocência
tal cenário
doçura sem penitência
relicário
onde nem cabe sequer a impertinência
doce de um Cesário

mal sei hoje a quantas ando
e quando
mas em cada instante brando
em que a vida me comove

então
é verem-me a correr para lá a nove!

publicado por OrCa • às 05:30 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (5) •

:: Sexta-feira, Maio 19, 2006

Lucidez da Espera…

Cobre-me o corpo esta memória de cinza breve
Desfolhando sílabas fumegantes. Prenúncio talvez
Da noite sobre o outeiro. Céleres aves d´outrora
Em voo rasante infectadas de vagas profecias ...

O lago é esta flor perdida na foz de um seco rio
Excrescências letais correndo no interior da seiva
Que o manto da lágrima sufoca - a flor e o cio! –
Mandrágora festiva negando-se no vórtice da hora…

Enxutos os olhos é a inútil labareda que se agita
Desmaiada harpa que o canto álacre não requer
Espuma apenas na quebrada onda já sem brio…

Apenas esta ilusão sofrida na lucidez da espera
Corvos brancos pairando sobre o nada e o vento
Em monótona toada gemendo o bater do dia…

publicado por Romeiro • às 10:42 AM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (9) •

:: Domingo, Maio 14, 2006

rimas cavalheirescas

Soprou hoje leve brisa matinal de ensejo,
que me trouxe aqui a este areal extenso,
sedenta de te roubar um beijo.

Cavaleiro meu, porque esperas tu,
para cumprires com este meu
impuro desejo?

Afagar-te ou recolher um olhar teu,
será como tocar a imensidão dos céus
e queimar de sol as asas que me levam.

Bruxuleante chama eu sou e caio
na terra que viu meu sonho arder,
na lonjura em que te busco sem te ver.

Cavaleiro meu, porquê esperar
pela eternidade em nós infinda
para me estreitar de ti faminta?

Sede que trago e não é extinta, acende
em mim desejo azul de tardes
longorosas, envoltas em véu de tule.

Cavaleiro meu, de pérfida espada,
que esperas de mim nesta enseada
em que encalhou nossa barca?

Para sempre te deixo os meus sinais:
na torre em que se fecham os meus ais
te aceno em lenços brancos de cambraia.

E tu, Cavaleiro que passas, em tua
armadura baça, para cima me gritas um verso
e na minha clausura o recebo e agradeço.

Mas, Cavaleiro meu, porquê esperar
pela eternidade em nós infinda
para me estreitar de ti faminta?

publicado por deSaraComAmor • às 10:15 PM • categoria: poesia

:: Segunda-feira, Maio 01, 2006

do trabalho

Uma das componentes mais marcantes da natureza humana: a necessidade de agir sobre o meio ambiental e social, produzindo bens alimentares, bem-estar, saber, riqueza material, artística, científica, progresso. Trabalhar. Um direito, um dever, uma necessidade, um vício, um escape, um objectivo, uma benção, uma seca, um castigo mas, sobretudo, uma forma de estar e de ser.  Somos também aquilo que fazemos. Quem se sente realizado no seu, tem aí uma fonte de juventude e saúde mental. Quem se sente injustiçado no seu, quem se sente maltratado, quem se sente explorado, assediado, incompreendido, preterido, aniquilado, tem aí uma fonte de amargura que envenena o quotidiano. Por vezes, quem o tem, lamenta-o, quem o não tem busca-o.  Quem o procura desespera, quem o perde sente o maior vazio da sua existência.  Quem o deixa ficar rotineiro e vazio, definha. Quem se impõe metas e desafios rejuvenesce. Quem se entrega, morre. Quem não luta pela melhoria de condições no seu, dá força à forte corrente do poder.  Quem aprendeu a calar cedeu ao medo.  E cada vez mais o círculo se estreita à volta do trabalhador, neste pequeno Portugal como no mundo inteiro. Este é visto como uma força motriz, um compto, um dígito positivo ou negativo, um alvo a abater ou a promover, conforme o interesse do momento. Os imperativos do lucro, definem o destino do indivíduo, alteram-lhe os planos, a estabilidade, o génio, a vida familiar. A justificação do défice faz-se na plataforma laboral, sacrifica-se na condição laboral, traduz-se no arruinar de vidas, com a conivência e incentivo do Estado. Este é o árbitro silencioso das vidas anónimas. Agora cada vez mais, é o propulsor da instabilidade, porque cada mudança é uma medida economicista susceptível de arredondar as vidas, ao arredondar défices, provocados estes por quem não soube gerir a economia de um país.

Sou professora. Em meia dezena de decretos vi a minha família separada, o meu local de trabalho mudado, o horário de trabalho aumentado, os meus direitos adquiridos esmagados, o meu tempo limitado, o meu grupo de docência alterado, com mais quinhentas pessoas à minha frente para efeitos de concurso, a minha criatividade cerceada, a minha progressão na carreira congelada, a minha idade de reforma aumentada em mais de seis anos e a minha dignidade profissional posta em causa. Sei de quem não tenha sequer conseguido ainda um lugar nesta escalada, apesar de lhe ter sido proporcionada a formação adequada. Sei dos jovens deste país no fim de uma interminável listagem sem esperança. Sei das fábricas paradas, dos campos desertos e lamento. Lamento um país que não soube dimensionar a educação, a formação profissional, o investimento, a produção, e resolve agora moralizar cegamente aqueles que apenas pretendem exercer o seu direito ao trabalho.

Por isso hoje, penso em todos aqueles que foram esmagados pela roda desatenta do progresso, assim lhe chamam preversamente. E sem demagogia, sem pretensões moralistas, apetece-me saudar os que resistem, incutir esperança aos que esperam, animar os que sucumbem, desejar a todos a realização possível no trabalho, a felicidade única de fazer parte de um todo com uma tarefa a cumprir.

Bom dia do Trabalhador! 

publicado por deSaraComAmor • às 02:02 PM • categoria: poesia



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