recordemos as cores do paraíso
as luminosas dores
a rosa aberta nos sentidos
a volúpia da navegação cega dos cisnes
sigamos o astrolábio da vida
estas palavras adornadas
só dos anjos tão antigas
ou a rota azul das nuvens
que seguem distraídas
para a dissolução lenta
o único paraíso que alguma vez coube
na dimensão opaca de um poema
Dobram-se os dias
A memória é apenas gesso
E as breves frinchas
Nas cortinas rasgadas pelo vento…
E no entanto
Quedo-me suspenso
Desta hora
Nem de partida
Nem chegada…
Espera pura!…
O sangue balbucia o nome inacessível
Das coisas por arder
Bem sabendo
Que o coração rebenta
Nas impossíveis luas
E os pés
São apenas pó nos caminhos
Inalcançados…
E no entanto
Em todas as manhãs
Se soltam andorinhas
E primaveras
Como flores fortuitas
Recolhidas no orvalho
Suspenso
De meus dias…
entre as minhas duas mãos mal cabe o mundo
de futuro imperfeito
e mal amado
entre as minhas duas mãos
entre os meus braços
fica assim o presente que me enleia
enlaçado num passado
que deslaço
entre as minhas duas mãos mal cabe o tudo
daquele nada de que me faço
em palavras
entre as minhas duas mãos
o azul profundo
é um mar de palavras
inventadas
entre as minhas duas mãos cabe o presente
aquele outro de combate
e paliçadas
entre as minhas duas mãos
é mais urgente
pressentir de cada tempo
o inesperado
entre as minhas duas mão o amor ausente
há-de ser pelas minhas mãos sempre esperado.
Persiste o azul como se a boca
Fosse vulcão em transe de soltar-se
E o vermelho apenas indício
Ou ténue labareda em asas de cetim…
Sopram os olhos brasas também azuis
Como se a hora do voo fosse de espera
E a borboleta apenas o corpo da brisa
Que de tão suave se queima e queimando
Se arrisca no canto fugidio da chama....
Flores de lume nos traços do rosto
De azul vestidos como farrapos de céu
Que em dor se abrem e em desejo
Se cumprem sobre as plumas caprichosas
Do voo no esplendor dos dias…
E deste lado apenas o fio de ariane
E a seda de teus laços em que cativo
Me solto em teus abraços. E me comovo
No azul que bebo em coloridos beijos teus.
Talvez neste horizonte o breve fio de água
Despenhando-se na memória. Como esta fraga.
Ave planando sobre a presa e o repentino som
Da pedra. Granito ardendo no intimo silêncio.
Como pomos de fogo calcinados de azul ...
Debruço-me. Talvez a água agora seja apenas
Mãos no gesto de bebê-la. E a ave esta rapina.
Nem voo, nem pássaro sagaz. Ausência ainda.
Pura. Gavião e pomba desenhados no corpo
Do desejo. E meus olhos bêbedos de lonjura.
O vento que agora afasta a cinza é o mesmo
Embora. E a litania é eco no coro deslizante
De meus passos. Não a vereda palmilhada.
Nem as vestes. Ou o sangue seco nos espinhos.
Apenas rumor de fogo na palavra celebrada.
Descalço e de bordão como antigos monges
Colho a folha do carvalho. E enfeito os dias
Porta a porta caminheiro. E no portal de mim
Me acolho exausto. E mordo e rasgo. E clamo
Casa em que me guardo. Terra quanta vejo ...