poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Sábado, Janeiro 28, 2006

Ao Cair da Morte

era para ter sido de manhã
nas horas dos mercados ensonados
quando a cidade cospe os amantes
para o lustro obscuro das calçadas
estaria talvez o sol
quase a beijar a madrugada
mas foi de noite ao cair da morte
na hora iluminada da moderna urbe
sob o néon aqueles vultos apressados
unidos pela pele e pelos gestos
caminham resplandecentes como
iluminados filhos do deserto
com os olhares frescos de flores
parecem abraçar a eternidade
mas um corpo nunca mente
ao pulsar como uma estrela
no vazio de uma só noite
talvez nesse momento o mundo
se comprimisse em espasmos
e nós nos elevássemos
à condição de luz somente
mas o encontro viria a dar-se
nas arcadas da memória
como todos os regressos
adiados para sempre
nós que nunca partimos nem chegámos
somos agora o rio e a ponte
sem margem para ancorar
as naus frágeis do presente

publicado por deSaraComAmor • às 05:18 PM • categoria: poesia

:: Quinta-feira, Janeiro 26, 2006

Fustre enleio…

Cresce a aurora orvalhada tão escura
Por dentro de meus sonhos em tropel
E tu vens alada de branca formosura
Plantar-me archotes vivos sobre a pele…

Bálsamo de teus olhos sobre os meus
Febre do corpo meu em combustão
Ardem ventos nocturnos e nos céus
Alegria breve colhida em profusão…

Somos campos de luta e de campeio
Corte de beijos em delírio arrebatados
Maré crescendo erguida e de permeio

Barcos em riste de teus seios perfumados
Em meu rosto consentidos e algemados
Cativo de ti derramado em fustre enleio…

publicado por Romeiro • às 02:16 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (8) •

:: Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

àquela amante inventada…

... que percorre a intranquilidade de alguns sonhos, como se fosse dona de tudo. E, já agora, em soneto!

gosto tanto de te amar que tu mal sabes
nesse dengoso disfarce do que eu digo
gosto assim de ser eu amante-amigo
quando a fingir amor no meu peito cabes

por ser esta vida só um mar de entraves
por eu não poder tanto estar contigo
velarei por ti o quanto mais consigo
‘inda que ao de longe quanto tu nem sabes

e mal sobrevivo eu assim lembrando
partilhas de olhar ou de uma carência
neste desatino urgente em que eu ando

sem de ti saber suprir tal premência
no ardente desejo de ti mesmo quando
eu percorro a inquietação da tua ausência.

publicado por OrCa • às 12:38 AM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (8) •

:: Terça-feira, Janeiro 10, 2006

Tacteio teu olhar…

Tacteio teu olhar como se brisa fosse
No rosto inocente de todas palavras por dizer…

Seminais estas veredas em que me espraio
Como ondas ou inaudíveis sons do canto fossem
Tão certas que se esfumam em mistério
Como o decair da tarde no zénite do sol
Ou apenas no gosto acre depois da chuva…

Conforta-nos breve esta solicitude das palavras
Umas pelas outras como doirados reflexos
Alimentando-se das entranhas do vento
Sem outra glória que não seja a emoção alada
E o fio ténue de nós mesmos que as segura…

Habitamos as palavras e elas nos habitam
E nelas fecundamos o tempo e a vida…

publicado por Romeiro • às 12:27 PM • categoria: poesiaconta aqui a tua estória (21) •

:: Domingo, Janeiro 08, 2006

Pontes para as Estrelas

As crianças dormem
serenas em seus sonhos
A noite arrefece sem gritar;
abre-se algures um luar
transido de betão
e no silêncio crepitam luzes
de uma outra margem por alcançar.

Somos pontes
e o mundo abeira-se de nós pelos seus arcos,
nas cidades ou nos campos
somos frágeis como barcos

Esquece os gemidos do vento
hoje gelado
as brumas amortalhadas
os véus rasgados
a serra que destila os seus mistérios
que eu vivo na penumbra dos teus olhos
com as estrelas sonolentas
e as velhas oliveiras centenárias

Não partas ainda do tempo
em que a solidão se consome lentamente
inclina o coração para a noite e sente
como é profundo o olhar do universo
a grandeza das coisas que não vemos
e verás que a noite cresce
e as luzes das cidades perdem brilho
e a cidade ao pé das estrelas
desfalece

verás que eu suspendo
a nitidez de cada gesto antigo
guardo Pégasos e prantos
para voar entre as histórias
que invento e nunca conto
mas te mando nas crinas do vento
escritas por magia e em tropel
por um qualquer cavaleiro da esperança
feito em dobras de papel

verás que resistir é apenas
uma questão de levar o fogo do poema
ao ponto onde ruíram as pontes
e em vez das luzes do mundo
visar as estrelas como dantes

publicado por deSaraComAmor • às 11:16 AM • categoria: poesia



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