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[ Segunda-feira, Setembro 03, 2007 ]

a minha porta. a nossa porta.

© ricardo biquinha, setembro 2007
fotos e trabalho sobre fotografia de © ricardo biquinha

( onde estás martinha? )

      27

e dor; alegria e tristeza; vou expô-las com precisão e método - lei

        enunciando-as de uma maneira precisa, vou escrevendo em traço
        e rabisco-as, direitas para que as percebas sempre; nuas
        as escrevo e tento certas; palavra verta, versada em matemática
        e no fim, em fios esguios simplesmente assino em redonda forma

      28

        a minha casa nunca mais fora igual.
        a nossa casa.

        a minha porta. a nossa porta.

        quando a olhava de frente, agora sem ti, ou entrava por ela, ou a olhava fixamente, e pálido como ela, e polido também, percebia o que era o medo a sério. o medo da solidão, o medo de com ela me envolver. todos os dias. sentia uma fria agulha no braço. um gelo. o frio dessa porta, ou do que estava para lá dela. mas lá entrava, sempre. nesse vazio e velho apartamento, a cair aos bocados, em segredo alugado. era um prédio antigo, mesmo no centro cidade. era sempre um doloroso teste diário, rodar a maçaneta da porta, abrir a chaga. entrar, e não te encontrar.
        e o elevador nunca trabalhava.
        morava no 4º andar, o último andar, direito, assim o quis, onde acabavam as escadas, longas e agora intermináveis. e o elevador nunca lá chegava, nunca trabalhava, pelo menos quando mais precisava dele. agora já velho, de ranger antigo, não queria. nem se mexia.
        em frente da minha porta, morava uma igual. a porta do 4º esquerdo. habitado por uma figura sinistra, que fugia de abri-la. talvez o tenha visto duas ou três vezes, bem lá no interior. sinistro. bem lá dentro. diziam-no louco, e velho, e que tinha sido oficial combatente do ultramar. mas louco agora. ou sempre o fora. ou lá na guerra se fizera. e só. sem companhia, isoladamente e sem auxílio de outrem.
        eu via-me nele. via-nos a todos, nele.
        era um andar só, o meu e o dele. duas portas iguais. dois rostos iguais. onde morávamos os dois iguais. iguais na solidão. ele só, sem família, dizia-se. e agora, sem aquela que o acompanhara sempre além-mar, sua companheira e mulher. que morrera de doença sem cura. dizia-se.

      29

e a minha partira também.
partira sem doença, é certo.
        e o elevador, doente, que nunca trabalhava. sem ti não mais trabalhou.
e eu cá fiquei, doente.
sem ti.
sem o teu auxílio.
e agora que aos bocados caía. e nele tinha que entrar. sem ti.
e agora?

( © ricardo biquinha, in “um quase nada” - m,30 (27 a 29) )

à escuta: | ghetto pony - the delay ghetto pony - the delay | ghetto pony - there was an accident ghetto pony - there was an accident |

• publicado por um.quase.nada em 03/09 às 00:00 • permalink • interruptorComentar (5)


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