by Rodney Smith
“(…)
Até à data não existe uma única interpretação que te leve a dizer É isso mesmo! Ele conseguiu! Sabes porquê? Porque esta sonata é, em si própria, imperfeita. Robert Schumann, que conhecia bem as sonatas de Schubert, classificou-a de «divinamente longa». (…)
- Voltando à primeira pergunta – indago eu -, porque ouve as sonatas de Schubert? Sobretudo quando vai a conduzir?
- As sonatas de Schubert, especialmente esta, deixam de ser arte se te limitares a ouvi-las vezes sem conta. Como Schumann apontou, esta é demasiado longa e demasiado idílica, e, de um ponto de vista técnico, demasiado despretensiosa. Quando tocada de um modo convencional, torna-se desinteressante, insignificante e sem estilo, como uma antiguidade cheia de pó. E é por isso que todos os pianistas que a interpretam acrescentam qualquer coisa de si próprios, uma coisa nova. Como acontece com esta gravação – ouves como ele articula isto aqui? Acrescenta rubato, que é como quem diz, altera o tempo, a modulação, o que for. E quando isso não acontece, tocam quase sem fazer uma pausa. Mas, se não estiverem com atenção, todos esses estratagemas novos correm o risco de destruir a dignidade da peça. E nesse caso deixa de ser música de Schubert. Não há um pianista, sem excepção, que tenha interpretado esta Sonata em Ré Maior e que não se tenha debatido com estas contradições.
Oshima deixa-se ficar durante algum tempo a ouvir a música, a trautear baixinho a melodia. Depois prossegue.
- É por isso que eu gosto de ouvir Schubert quando viajo de carro. Precisamente pelo facto de a imperfeição por detrás de cada interpretação espreitar a cada curva. Essa profunda imperfeição artística estimula a nossa consciência, desperta os nossos sentidos. Se eu escutar uma interpretação absolutamente perfeita de uma peça absolutamente perfeita enquanto vou a conduzir, posso cair na tentação de fechar os olhos e querer morrer, ali mesmo. Mas ao escutar a Sonata em Ré Maior apercebo-me das limitações próprias da capacidade humana e torna-se claro para mim que, até certo ponto, a perfeição só pode ser atingida através de uma série de imperfeições. Além de que, pessoalmente, acho isso inspirador.
(…)
- As pessoas fartam-se depressa de tudo o que lhes provoca excitação mas não do que é monótono. É assim em tudo. No meu caso, posso dar-me ao luxo de ficar enfastiado, mas nunca corro o risco de me fartar de uma coisa. A maioria das pessoas não distingue entre uma coisa e outra.
(…)
Quando a «divinamente» longa sonata de Schubert chega ao fim, acaba-se a música. Permanecemos ambos em silêncio, cada um de nós perdido nos seus pensamentos.