baby lónia

[a poesia habita quem não tem morada]

:: Sábado, Agosto 19, 2006

O Peso das Palavras - I


Klimt

Alvião

A nossa casa ficava a meio da encosta. Na Primavera, pela tardinha, descíamos ao rio por um carreiro de pedras, entre estevas e vinhedos. Um dos cântaros iludia a sede da laranjeira; com a outra água, a minha mãe fazia a sopa, lavava a louça. A que sobejava era para nosso asseio. Ao cair da noite, eu e a minha mãe sentávamo-nos na soleira da porta a colher o cheiro doce da laranjeira. Eu sei, vai duvidar da minha história. Mas todos nós tivemos uma infância: a minha adormeceu nessa casa térrea a olhar um rio. O avô, pouco interessa o nome, o meu avô plantou a laranjeira em frente da casa, na terra de xisto, como se quisesse afrontar a Natureza. Venceu. Mas vezes sem conta rumou ao rio, quando o Verão seca as fontes. Eu e a minha mãe recebemos e tratámos, zelosas, a herança. Desconheço se a casa resiste, terá telhado, a porta. Qualquer dia, meto-me no comboio e afugento a dúvida. Uma coisa é certa: não vendi a casa. Se o tempo a diluiu na paisagem, força não teve, nunca terá, para engolir o chão. Um pedaço acanhado de terra, afinal tudo o que me resta. Por que me olha? O meu corpo… Sim, meto-me no comboio e regresso a casa, à memória da casa. Nada terei a temer, ninguém me conhece: a aldeia ficava tão distante como o rio, ou mais longe. E as pessoas da minha criação, como eu, também fugiram; aos velhos da terra, no devagar secreto, bebeu os olhos. Talvez a laranjeira desobedeça à morte. No fim de abrir a cova, a golpes de alvião, sabe o que é um alvião?, na terra de pedra solta, o meu avô chamou a filha. Em tom de prece, disse: «S. Frutuoso bote o fruto». E S. Frutuoso, pelo menos enquanto vivi na casa, foi benigno, como parecem ser todos os santos de devoção dos homens laboriosos. Meto-me no comboio… Por que não olha para mim? Se quiser de verdade conhecer a história, observe o meu corpo. Muitos homens o percorreram. Homens a tresandar a álcool, suor; homens perfumados. Bruscos, homens silenciosos como choupos, um ou outro tocado de delicadeza. Por todos reparti amargura, a todos emprestei felicidade. Não. Peço-lhe, pare. Felicidade é palavra tresmalhada na minha história!
Enquanto recua a fita, falo da tristeza dos choupos. Enfim, é tontice… Se me via triste, o avô dizia que eu parecia um choupo. O meu avô amava deveras as árvores… Expulsou a felicidade? Quando o meu avô me comparava à tristeza dos choupos, ficava furiosa, os meus olhos lampejavam como as pedras que o alvião esmiola a rasgar o monte. Sabe o que é um alvião? Para entrar na minha vida, precisa de saber o que é um alvião. Alvião, alvião… conhece, diga-me, conhece outra palavra leve e tão veloz? Eleva-se no ar como libelinha e logo se precipita como cutelo. Você não acredita mesmo. A mulher da minha rês vedado está o ofício de sopesar a Língua. Todo o meu vocabulário, terá você imaginado, cabe no reverso de um bilhete de comboio. Engana-se. De herança, o avô deixou-me ainda um livro: nunca o abri, mas, se assim o desejar, posso contar-lhe o enredo. Nas tardes de Primavera, degustava em voz alta, sentado na soleira, essa história de paixão. Quem ouve palavras envoltas no aroma de laranjeira florida jamais as esquece. Lhaneza, sabe o significado de lhaneza? A palavra irrompe nas primeiras páginas do livro; quando a escutei, pedi ao avô para parar. E perguntei-lhe o que queria dizer essa palavra que nos obriga por momentos a colar a língua ao céu da boca. O meu avô… Acabou a fita? Não há problema, eu não me esqueço do que ia dizer…
Posso?
O meu avô não soube explicar, e pareceu-me ter ficado ofendido com ele próprio. Nunca mais lhe interrompi a leitura… Por que quer você gravar a minha história? Numa tarde de Verão, desci sozinha pelo carreiro, que cruzava estevas e vinhedos: a laranjeira clamava por água. Um homem meteu a mão ao bolso, mostrou-me moedas. Deixei-o com o brilho na concha da mão, segui caminho. No rio, demorei mais do que o costume, talvez a espera o afugentasse. Devagar subi a encosta, cântaro de barro na cabeça, você não é do tempo dos cântaros de barro, e o desassossego, conhece palavra mais sinuosa?, e o desassossego desvanecia à medida que a vinha escorria. Já via as estevas, mirradas, refúgio de perdizes e víboras… mãos de silêncio e lume apertaram-me os seios. Ao contrário das víboras, atacou-me por detrás, à falsa fé como dizia o meu avô, e eu tinha as mãos a aparar o cântaro. Com o homem grudado a mim, fui descendo a vasilha, e ele, sem me soltar, permitiu que me curvasse e a poisasse. A mão esquerda largou o seio, este, este!… por que não me olha?, e tapou-me a boca, mas um grito havia golpeado a brandura da tarde. Valerá a pena, a dor, contar o resto? O alvião, fica a saber o que é um alvião, no ar, gume de ferrugem, depois da morte do avô ninguém lhe deu uso, e logo a descida fatal.
Um dia meto-me no comboio. Compro uma tesoura de poda, corto os galhos mortos da laranjeira. Desço ao rio, desta vez sem o cântaro, sem o homem a espiar-me da vinha… O fotógrafo? Pois, amanhã, já me tinha dito. Avise-o: quero a fotografia assim. Não me acha bonita! Olhe as minhas pernas, a mão no sexo… O corpo. A minha história. Desligue o gravador, desligue: deite-se a meu lado, como um tímido amante. E serei a menina, cântaro à cabeça, por entre os vinhedos. Poise as mãos de silêncio e lume nos meus seios. Não tenha medo - alvião é uma palavra perdida.

Francisco Duarte Mangas in PUTAS - Novo Conto Português e Brasileiro, 1ª Edição, Quasi Edições, 2002 (pp.37-41)

Publicado por mjm • às 05:18 PM • Categoria: Divulgação blábláblá (2) •



Página 1 de 1 Páginas