baby lónia

[a poesia habita quem não tem morada]

:: Quarta-feira, Setembro 06, 2006

O Peso das Palavras - II


Klimt

O amor fica para os pobres

Perguntei a cerca de 40 dos meus alunos qual das palavras preferiam para designar o acto sexual: fornicar ou foder. Foram unânimes em considerar foder preferível a fornicar. Um deles chegou mesmo a acrescentar: «Fornicar é porco. Os porcos é que fornicam.» Cobri a afirmação explicando-lhe que, por muito que lhe custasse aceitar, cabe aos homens fornicar e aos porcos cobrir. Com o tempo, certas palavras adquirem efeitos que não tinham; outras, devido à sua banalização, perdem o efeito que tiveram. Porque completamente banalizado, o termo foder perdeu parte do seu significado quando aplicado em literatura. Motherfucker para aqui, fuck you para acolá, são poucos os filmes e as canções “comerciais” que não botem um fuck lá pelo meio. E que dizer do “humor à portuguesa”? A dificuldade reside precisamente no facto de o termo foder, bem mais aprazível que fornicar, estar de tal forma esvaziado de conteúdo imagético que cheira a mofo. Veja-se como após o sucesso de «O amor é fodido» não há pimba literário, ou escritor light, que não meta umas fodidelas no curso da narrativa. Agora a moda parecem ser as enrabadelas, talvez por parecer mais chocante a quem não tem mundo. Hoje, foder é mais do domínio de lixar a cabeça a alguém. «Estou fodido» significa «estou lixado». Ou, quando muito, o mais facilmente incongruente «foram-me ao cu». Ao contrário, fornicar é pinocar porco e feio. E já repararam como a expressão «fazer amor» se tornou tão… anacrónica? Ou como «fazer sexo» remete para uma espécie de actividade fabril? Sendo assim, eu diria que o artesão faz sexo, o homem vulgar fode e as putas fornicam. O amor fica para os pobres.

HMBF, in Insónia

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[# I]

Publicado por mjm • às 12:45 PM • Categoria: Divulgação blábláblá (1) •



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