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Houve aquela altura em que tive
que o nomear. Não bastavam os sinais do corpo parado
do olhar a vogar longe de cada palavra proferida. A tua mão estendida mostrava o teu coração despido e sentia frio por ti
que beijo algum guardava na paridade dos teus.
Antigamente tínhamos que marcar com lacinhos de cor diferente cada gesto nosso para distinguirmos meu e teu.
antigamente. digo.antigamente. Por ser tão distante de ontem que nem eu nem tu parecemos personagens de história nossa. E se agora me detenho a retro-ver é para me certificar de deixar tudo bem arrumado:
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dois corações de plástico que se autocolavam a um canto do celofane de um ramo de flores por altura de um aniversário;
uma tira de photomatons que tirámos naquela máquina do outro lado da rua do arquivo de identificação quando fomos actualizar os BIs;
uma caixa de madeira que embalou um conjunto multicolor de copos de shot que algum dos convidados nos ofereceu onde continuo a guardar as fotografias do evento sócio-nupcial. sim. ainda por organizar;
os bilhetes do Béjart no coliseu em que eu não parei de chorar. recordo os olhares dos parceiros de camarote e as minhas lágrimas que caíam incessantemente. completamente despudoradas. o silêncio em que te mantiveste. respeitoso. julgando saber que emoções me moviam. equivocado na cumplicidade;
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arrumos parcelados. sem umbigos. sem mundo exclusivo. sem eternidades de para-o-bem e para-o-mal.
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Houve aquela altura em que tive
que o nomear. Dei-lhe o nome de fim. Como se dito passasse a ser real. E resultou.
ainda nos dávamos as mãos na rua. em casa. no cinema. nas exposições. jantávamos nos nossos restaurantes e escolhíamos os mesmos pratos.
mas éramos apêndices sem qualquer nexo funcional.
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Hoje renomeio-o. Dou-lhe o nome
de cancro. Há metástases de mãos dadas às lágrimas do Béjart
BIs multicoloridos de algum aniversário
tiras de corações de plástico
photomatons de flores numa caixa de madeira
o teu silêncio do outro lado da rua
completamente equivocado
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[Maurice Béjart - Queen . Mozart - Ballet for Live]