by Rodney Smith
(...)
aqui pensámos nos dar as mãos e os abraços
aqui nos falámos das pequenas tristezas e olha aquela é a cor exacta dos teus olhos. quem nos parte habita depois os lugares
longe longe
em que a memória concebe outras histórias e os nomes se instalam em nós
devagarzinho e muito devagarinho nos enxugamos de tanta água
Blimunda
E eu, que tanto falo,
quando te falo acabo por te dizer tão pouco!…
Sempre uma prestação em atraso,
entrecalada, entrecortada, entretelada a prumo naquilo que uma-rapariga-tem-que-ser…
Não sejas assim, rapariga! Uma menina há-de um dia ser senhora, e uma senhora há-de ser feminina!
Há-de ser feminina. Há-de ser feminina.
Se tivesse acatado o ensinamento só bordava agora raminhos miosótis em tons pastel no teu lençol de sonho. Não saberias nadinha das minhas pernas entrelaçadas no monograma da almofada; só o que uma-rapariga-tem-que-ser a estragar-te a imaginação.
Visto-me em alma e ninguém me reconhece.
Falo pelo peito,
falo, falo, mas quando é a ti que falo acabo por te dizer tão pouco!…
Deve ser deste meu corpo enroscado nas palavras, miosótis, ponto pé de flor de amor, nada que uma-rapariga-tem-que-ser possa na outra entender.
Há-de ser feminina. Há-de ser feminina.
Trago doridas, pesadas, as pernas de tão enroscadas.
Imagino almofadas. Imagino almofadas.
Ler-te é embebedar-me de pólen, Bli!
Ubíqua
a tua palavra
quando se cola às minhas papilas.
Trouxe-te
; vesti-me de ti
para me despir.