baby lónia

[a poesia habita quem não tem morada]

:: Sábado, Abril 22, 2006

Da «transposição real»


infinite parallelism by rudolfo elias

“[...]
Os estudos humanos não lidam com factos e fenómenos que silenciam o homem mas com factos e fenómenos que apenas são significativos pela luz que trazem aos processos internos do homem, à sua «experiência interna». A metodologia apropriada aos objectos naturais não é adequada à compreensão dos fenómenos humanos, excepto no estatuto que estes têm enquanto objectos naturais. Contudo, os estudos humanísticos dão validade a algo que não é válido nas ciências humanas - a possibilidade de compreender a experiência interna de alguém através do processo misterioso de uma transferência mental. Diz Dilthey: «Exactamente porque pode ocorrer uma transposição real (quando um homem compreende outro homem), porque a afinidade e a universalidade do pensamento ... podem representar e formar um mundo socio-histórico, os factos internos e os processos humanos podem distinguir-se dos dos animais. Devido a esta «transposição real» que pode dar-se nos objectos que incorporam a experiência interna, o homem pode alcançar um grau e uma profundidade de compreensão, impossíveis relativamente a qualquer outro tipo de objectos. É óbvio que uma transposição deste tipo apenas ocorre porque há uma semelhança entre os factos da nossa experiência mental e os que se passam com outra pessoa. Este fenómeno traz consigo a possibilidade de encontrar noutra pessoa os abismos mais fundos da nossa própria experiência; desse encontro pode advir a descoberto de um mundo íntimo mais pleno.
Dirthey, seguindo Schleiermacher, vê esta transposição como reconstrução e uma experiência renovada do mundo experiencial íntimo de outra pessoa. Contudo, o interesse não está na outra pessoa, mas no próprio mundo, um mundo visto como um mundo «socio-histórico»; é o mundo dos imperativos morais internos, uma comunidade partilhada de sentimentos e reacções, uma experiência comum de beleza. Estamos aptos a penetrar neste mundo interno dos homens, não por meio da introspecção mas da interpretação, da compreensão das expressões da vida; isto é, através da decifração das marcas que o homem imprime aos fenómenos.
[...]”

Palmer, Richard E., Hermeneutics - Interpretation , Theory in Schleiermacher, Dilthey, Heidegger and Gadamer, Northwestern University Press, 1969, trad. Maria Luísa Ribeiro Ferreira, HERMENÊUTICA, Edições 70, (pp. 110-111)


Publicado por mjm • às 11:26 PM • Categoria: Divulgação blábláblá (3) •



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