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:: Quinta-feira, Abril 16, 2009

a gente é só gente só

| (…) Mas tudo o que um dia talvez venha a ser possível para muitos pode ser já preparado pelo solitário e construído com as suas próprias mãos, que erram menos. Por isso, caro Senhor, deverá amar a sua solidão e carregar o sofrimento que a acompanha com lamentos melodiosos. Pois aqueles que são próximos estão distantes, como me diz, e isso mostra que a sua solidão começa a estender-se. E se o próximo parece distante é porque a sua solidão toca já nas estrelas e é desmedida. Alegre-se com o seu crescimento, que não poderá ser assistido por ninguém, e seja benevolente para com aqueles que ficam para trás, e mostre-se firme e tranquilo diante deles e não os atormente com as suas dúvidas e não os assuste com a sua esperança ou a sua alegria, que eles não podem compreender. (…) |

Rainer Maria Rilke, in CARTAS A UM JOVEM POETA, Quasi Edições, 1ª ed., Agosto 2008, pp. 38-39



quando um dia entrar na cama
pelo lado onde não há gente
nem memória
nem desejo de gente com memória
talvez durma inocente
como gente
que não ama

podia até ficar acordada
anichada e enrolada no grande silêncio de quem
se habita só
porque quando se entra pela noite
acompanhada
o corpo dói e lateja e incomoda e desatina e
distrai a gente que é só gente só

quem ama dorme sem dormir
entra na cama errada
e com a vontade enganada
sobretudo
desacompanhada de tanta tanta gente só

os ossos do amor nada sabem de ossos
e o amor sem ossos sem gente nem sente
que a gente é só gente só
a querer dormir


( Eleanor Rigby )

Publicado por mjm • às 01:12 AM • Categoria: Poesiablábláblá (24) •

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