baby lónia

[a poesia habita quem não tem morada]

:: Sábado, Setembro 09, 2006

As estações do ano

Num dia que seja de Verão, espera-se calor. É justo. Noutro, de Inverno, frio. Talvez chuva; poucas horas de luz, pelo menos. Assim, sincopadamente arrumadas, as estações não reservam surpresas. Na escola, encarrapitam-se na memória numa sequência nada inocente: percorrem o ciclo da Vida. Ninguém ousaria memorizá-las aleatoriamente sem ter decorado a lenga-lenga obrigatória!
- Tu, aí, Diogo, queres dizer-nos quantas são as estações do ano?
- São quatro, senhora professora.
- E quais são elas?
- Verão, Outono, Primavera e Inverno.
Incontidos, todos largaram à gargalhada. A professora, hesitante entre achar que o Diogo a desafiava ou que simplesmente lhe respondia sincero, fixou o olhar no aluno à espreita de um sorriso que lhe escapasse, enquanto a turma inteira se calou expectante pelo momento seguinte. Diogo insistiu, num tom a descambar para o inseguro:
- Verão, Primavera, Inverno e Outono… Não são, senhora professora? - As faces coravam contra a sua vontade, enquanto se sentia alvo de muitos pares de olhos e ouvidos, sobretudo por não conseguir detectar no rosto da professora um único músculo que lhe fornecesse qualquer pista. Ao fim do que lhe pareceu uma eternidade, lá veio a explicação:
- Está certo, sim. São, de facto essas, as quatro estações do ano. Porém, consegues dizê-las pela ordem em que se sudecem?
Diogo hesitou uns escassos segundos e enumerou:
- Sim senhora professora: Inverno, Primavera, Verão e Outono. - E sorriu, triunfante.
A turma, não tão explosiva quanto da primeira vez, reagiu num burburinho surdo, salpicado por alguns risinhos agudos, assexuadamente infantis.
- Explica-me, e aos teus colegas, por que assim consideras que seja a ordem das estações?
- É simples, senhora professora - voltara-lhe a segurança; explicar a sua lógica, quando lho pediam, era sentir reduzir-se o peso da loucura que lhe atribuíam - o Inverno é o princípio de tudo. É quando a cor está debaixo da terra a renovar-se, mas em cima não se vê. Quando não se vê a cor é porque os olhos não conseguem ver debaixo da terra, mas ela está lá. Os nossos olhos não vêem no Inverno. Por isso, quando for grande, quero ser poeta.

Publicado por mjm • às 01:17 AM • Categoria: Prosa blábláblá (1) •



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