Num dia que seja de Verão, espera-se calor. É justo. Noutro, de Inverno, frio. Talvez chuva; poucas horas de luz, pelo menos. Assim, sincopadamente arrumadas, as estações não reservam surpresas. Na escola, encarrapitam-se na memória numa sequência nada inocente: percorrem o ciclo da Vida. Ninguém ousaria memorizá-las aleatoriamente sem ter decorado a lenga-lenga obrigatória!
- Tu, aí, Diogo, queres dizer-nos quantas são as estações do ano?
- São quatro, senhora professora.
- E quais são elas?
- Verão, Outono, Primavera e Inverno.
Incontidos, todos largaram à gargalhada. A professora, hesitante entre achar que o Diogo a desafiava ou que simplesmente lhe respondia sincero, fixou o olhar no aluno à espreita de um sorriso que lhe escapasse, enquanto a turma inteira se calou expectante pelo momento seguinte. Diogo insistiu, num tom a descambar para o inseguro:
- Verão, Primavera, Inverno e Outono… Não são, senhora professora? - As faces coravam contra a sua vontade, enquanto se sentia alvo de muitos pares de olhos e ouvidos, sobretudo por não conseguir detectar no rosto da professora um único músculo que lhe fornecesse qualquer pista. Ao fim do que lhe pareceu uma eternidade, lá veio a explicação:
- Está certo, sim. São, de facto essas, as quatro estações do ano. Porém, consegues dizê-las pela ordem em que se sudecem?
Diogo hesitou uns escassos segundos e enumerou:
- Sim senhora professora: Inverno, Primavera, Verão e Outono. - E sorriu, triunfante.
A turma, não tão explosiva quanto da primeira vez, reagiu num burburinho surdo, salpicado por alguns risinhos agudos, assexuadamente infantis.
- Explica-me, e aos teus colegas, por que assim consideras que seja a ordem das estações?
- É simples, senhora professora - voltara-lhe a segurança; explicar a sua lógica, quando lho pediam, era sentir reduzir-se o peso da loucura que lhe atribuíam - o Inverno é o princípio de tudo. É quando a cor está debaixo da terra a renovar-se, mas em cima não se vê. Quando não se vê a cor é porque os olhos não conseguem ver debaixo da terra, mas ela está lá. Os nossos olhos não vêem no Inverno. Por isso, quando for grande, quero ser poeta.