baby lónia

[a poesia habita quem não tem morada]

:: Segunda-feira, Agosto 14, 2006

A polpa e a fibra

| E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. | Vinícius de Moraes

Também adentrei pelos livros. Peguei nessas literaturas com mãos de içar candeias.
Também me vi neles escrita ou tive a vontade de me confundir nos enredos. - Acho que nunca o escritor suspeitou; nem pelos sinuosos sublinhados que atestam ter estado parada repetindo a leitura de pedaços sumarentos, o real-polpa que então me alimentou.
Também me reinventei, descobrindo-me. Não naquela monocultura que gira em torno das coisas dos sentimentos amestrados, mas nas outras, as bravias, que afinal crescem em nós e que nos permitimos quando as confirmamos na narrativa alheia. - Tão estranho, isso! O reconhecimento… A nossa realidade submersa trazida à tona por alguém que nem nos conhece, que irrompe do nada com a maior naturalidade, para nos provar que aquilo que escondemos por vergonha, ou que não sabemos nomear, existe e é afinal serenamente mortal…
Também me desflorou a descoberta, os passos dados sem saber caminhar, os que levam a labirintos indecifráveis mas que não nos deixam descontinuar. - A clareira!? A clareira!? Tenho que chegar à clareira!…

Adentrei algumas almas, como quem adentra livros. Mas aí fui quem se entreteceu com os enredos. - Sugada a polpa, sumarenta polpa, sobra a fibra emaranhada dos fios com que escrevo. - Escalo a escarpa da palavra; é ainda a clareira que procuro. Até não restar mais nada.

Publicado por mjm • às 01:35 AM • Categoria: Prosa blábláblá (4) •



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