Looking at the Corner, Tate Modern, London, 2007 by MATTHEW PILLSBURY
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| A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado.
E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade.
O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro.
Manufacturamos realidades. |
Fernando Pessoa in ‘Livro do Desassossego’
________ incartografável ________
[
(o homem)
saiu de si
( ~ abandonando-se ~ )
a nenhum sítio pertence
lugar algum o reclama
( \ avulsamente polinizado )
]
até que o sal
( ~ das lágrimas ~ )
a seque
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Converging Territories #43, 2003 by Lalla Essaydi
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diz-se que escrevo
para poder pensar mas
o que penso escrever escreve apenas
sem que diga o que penso e
o pensamento a descrever se faz
diz-se que digo da escrita
para poder dizer mas penso que escrevo apenas
sem que diga o que escrevo e
o pensamento ao dizer desfaz
se alguma coisa me prende
desprende-se o pensamento nela
e a escrita vai atrás dele sem nela mais se apegar
por isso escrevo por ela
por isso largo atrás dela pensamento escrita à vela
para dizer que se escrevo é apenas para pensar
diz-se que escrevo e não digo
penso o que escrevo e prossigo
se penso que o consigo duvido e volto ao mesmo lugar
nenhum pensamento é abrigo se a meta é escrever sem pensar
digo que escrevo e não penso
que a cada novo começo ela me foge ao pensar
escrever é mero pretexto de fazer de cada texto
um pensamento um lugar
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windwriting by Robert and Shana ParkeHarrison
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Não há objecto que fale por mim
Em contrapartida
sou objecto da minha fala
Adorno o espaço que o meu silêncio sempre ocupa
Na decadência da luz
qualquer sombra nos absorve
by Josh Sommers
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| os que produzem obras geniais não são aqueles que vivem no meio mais delicado (…) pois o génio consiste no poder reflector e não na qualidade intrínseca do espaço reflectido | Marcel Proust
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Depois de decifrado
o labirinto
enrolei metros de recta
para descobrir que
deliciosos
eram os ângulos!…
Então
divertida
como criança
que seriamente brinca
devolvi-a à sua real importância
: reintegrei-a
num labirinto
. E repousei
a contemplar a obra reparada.
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The Eastern Garden (1980) by Olivia Parker
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nenhuma urgência no mundo
depende de
um poema
nenhuma urgência no mundo
é já por si
um poema
| Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma - variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca - que pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver, um pouco de lugar ao sol e ao ar e ao menos o sonho de que há paz do lado de lá dos montes. |
Fernando Pessoa, in ‘Livro do Desassossego’
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Houve aquela altura em que tive
que o nomear. Não bastavam os sinais do corpo parado
do olhar a vogar longe de cada palavra proferida. A tua mão estendida mostrava o teu coração despido e sentia frio por ti
que beijo algum guardava na paridade dos teus.
Antigamente tínhamos que marcar com lacinhos de cor diferente cada gesto nosso para distinguirmos meu e teu.
antigamente. digo.antigamente. Por ser tão distante de ontem que nem eu nem tu parecemos personagens de história nossa. E se agora me detenho a retro-ver é para me certificar de deixar tudo bem arrumado:
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dois corações de plástico que se autocolavam a um canto do celofane de um ramo de flores por altura de um aniversário;
uma tira de photomatons que tirámos naquela máquina do outro lado da rua do arquivo de identificação quando fomos actualizar os BIs;
uma caixa de madeira que embalou um conjunto multicolor de copos de shot que algum dos convidados nos ofereceu onde continuo a guardar as fotografias do evento sócio-nupcial. sim. ainda por organizar;
os bilhetes do Béjart no coliseu em que eu não parei de chorar. recordo os olhares dos parceiros de camarote e as minhas lágrimas que caíam incessantemente. completamente despudoradas. o silêncio em que te mantiveste. respeitoso. julgando saber que emoções me moviam. equivocado na cumplicidade;
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arrumos parcelados. sem umbigos. sem mundo exclusivo. sem eternidades de para-o-bem e para-o-mal.
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Houve aquela altura em que tive
que o nomear. Dei-lhe o nome de fim. Como se dito passasse a ser real. E resultou.
ainda nos dávamos as mãos na rua. em casa. no cinema. nas exposições. jantávamos nos nossos restaurantes e escolhíamos os mesmos pratos.
mas éramos apêndices sem qualquer nexo funcional.
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Hoje renomeio-o. Dou-lhe o nome
de cancro. Há metástases de mãos dadas às lágrimas do Béjart
BIs multicoloridos de algum aniversário
tiras de corações de plástico
photomatons de flores numa caixa de madeira
o teu silêncio do outro lado da rua
completamente equivocado
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[Maurice Béjart - Queen . Mozart - Ballet for Live]
light veil by r.e.
| Todos os desejos são contraditórios (...)
Infelizes os seres a quem o cansaço subtrai esta energia suplementar que é a fonte do desejo.
Infeliz, também, aquele a quem o desejo cega.
É preciso arrastar o desejo até ao eixo dos pólos. |
Simone Weil, in ‘A Gravidade e a Graça’
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experimento a barbárie
de um desejo suave
há nele uma superioridade
de dedos supérfluos
se a escrita desliza fica por conta própria
qual líquido escorrendo
a desaguar na memória dos dias
no mais
é sempre a morte a repetir-se
a incendiar as cinzas
ao espólio do pensamento
by Olivia Parker
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| Senta-te diante da folha de papel e escreve. Escrever o quê? Não perguntes. Os crentes têm as suas horas de orar, mesmo não estando inclinados para isso. (…)
Como é que outros escrevem em agnosticismo da sensibilidade? Decerto eles o fazem sendo crentes como os crentes pelo acto extremo de o manifestarem. Eles captarão assim o poder da transfiguração e do incognoscível na execução fria do acto em que isso deveria ser. Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante. |
Vergílio Ferreira, in ‘Pensar’
Pode falar-se de amor emprestado, sem que se perceba. Quem o dita fá-lo seu
porque a posse do comum difere em género, número, tempo ou lugar,
mas não em esquema.
O amor emprestado pode ser um seu. Mas não necessariamente.
Com a dor sucede o mesmo. Intensidade e espectro,
lágrima, grito ou silêncio, não a alteram na sua essência.
A dor emprestada pode ser uma sua. Mas não é fundamental que o seja.
Pode ser-se humano de empréstimo num palco
de códigos perceptíveis. Há sempre algum traço que se partilha
suficientemente credível que reflecte
a imagem de uma imagem, onde alguém se reconhece.
Pode ser-se humano como si mesmo. Mas a imagem reflectida
não tem que ser a sua.
O que é comum usa a linguagem comum
para que nada se perca. Para que muito se entenda.
O sentimento pede partilha. Não se satisfaz de memória.
Já, não sentir, é isolamento. Uma espécie de quarentena dos sentidos.
Envolver várias emoções ao mesmo tempo, é possível. Até humano.
Desumano seria revivê-las no simultâneo em que
a incapacidade não suportaria.
Porque, pode falar-se de amor emprestado, de dor emprestada,
mas nenhum humano se empresta o incomum sobre-humano.
Assim, a solidão prevalece sobre um texto intimista, ainda que o narrador
transforme em cúmplice o seu leitor.
Tão certo como a escrita ser um acto solitário; uma não-vida.
Ou como serem as palavras veículos, tão importantes no transporte
do pensamento quão inaptas quando falhas na sua representação.
Escrever não é viver; é reflectir a vida.
Uma frase pode ser uma prece. Uma metáfora, um enigma.
Um poema, uma oração.
coloured pearls by r.e.
| toda a beleza conjugada no passado
dói. é de lei. por isso é que
todos os poemas felizes mentem |
pedro jordão
Não estavam já ali. Talvez
a ausência
os tivesse chamado para outros lugares
para outros pomares. Talvez
a memória
essa arrecadação de polpas
do paraíso
os tenha atraído à maçã primordial.
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by Brad Holland
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| O texto é a única forma de identificar o sexo e a humanidade de alguém porque, ó poeta estranho, o sexo de alguém, é a sua narrativa. A sua, ou a que o texto conta, no seu lugar. Assim o sexo será como for o lugar do texto.
Quando se deseja alguém, como tu desejas Infausta, e ela deseja Johann, é o
seu lugar cénico que se deseja,
os gestos do texto que descreve no espaço
e chamar-lhe
precioso companheiro;
de mim, direi que fui uma vez enviado,
trouxeste a frase que nunca antes leras,
o meu corpo a disse, e não reparaste que ficaste com ela escrita. |
( Lisboaleipzig 2) Maria Gabriela Llansol
Não. Não me vejas só
por mim. Nem só. De mim
um crânio sobrará. E ossos. Como
os que quando escrevo
vou quebrando. O crânio
por duro
inteiro se observará
não tanto quanto só quebrando
o escrevo. Não. Nem só.
Deste ser que escreve nem um só
osso eu conheço. Mas sinto-lhe a carne
e quebro-me quando
a cada frase escrita
se solta um osso. O crânio
me dita ao doer nele a ossada
de cada palavra mais ousada.
No mais
estou só. Em mim sem corpo.
Na escrita entrecruzada.
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desert rose by Ofelia Pagani
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| ... É compreensível que um engenheiro se entregue à sua especialidade, em vez de se perder na liberdade e na vastidão do mundo; pois ninguém lhe pede que transfira a ousadia e a novidade da alma da sua técnica para a sua alma privada, tal como não se espera de uma máquina que aplique a si própria o cálculo infinitesimal sobre o qual se baseia. |
in O Homem Sem Qualidades, Robert Musil, pp. 71
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Se categorizasse
cada único gesto teu
como te arrumaria?
Em inúmeras ordenações
sendo que a nenhuma pertencerias.
Ainda que me detenha
meticulosa
olhando uma única rosa
- escolho e recorro ao que o socorro
pertence a rosa - de entre as rosas
esqueceria a que é bravia.
Por isso esquece - deter-me-ei por algo em ão
como emoção ou até razão até esgotar o coração
de fantasia.
Sem argumento
esqueço o momento em que elegia
escolher falar-te. Pois
nada entendes de gente livre
nem de poesia.
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há uma fiada de muros ao longo da minha rua
por onde os gatos caminham. de vez em quando
um hiato de portão. uma sebe
bem cortada espigada por flores teimosas.
um som de porta de carro
bate no silêncio e distrai-me os cotovelos
do parapeito da janela. o moderador da minha atenção
segue a fiada de muros ao longo da minha rua
e integra o hiato de um portão. um som de porta de casa
ecoa a batida anterior no silêncio e distrai-me dos cotovelos.
há uma fiada de parapeitos ao longo da minha sebe
bem cortada de gatos que caminham por flores teimosas.
a minha rua é uma janela espigada por onde
caminham os meus pensamentos porque
há um lar de vez em quando onde os gatos se detêm.
photos by Giacomo Costa
finalmente
tenho por profissão descrever
nada de importante. a vida suave e redonda
que nada altera e ninguém que agite
a quietude das horas certas.
a importância é morosa de artifícios árduos
sempre exigente por provas expiradas. compleição enxuta que
rescende a colónias como se por deuses
o labor sudasse. não. desta vez
há homens dentro desta história.
homens pequeninos da estatura de homens. de estrutura
mansa sem longas palavras. pensares em forma de
bifes no prato e prantos bravios com lágrimas e socos.
a mole anónima presta-se a enlaces
pois simples, folclóricos, do real fadado, têm
complexos minúsculos com anexos ralos.
nos sonhos pululam crianças que berram
brigas com fadigas de pais separados. esp’rança em medalhinha
em fio fino dourado faz pendant com as pérolas
no anel de noivado. o dia é uma rota ainda que enfadonho
e o clima suporta queixa e desconsolo.
não. nesta história houve homens de perfil bem sério. mais alma que corpo
que o coração é que manda. sabe-se lá se choram
sabe-se lá porque amam. quem faz perguntas
vive pouco o plano e se se explica há por certo engano.
finalmente
integram o que é importante. transpiram
subúrbio. obedecem a um amo.
photos by Lois Greenfield
a atenção
para a frente se redige - o pescoço hirto -
nenhum fascínio
a redirige. a lua - um disco plano - imóvel
poalha de poemas - sobra
há uma hérnia nos dedos
há uma catarata na íris
há um homem a mais - que soçobra -
e um prisma invertido
divertido com antigos medos
by M. C. Escher
| Não podemos mesmo deixar de nos surpreender ao ver a tranquilidade, a resignação e mesmo o secreto alívio com que os humanos concordaram com o seu próprio desaparecimento.
Rompemos o laço filial que nos ligava à humanidade e passámos a viver. Para que toda a gente possa ver, vivemos felizes. O que era inultrapassável para os homens, as forças negativas do egoísmo, da crueldade e da cólera, já não existe para nós. Pode dizer-se que vivemos uma vida completamente diferente. A ciência e a arte continuam a existir na nossa sociedade, mas a procura da Verdade e do Belo, menos estimulada pelo aguilhão da vaidade pessoal, adquiriu um carácter menos urgente. Para os humanos da antiga raça, o nosso mundo parece o paraíso. Por vezes acontece que cheguemos a qualificar-nos a nós próprios - de uma forma, pode dizer-se, um pouco brincalhona - como «deuses», essa palavra tão cheia de ecos para os humanos. |
in ‘As Partículas Elementares’, Michel Houellebecq
| O tempo que passa não passa depressa.
O que passa depressa é o tempo que passou. | Vergílio Ferreira
| A esperança, sempre adiada, de um relacionamento mais humano e mais completo nunca desaparece completamente, porque nenhuma relação humana se contenta com limites definitivos, restritos e rígidos. Permanece, portanto, a esperança, de que haja um dia uma relação «autêntica e profunda». E permanece durante anos, até mesmo décadas, até que um acontecimento definitivo e brutal (em geral, uma coisa como a morte) vem dizer-nos que é demasiado tarde, que essa «relação autêntica e profunda», cuja imagem tínhamos amado, também não existirá; não existirá, tal como as outras.|
in ‘As Partículas Elementares’, Michel Houellebecq
não sei porque não se escreve a luz
que cada um emana
se cada indelével
raio
única assinatura
traz nos caracteres inscrita
a criatura
(porque se impressiona
no papel memória
o panning da amargura?)