by Olivia Parker
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| Senta-te diante da folha de papel e escreve. Escrever o quê? Não perguntes. Os crentes têm as suas horas de orar, mesmo não estando inclinados para isso. (…)
Como é que outros escrevem em agnosticismo da sensibilidade? Decerto eles o fazem sendo crentes como os crentes pelo acto extremo de o manifestarem. Eles captarão assim o poder da transfiguração e do incognoscível na execução fria do acto em que isso deveria ser. Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante. |
Vergílio Ferreira, in ‘Pensar’
Pode falar-se de amor emprestado, sem que se perceba. Quem o dita fá-lo seu
porque a posse do comum difere em género, número, tempo ou lugar,
mas não em esquema.
O amor emprestado pode ser um seu. Mas não necessariamente.
Com a dor sucede o mesmo. Intensidade e espectro,
lágrima, grito ou silêncio, não a alteram na sua essência.
A dor emprestada pode ser uma sua. Mas não é fundamental que o seja.
Pode ser-se humano de empréstimo num palco
de códigos perceptíveis. Há sempre algum traço que se partilha
suficientemente credível que reflecte
a imagem de uma imagem, onde alguém se reconhece.
Pode ser-se humano como si mesmo. Mas a imagem reflectida
não tem que ser a sua.
O que é comum usa a linguagem comum
para que nada se perca. Para que muito se entenda.
O sentimento pede partilha. Não se satisfaz de memória.
Já, não sentir, é isolamento. Uma espécie de quarentena dos sentidos.
Envolver várias emoções ao mesmo tempo, é possível. Até humano.
Desumano seria revivê-las no simultâneo em que
a incapacidade não suportaria.
Porque, pode falar-se de amor emprestado, de dor emprestada,
mas nenhum humano se empresta o incomum sobre-humano.
Assim, a solidão prevalece sobre um texto intimista, ainda que o narrador
transforme em cúmplice o seu leitor.
Tão certo como a escrita ser um acto solitário; uma não-vida.
Ou como serem as palavras veículos, tão importantes no transporte
do pensamento quão inaptas quando falhas na sua representação.
Escrever não é viver; é reflectir a vida.
Uma frase pode ser uma prece. Uma metáfora, um enigma.
Um poema, uma oração.
crestomatia . antologia . florilégio . analecto
A palavra crestomatia é uma palavra composta, registada no início do século XVII. É composta de dois elementos, ambos gregos, de chrêstos, que significa “útil”, e de máthesis, “aprendizagem”, do verbo manthanein que significa “aprender”. O significado do substantivo crestomatia seria portanto “aquilo que é útil para a aprendizagem, que é útil no processo educativo” e refere-se a colectânea de textos escolhidos em função do ensino: recolha de fragmentos de prosa tirados de autores clássicos, célebres, que escrevem “bem” e são “bons” para o ensino.
O termo vizinho, hoje frequentemente misturado com o de crestomatia é o de antologia. Sendo o anthos a flor em grego, a antologia seria uma recolha de textos ou excertos de textos, mas escolhidos mais por um critério estético, não sendo conotada com a ideia de ensino. Além disso, o termo antologia usa-se com mais frequência para a poesia, enquanto a crestomatia se referiria mais à prosa.
Existe mais um termo semelhante em português (e não só em português): o de florilégio, de início do século XVIII. O florilégio tem também uma conotação de avaliação estética, embora possa denotar qualquer recolha de textos considerados representativos, conforme vários critérios adoptados. Vem do latim moderno florilegium, palavra forjada segundo o modelo de spicilegium, de spica, “ponta, espiga”, que passou a denotar uma espécie de ligadura, utilizada para amassar os documentos ou páginas avulsas de qualquer texto, diplomas, etc. A palavra espicilégio existe, acho, ainda hoje em português, mas mais para a papelada administrativa, lato sensu.
E, por fim, o(s) analecto(s) é mais um termo vizinho aos referidos, que podia ter sido utilizado para a colectânea de fragmentos, literários mas não só, que vem do grego análectos, “recolhido”, através do latim analecta, que designava o coitado escravo que recolhia os restos de refeições ou o compilador de frases e palavras.
(Faculdade de Letras de Zagreb, Croácia)
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[ #1 | #2 | #1 - 2., #2 - 1. ]
palimpsesto desbotado
uma ferocidade absurda
perante o imortal indivíduo
impossível o palíndromo
palimpsesto infinito
rubor sobre a alma
inconsequente memória
acto leve sob a espuma
palíndromo
diz-se da palavra ou número cuja leitura é a mesma, quer se faça da esquerda para a direita, quer se faça da direita para a esquerda
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| Enigma da época Romana e de uma enorme complexidade a julgar pelas teorias que se têm encontrado para o explicar.
O enigma em causa apresenta-se sobre a forma de um palíndromo de cinco palavras sobrepostas, de cinco letras cada, formando um quadrado e podendo desta forma ser lidas com sentido a partir da esquerda, da direita, de cima e de baixo.
A frase em latim “Sator Arepo tenet opera rotas”, traduz-se num português corrente para “O semeador Arepo segura as rodas no seu trabalho”. | in ENIGMÓDROMO
palimpsesto
pergaminho manuscrito medieval em que, por raspagem, se fez desaparecer a primeira escrita para nele escrever de novo, mas do qual, por vezes, se tem conseguido fazer reaparecer, por processos químicos, os caracteres do texto primitivo.
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1.
palimpsesto
então, desatar nós, despir caminhos
carpir palavras, céus desescrever
soltar das mãos vazias o buquê
azul de hortênsias mortas. quanto aos ninhos
que brotam no pinheiro e os passarinhos
decerto destruí-los e esquecer
as mãos que num antigo amanhecer
teciam sobre as minhas mil carinhos.
melhor assim. quem sabe o que reservam
os dias que hão de vir. se em si preservam
o amor ou se ao contrário, qual moinhos,
trituram as lembranças e a saudade.
e os restos do que foi felicidade
que o mar os trague em seus redemoinhos.