by Mário Cruz
E de vez em quando é assim: vivo numa suspensão de tudo, de interesses, de leituras, de escrita. Possivelmente é um erro supor-se que um interesse, seja qual for, reside nisso mesmo em que se está interessado. Não está. Um interesse remete sempre para outro e outro, até ao interesse final que tem que ver com a própria vida, o motivo global que nos impulsiona. Há pelo menos que haver uma razão final e genérica para que as razões circunstanciais ou ocasionais tenham um efeito propulsor. Há que termos essa razão, mesmo inconsciente, para que todas as outras actuem em nós. E o que não acontece quando por exemplo dizemos que estamos sem interesse. Não nos apetece ler, não nos apetece escrever, não nos apetece ir ao cinema, ouvir música etc, quando falta uma razão global em que isso se inscreva. E então dizemos sumariamente isso mesmo: que não nos apetece. Se temos um grande desgosto, se estamos condenados por uma doença etc. justifica-se o desinteresse por essa razão. Significa isso que essa razão é o fundamento global que nos falhou para qualquer outro interesse subsistir. Os que superam esse estado são excepcionais, ou loucos ou de força de vontade ou obsessivos, o que tudo é um modo de dizer que se está fora dos limites normais. Hoje estou em dia de suspensão - venho-o estando, aliás, há já dias. Só não sei a razão fundamental para que seja assim. Vou pensar aplicadamente, a ver se sei.
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«Ora, aqui temos o Sr. António, que só tem um dente. Não é verdade?»
O Goucha continua, «Se tivesse dois, seria bidente!...»
E o desdentado ri, feliz, atestando-lhe a piada.
Emitisse a TVI o directo a norte do Mondego e a charge seria irrepreensível…
*
O avião chamado «ESPERANÇA», era afinal o «JOSEFA D’ÓBIDOS».
Que a esperança nos media seja a última a morrer…
*
- O que espera da Selecção? - inquire o jornalista.
- Espero que consígamos.
*
«Os combustíveis estão caros? Este é o momento de repensar a mobilidade, outras energias, a bem do ambiente!»
- Não se trata, afinal, de falta de vontade política, mas sim de preocupação ambientalista.
Alguém que explique isto aos homens do mar, se faz favor!
*
Os nossos maiores recursos económicos, e principal fonte de optimismo, cabem num autocarro, movido a vontade de vencer!
Fantástico, não é?
Ora, aí está uma energia alternativa…
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quem sai aos seus, não é de Genebra...
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[investimento a 3,5 meses com 0% retorno:
40.000 bilhetes vendidos, em 31 Maio, para o Concerto de Madonna]
O Dia Mundial do Livro foi assinalado com a edição exclusiva de um livro que reúne dez excelentes contos inéditos. Foram convidados dez escritores prestigiados: Mário Cláudio, Lídia Jorge, João Aguiar, Filipa Melo, Rui Zink, Luísa Costa Gomes, Nuno Júdice, Manuel Jorge Marmelo, Maria Teresa Horta e Francisco José Viegas. Todos eles acederam ao convite; o resultado foram estes dez contos inéditos, superiormente ilustrados por António Jorge Gonçalves, que aqui configuram O Prazer da Leitura.
(4€)
O valor da venda reverte inteiramente a favor da AMI.
Exclusivo FNAC
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curiosidade:
Comemorado desde 1996 e, por decisão da UNESCO, a 23 de Abril, dia de São Jorge.
Esta data foi a escolhida para honrar a velha tradição catalã, segundo a qual, neste dia, os cavaleiros oferecem às suas damas uma rosa vermelha de São Jorge, recebendo em troca um livro.
Para além disso, é prestada homenagem às obras de Shakespeare e Cervantes, falecidos em 1616, exactamente a 23 de Abril.
by Rodney Smith
“(…)
Até à data não existe uma única interpretação que te leve a dizer É isso mesmo! Ele conseguiu! Sabes porquê? Porque esta sonata é, em si própria, imperfeita. Robert Schumann, que conhecia bem as sonatas de Schubert, classificou-a de «divinamente longa». (…)
- Voltando à primeira pergunta – indago eu -, porque ouve as sonatas de Schubert? Sobretudo quando vai a conduzir?
- As sonatas de Schubert, especialmente esta, deixam de ser arte se te limitares a ouvi-las vezes sem conta. Como Schumann apontou, esta é demasiado longa e demasiado idílica, e, de um ponto de vista técnico, demasiado despretensiosa. Quando tocada de um modo convencional, torna-se desinteressante, insignificante e sem estilo, como uma antiguidade cheia de pó. E é por isso que todos os pianistas que a interpretam acrescentam qualquer coisa de si próprios, uma coisa nova. Como acontece com esta gravação – ouves como ele articula isto aqui? Acrescenta rubato, que é como quem diz, altera o tempo, a modulação, o que for. E quando isso não acontece, tocam quase sem fazer uma pausa. Mas, se não estiverem com atenção, todos esses estratagemas novos correm o risco de destruir a dignidade da peça. E nesse caso deixa de ser música de Schubert. Não há um pianista, sem excepção, que tenha interpretado esta Sonata em Ré Maior e que não se tenha debatido com estas contradições.
Oshima deixa-se ficar durante algum tempo a ouvir a música, a trautear baixinho a melodia. Depois prossegue.
- É por isso que eu gosto de ouvir Schubert quando viajo de carro. Precisamente pelo facto de a imperfeição por detrás de cada interpretação espreitar a cada curva. Essa profunda imperfeição artística estimula a nossa consciência, desperta os nossos sentidos. Se eu escutar uma interpretação absolutamente perfeita de uma peça absolutamente perfeita enquanto vou a conduzir, posso cair na tentação de fechar os olhos e querer morrer, ali mesmo. Mas ao escutar a Sonata em Ré Maior apercebo-me das limitações próprias da capacidade humana e torna-se claro para mim que, até certo ponto, a perfeição só pode ser atingida através de uma série de imperfeições. Além de que, pessoalmente, acho isso inspirador.
(…)
- As pessoas fartam-se depressa de tudo o que lhes provoca excitação mas não do que é monótono. É assim em tudo. No meu caso, posso dar-me ao luxo de ficar enfastiado, mas nunca corro o risco de me fartar de uma coisa. A maioria das pessoas não distingue entre uma coisa e outra.
(…)
Quando a «divinamente» longa sonata de Schubert chega ao fim, acaba-se a música. Permanecemos ambos em silêncio, cada um de nós perdido nos seus pensamentos.
É verdade!
Ontem o Valentim, disfarçado de raposa, desferiu três setas pela voz-cupido do Luís Gaspar.
Tenho o ego tão infectado que me sinto dormente. O efeito air bag, que é função do inchaço, em vez de me proteger, expõe-me. E já que assim é, convido os voyeurs (ou deveria antes dizer écouteurs?) a dar lá uma espiadinha e a conferirem como ficaram estes três poemas [Identidade, mas eu não sei, A tua ausência] naquela voz melíflua, de dicção irrepreensível, que zelosamente dramatizou a minha escrita e ma devolveu outra; bem diferente da que guardava no peito - ou seja: dos dois lados da cabeça…
Como é que se consegue agradecer uma honra destas?!
[euzinh’outra a partir do minuto 8:18]




AHHHH! e meia dúzia de
O melhor que consegui arranjar, para quem aqui vier parabenizar-me. Porque aqui a je…

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curiosidade...
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Planeta Regente: Urano
Elemento: Ar
Qualidade: Fixa
Polaridade: Positivo
08/02/2007
O aquariano que tanto vive em grupos e associações, muitas vezes acaba por se sentir só. Viva essa peculiaridade de forma positiva hoje.
Integre-se nos momentos que estiver com a pessoa amada e tire o máximo de proveito dessa situação, sem medo de ser feliz, ou de que a felicidade possa terminar.
A sua vida profissional está a melhorar e apenas precisa de ter mais tempo para si mesmo para poder objectivar melhor os seus projectos.
Perceba que ser singular não implica ser solitário. Hoje é um bom dia para ficar sozinho, fazendo um balanço da sua vida e sentindo o seu coração, sem racionalizar.
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Como se lê, nada indica que devesse estar a fazer bolos...
[NOTA DO DONO DO BLOG:
este espaço foi hoje alugado exlusivamente para a divulgação da abertura oficial da caça ao A RAZÃO TEM SEMPRE CLIENTE, em formato de livro, que enganosamente se diz ter sido lançado no dia 2.NOV.2006. Mais se adverte que o autor não disponibilizará somalis para essa actividade. Terão que o procurar por conta própria numa livraria de prestígio e contentar-se apenas com o livro.]
A Razão do Lançamento
Há eventos que nos apanham, como se não houvesse amanhã. Achamos que podemos aceitar convites, que a coisa vai ser chapa 6, borrifadelas chanel 5, pendurar o sorriso número 3, e ala moço, que já lá devias estar!… Esqueçam esses números!
Nem pensem em tomar à letra um convite que diga «Lançamento do livro...» porque é uma redonda mentira. Um pobre incauto, aloja-se lá para trás, escondidito, a espreitar entre pescoços a cabeça de onde sai a voz que estamos a ouvir, sempre, sempre à espera do tal do momento para se baixar para não levar com o livro na tola, tentar depois surripiar um menos pisado que fique por ali no chão a olhar para nós e… nada!
É uma tristeza que não se vá para lá do «Lançamento da Palavra sobre um Livro que Acabou de ser Lançado».
Próximo convite que receba, não irei.
Vou reservar-me para um «Arremesso da Beata». Assim como assim, já percebi que nenhuma freira irá ser sacrificada…
[o segundo texto poderia ser A Ração do Lançamento, mas vou poupar-me/vos]
Temos o direito de não comer, não temos o direito de comer mal.
Leonardo da Vinci
Uma das coisas que me irritam nesta minha nova condição é só poder usar a primeira parte da frase… mas recomendo, aplaudo e invejo quem a possa usar na íntegra.
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Desculpa Vitor, mas vou ter que me cingir ao teu conselho: «Quando não se tiver tempo ou disposição para se fazer uma refeição decente, escolha-se um iogurte»… Para quando iogurtes gourmet?
Ok.. Ok..
Sou fã de Almodóvar, que quereis?
Um pouco de Gardel na voz de Estrella Morente, num playback na boca perfeita e rasgada de Penélope Cruz, mais madura e linda que nunca, que não me sai da cabeça.
Cliquem na música e entrem numa odisseia feminina contada por PA e sintam o vento leste que enlouquece La Mancha e os moinhos de D. Quixote.
Yo adivino el parpadeo
de las luces que a lo lejos,
van marcando mi retorno…
Son las mismas que alumbraron,
con sus pálidos reflejos,
hondas horas de dolor.
Y aunque no quise el regreso,
siempre se vuelve al primer amor.
La quieta calle donde el eco dijo:
Tuya es su vida, tuyo es su querer,
bajo el burlon mirar de las estrellas
que con indiferencia hoy me ven volver…
Volver,
con la frente marchita,
las nieves del tiempo
platearon mi sien…
Sentir… que es un soplo la vida,
que veinte anos no es nada,
que febril la mirada
errante en la sombras
te busca y te nombra.
Vivir,
con el alma aferrada
a un dulce recuerdo,
que lloro otra vez…
Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve
a enfrentarse con mi vida…
Tengo miedo de las noches
que, pobladas de recuerdos,
encadenan mi soñar…
Pero el viajero que huye
tarde o temprano detiene su andar…
Y aunque el olvido, que todo destruye,
haya matado mi vieja ilusión,
guardo escondida una esperanza humilde
que es toda la fortuna de mi corazón.
Vivir… con el alma aferrada
a un dulce recuerdo
que lloro otra vez…
I started a joke, which started the whole world crying,
but I didn’t see that the joke was on me, oh no.
I started to cry, which started the whole world laughing,
oh, if I’d only seen that the joke was on me.
I looked at the skies, running my hands over my eyes,
and I fell out of bed, hurting my head from things that I’d said.
‘Til I finally died, which started the whole world living,
oh, if I’d only seen that the joke was on me.
I looked at the skies, running my hands over my eyes,
and I fell out of bed, hurting my head from things that I’d said.
‘Til I finally died, which started the whole world living,
oh, if I’d only seen that the joke was one me.
[’I Started A Joke’ lyrics and music by The Bee Gees]
[Ainda andei a rasgar texto, mas feria o artigo ao Miguel. Contudo, os dois últimos parágrafos, imparáveis pelo a todo o vapor, é possível que vos custem a ler. Tentem abstraír do som das minhas palmas.]
“Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”
Miguel Esteves Cardoso, in ‘Expresso’
Klimt
O amor fica para os pobres
Perguntei a cerca de 40 dos meus alunos qual das palavras preferiam para designar o acto sexual: fornicar ou foder. Foram unânimes em considerar foder preferível a fornicar. Um deles chegou mesmo a acrescentar: «Fornicar é porco. Os porcos é que fornicam.» Cobri a afirmação explicando-lhe que, por muito que lhe custasse aceitar, cabe aos homens fornicar e aos porcos cobrir. Com o tempo, certas palavras adquirem efeitos que não tinham; outras, devido à sua banalização, perdem o efeito que tiveram. Porque completamente banalizado, o termo foder perdeu parte do seu significado quando aplicado em literatura. Motherfucker para aqui, fuck you para acolá, são poucos os filmes e as canções “comerciais” que não botem um fuck lá pelo meio. E que dizer do “humor à portuguesa”? A dificuldade reside precisamente no facto de o termo foder, bem mais aprazível que fornicar, estar de tal forma esvaziado de conteúdo imagético que cheira a mofo. Veja-se como após o sucesso de «O amor é fodido» não há pimba literário, ou escritor light, que não meta umas fodidelas no curso da narrativa. Agora a moda parecem ser as enrabadelas, talvez por parecer mais chocante a quem não tem mundo. Hoje, foder é mais do domínio de lixar a cabeça a alguém. «Estou fodido» significa «estou lixado». Ou, quando muito, o mais facilmente incongruente «foram-me ao cu». Ao contrário, fornicar é pinocar porco e feio. E já repararam como a expressão «fazer amor» se tornou tão… anacrónica? Ou como «fazer sexo» remete para uma espécie de actividade fabril? Sendo assim, eu diria que o artesão faz sexo, o homem vulgar fode e as putas fornicam. O amor fica para os pobres.
HMBF, in Insónia
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[# I]
Klimt
Alvião
A nossa casa ficava a meio da encosta. Na Primavera, pela tardinha, descíamos ao rio por um carreiro de pedras, entre estevas e vinhedos. Um dos cântaros iludia a sede da laranjeira; com a outra água, a minha mãe fazia a sopa, lavava a louça. A que sobejava era para nosso asseio. Ao cair da noite, eu e a minha mãe sentávamo-nos na soleira da porta a colher o cheiro doce da laranjeira. Eu sei, vai duvidar da minha história. Mas todos nós tivemos uma infância: a minha adormeceu nessa casa térrea a olhar um rio. O avô, pouco interessa o nome, o meu avô plantou a laranjeira em frente da casa, na terra de xisto, como se quisesse afrontar a Natureza. Venceu. Mas vezes sem conta rumou ao rio, quando o Verão seca as fontes. Eu e a minha mãe recebemos e tratámos, zelosas, a herança. Desconheço se a casa resiste, terá telhado, a porta. Qualquer dia, meto-me no comboio e afugento a dúvida. Uma coisa é certa: não vendi a casa. Se o tempo a diluiu na paisagem, força não teve, nunca terá, para engolir o chão. Um pedaço acanhado de terra, afinal tudo o que me resta. Por que me olha? O meu corpo… Sim, meto-me no comboio e regresso a casa, à memória da casa. Nada terei a temer, ninguém me conhece: a aldeia ficava tão distante como o rio, ou mais longe. E as pessoas da minha criação, como eu, também fugiram; aos velhos da terra, no devagar secreto, bebeu os olhos. Talvez a laranjeira desobedeça à morte. No fim de abrir a cova, a golpes de alvião, sabe o que é um alvião?, na terra de pedra solta, o meu avô chamou a filha. Em tom de prece, disse: «S. Frutuoso bote o fruto». E S. Frutuoso, pelo menos enquanto vivi na casa, foi benigno, como parecem ser todos os santos de devoção dos homens laboriosos. Meto-me no comboio… Por que não olha para mim? Se quiser de verdade conhecer a história, observe o meu corpo. Muitos homens o percorreram. Homens a tresandar a álcool, suor; homens perfumados. Bruscos, homens silenciosos como choupos, um ou outro tocado de delicadeza. Por todos reparti amargura, a todos emprestei felicidade. Não. Peço-lhe, pare. Felicidade é palavra tresmalhada na minha história!
Enquanto recua a fita, falo da tristeza dos choupos. Enfim, é tontice… Se me via triste, o avô dizia que eu parecia um choupo. O meu avô amava deveras as árvores… Expulsou a felicidade? Quando o meu avô me comparava à tristeza dos choupos, ficava furiosa, os meus olhos lampejavam como as pedras que o alvião esmiola a rasgar o monte. Sabe o que é um alvião? Para entrar na minha vida, precisa de saber o que é um alvião. Alvião, alvião… conhece, diga-me, conhece outra palavra leve e tão veloz? Eleva-se no ar como libelinha e logo se precipita como cutelo. Você não acredita mesmo. A mulher da minha rês vedado está o ofício de sopesar a Língua. Todo o meu vocabulário, terá você imaginado, cabe no reverso de um bilhete de comboio. Engana-se. De herança, o avô deixou-me ainda um livro: nunca o abri, mas, se assim o desejar, posso contar-lhe o enredo. Nas tardes de Primavera, degustava em voz alta, sentado na soleira, essa história de paixão. Quem ouve palavras envoltas no aroma de laranjeira florida jamais as esquece. Lhaneza, sabe o significado de lhaneza? A palavra irrompe nas primeiras páginas do livro; quando a escutei, pedi ao avô para parar. E perguntei-lhe o que queria dizer essa palavra que nos obriga por momentos a colar a língua ao céu da boca. O meu avô… Acabou a fita? Não há problema, eu não me esqueço do que ia dizer…
Posso?
O meu avô não soube explicar, e pareceu-me ter ficado ofendido com ele próprio. Nunca mais lhe interrompi a leitura… Por que quer você gravar a minha história? Numa tarde de Verão, desci sozinha pelo carreiro, que cruzava estevas e vinhedos: a laranjeira clamava por água. Um homem meteu a mão ao bolso, mostrou-me moedas. Deixei-o com o brilho na concha da mão, segui caminho. No rio, demorei mais do que o costume, talvez a espera o afugentasse. Devagar subi a encosta, cântaro de barro na cabeça, você não é do tempo dos cântaros de barro, e o desassossego, conhece palavra mais sinuosa?, e o desassossego desvanecia à medida que a vinha escorria. Já via as estevas, mirradas, refúgio de perdizes e víboras… mãos de silêncio e lume apertaram-me os seios. Ao contrário das víboras, atacou-me por detrás, à falsa fé como dizia o meu avô, e eu tinha as mãos a aparar o cântaro. Com o homem grudado a mim, fui descendo a vasilha, e ele, sem me soltar, permitiu que me curvasse e a poisasse. A mão esquerda largou o seio, este, este!… por que não me olha?, e tapou-me a boca, mas um grito havia golpeado a brandura da tarde. Valerá a pena, a dor, contar o resto? O alvião, fica a saber o que é um alvião, no ar, gume de ferrugem, depois da morte do avô ninguém lhe deu uso, e logo a descida fatal.
Um dia meto-me no comboio. Compro uma tesoura de poda, corto os galhos mortos da laranjeira. Desço ao rio, desta vez sem o cântaro, sem o homem a espiar-me da vinha… O fotógrafo? Pois, amanhã, já me tinha dito. Avise-o: quero a fotografia assim. Não me acha bonita! Olhe as minhas pernas, a mão no sexo… O corpo. A minha história. Desligue o gravador, desligue: deite-se a meu lado, como um tímido amante. E serei a menina, cântaro à cabeça, por entre os vinhedos. Poise as mãos de silêncio e lume nos meus seios. Não tenha medo - alvião é uma palavra perdida.
Francisco Duarte Mangas in PUTAS - Novo Conto Português e Brasileiro, 1ª Edição, Quasi Edições, 2002 (pp.37-41)
Fico Assim Sem Você
Avião sem asa, fogueira sem brasa
Sou eu assim sem você
Futebol sem bola,
Piu-piu sem Frajola
Sou eu assim sem você
Por que é que tem que ser assim
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
Vão poder falar por mim
Amor sem beijinho
Buchecha sem Claudinho
Sou eu assim sem você
Circo sem palhaço,
Namoro sem amasso
Sou eu assim sem você
Tô louca pra te ver chegar
Tô louca pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas
Pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
Por quê? Por quê?
Neném sem chupeta
Romeu sem Julieta
Sou eu assim sem você
Carro sem estrada
Queijo sem goiabada
Sou eu assim sem você
Por que é que tem que ser assim
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo o instante
Nem mil alto-falantes
Vão poder falar por mim
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
[Adriana Calcanhotto, Adriana Partimpim, 2004]
firmly tied to infinite by rudolfo elias
Il était une fois
C’est comme ça qu’une histoire commence
On a tous en mémoire
Un reste au fond de soit, d’enfance
On part pour la vie
sans la choisir vraiment
(...)
Tant qu’on rêve encore
Que nos yeux s’étonnent encore
Rien est perdu
Tant qu’on rêve encore
Que jamais personne s’endorme et ne rêve plus
Jamais plus
(...)
prefiro
Sentar-me no muro
assemelho-me a uma ave marinha
O sol nos olhos
- o paraíso -
Ouço-o
Alcançá-lo
cansa-me os pés
Il était une fois
Tout commence comme ça
(...)
”Le Roi Soleil” - Tant Qu’On Rêve Encore