baby lónia

[a poesia habita quem não tem morada]

:: Terça-feira, Setembro 12, 2006

Zapping to Reality


b’ndia

bzzz
foste levar a chavala?
que tal?

tou chateada como um peru!
atão?

foi só a reunião
eu sabia
e...?

e ela só tem escola até às 3h
oc car assas

não têm Atl e não arranjo nenhum
já viste esta merda?

oc car assas
então.. é das 9h às 3h??????

fui a uma creche lá ao pé
isso não é escola; é part-time

da paróquia da outurela e paga-se consoante os rendimentos
pois

hummm

e trouxe uma inscrição e esses estão abertos até às 19h30
vamos lá a ver se tenho vaga

vá lá… têm Atl de torneiro mecânico? LOL
sorry

na escola dela no ano passado tinham Atl. este ano não há verba
oc car assas

isto é surrealista
não… é um país de não-brancos

tou tão desanimada...
então… q tal ficares sentada no carro, depois de a despejares, e depois trazê-la às 3h???
acredito
isso não ‘rende’

e o pior é que não sei a quem me dirigir para protestar
a ninguém!.... helloooo
neste país não se protesta; desabafa-se
quem manda terem filhos, hein?!
vi uma peça na TV sobre trás-os-montes… fecharam sem avisar, cerca de 60 escolas… algumas povoações distam da q funciona 40Kms… vão fazer os miúdos deslocar-se de taxi
no comments…
num jornal espanhol, uma notícia mereceu a seguinte parangona:
SE LLAMA ANTÓNIO, NACIÓ EN ESPAÑA, PERO ES PORTUGUES

daqui a pouco também vão para as escolas espanholas
si
good news:
- não se vai privatizar a segurança social! - socrates dixit
enqt continuarem sem saber aonde anexar portugal… seremos uma ilha encostada à europa…
tu não tens um problema; tu tens uma realidade
[ok, ok… não tou a ajudar]
[tou só a ajudar a rechear-te o peru]
...e..... TAPA NA PANTERA!!!

mas é isso mesmo
estou a ver o site do ministério e não ajuda...

pois

têm jardins de infância e não têm horários
bueno
busca en los espanhuelos.... LOL

podes crer

Publicado por mjm • às 12:30 PM • Categoria: Prosa blábláblá (0) •

:: Sábado, Setembro 09, 2006

As estações do ano

Num dia que seja de Verão, espera-se calor. É justo. Noutro, de Inverno, frio. Talvez chuva; poucas horas de luz, pelo menos. Assim, sincopadamente arrumadas, as estações não reservam surpresas. Na escola, encarrapitam-se na memória numa sequência nada inocente: percorrem o ciclo da Vida. Ninguém ousaria memorizá-las aleatoriamente sem ter decorado a lenga-lenga obrigatória!
- Tu, aí, Diogo, queres dizer-nos quantas são as estações do ano?
- São quatro, senhora professora.
- E quais são elas?
- Verão, Outono, Primavera e Inverno.
Incontidos, todos largaram à gargalhada. A professora, hesitante entre achar que o Diogo a desafiava ou que simplesmente lhe respondia sincero, fixou o olhar no aluno à espreita de um sorriso que lhe escapasse, enquanto a turma inteira se calou expectante pelo momento seguinte. Diogo insistiu, num tom a descambar para o inseguro:
- Verão, Primavera, Inverno e Outono… Não são, senhora professora? - As faces coravam contra a sua vontade, enquanto se sentia alvo de muitos pares de olhos e ouvidos, sobretudo por não conseguir detectar no rosto da professora um único músculo que lhe fornecesse qualquer pista. Ao fim do que lhe pareceu uma eternidade, lá veio a explicação:
- Está certo, sim. São, de facto essas, as quatro estações do ano. Porém, consegues dizê-las pela ordem em que se sudecem?
Diogo hesitou uns escassos segundos e enumerou:
- Sim senhora professora: Inverno, Primavera, Verão e Outono. - E sorriu, triunfante.
A turma, não tão explosiva quanto da primeira vez, reagiu num burburinho surdo, salpicado por alguns risinhos agudos, assexuadamente infantis.
- Explica-me, e aos teus colegas, por que assim consideras que seja a ordem das estações?
- É simples, senhora professora - voltara-lhe a segurança; explicar a sua lógica, quando lho pediam, era sentir reduzir-se o peso da loucura que lhe atribuíam - o Inverno é o princípio de tudo. É quando a cor está debaixo da terra a renovar-se, mas em cima não se vê. Quando não se vê a cor é porque os olhos não conseguem ver debaixo da terra, mas ela está lá. Os nossos olhos não vêem no Inverno. Por isso, quando for grande, quero ser poeta.

Publicado por mjm • às 01:17 AM • Categoria: Prosa blábláblá (1) •

:: Segunda-feira, Agosto 14, 2006

A polpa e a fibra

| E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. | Vinícius de Moraes

Também adentrei pelos livros. Peguei nessas literaturas com mãos de içar candeias.
Também me vi neles escrita ou tive a vontade de me confundir nos enredos. - Acho que nunca o escritor suspeitou; nem pelos sinuosos sublinhados que atestam ter estado parada repetindo a leitura de pedaços sumarentos, o real-polpa que então me alimentou.
Também me reinventei, descobrindo-me. Não naquela monocultura que gira em torno das coisas dos sentimentos amestrados, mas nas outras, as bravias, que afinal crescem em nós e que nos permitimos quando as confirmamos na narrativa alheia. - Tão estranho, isso! O reconhecimento… A nossa realidade submersa trazida à tona por alguém que nem nos conhece, que irrompe do nada com a maior naturalidade, para nos provar que aquilo que escondemos por vergonha, ou que não sabemos nomear, existe e é afinal serenamente mortal…
Também me desflorou a descoberta, os passos dados sem saber caminhar, os que levam a labirintos indecifráveis mas que não nos deixam descontinuar. - A clareira!? A clareira!? Tenho que chegar à clareira!…

Adentrei algumas almas, como quem adentra livros. Mas aí fui quem se entreteceu com os enredos. - Sugada a polpa, sumarenta polpa, sobra a fibra emaranhada dos fios com que escrevo. - Escalo a escarpa da palavra; é ainda a clareira que procuro. Até não restar mais nada.

Publicado por mjm • às 01:35 AM • Categoria: Prosa blábláblá (4) •

:: Sábado, Março 11, 2006

Tantalógico


Era bom se eu não tivesse que me diluir em explicações desnecessárias, pois canso-me de tanto me repetir, embora sempre inventando novos trajectos e abordagens para o fazer. O que eu queria mesmo era que o meio discurso que dependuro da expressão te auxiliasse no caminho e te trouxesse com menos desgaste ao ponto a partir do qual, quando chegados, não conseguimos prosseguir. Poderíamos avançar no horizonte, penso, e espandir por clareiras fáceis até repousar, enfim.
Mas essa não tem sido a minha sorte. Não, contigo. Os recuos, teme-los, mas creio-os inevitáveis, pois adivinho que se o não fizesse te enlearias disfarçando normalidades canónicas, como cosméticas que harmonizam o semblante mas não as células que, assincrónicas, se desgastam a renovar-se a um ritmo descompassado com o da sua capacidade de regeneração. Pressinto-o contigo e mal não te quero; até o entendo sem esforço, por isso retrocedo, à tua espera.
Mas estou cansado, sabes? Cansado, menos de ti que do mundo, mas muito cansado. Porque o que quero é não explicar. Invejo os seres que se entendem na linguagem mais económica. Quase chego ao extremo de invejar nada ter para dizer; ou nada ser necessário dizer. Beber-te a ti, à vida, sem sofreguidão de suplício, e deixar Tântalo na moldura dos mitos, juntamente com todos os outros ícones que ilustram lições e remeter-me para a não fadiga.
Se me quiseres acompanhar, vem comigo. Esperar por ti, mais não posso. E querer-te aqui é moral que não se escreve nem se aguarda. Não estás, apenas, e lamentar é vício que não bebo.

Publicado por mjm • às 02:50 PM • Categoria: Prosa blábláblá (13) •

:: Quarta-feira, Dezembro 14, 2005

Uma história de Natal


X-mas tree in Lisbon by Penelope

Sabes do que gosto mesmo? De quando irrompes casa adentro sem avisar e me arrancas o primeiro improviso de reacção, e do meu esforço a tentar equilibrar a mais airosa frase que soe fresca e limpa como se nunca tivesse sido estreada. Gosto tanto dessas provocações e sou já tão boa a fazê-las nascer que até a mim surpreendo, porque as sei gémeas de gémeas de outros milhentos momentos.
O teu verbo é verbo velho, matreiro e cheio de vícios. Cheira a charuto apagado, como roupa usada mais do que uma vez e que rescende à história dos dias passados. Deixo-te pensar que és quem domina. Para quê dar-te a entender que reparo nisso? Estragava o meu momento de te oferecer a sensação de me teres surpreendido.E sabes por que gosto de te fazer isso? Porque sei que assim sou eu quem colhe os frutos maduros e que sou eu quem os abocanha, como esfomeado perante uma mesa descomunal que se banqueteia num manjar que não deu nenhum trabalho; nem o de esticar a toalha da mesa! 
Chegas e demoras três segundos a fechar a porta, e eu demoro dois a alongar no rosto a serenidade e a sacudir dos cabelos o cheiro igual ao do refogado do jantar de ontem. Só que ontem não atrapalhava; vinhas fácil, ontem. Mas hoje, não.
Renovamos as reacções guiados pelos mínimos detalhes que notamos um no outro, porque nos farejamos quotidianamente há - Raios, homem! Deixa ver. Há, sei lá: desde o primeiro dia em que percebemos que o tempo nos tinha roubado o amor. Foi aí que começámos a ser «um casal». Lembras-te? Aquela coisa irritante de recebermos dos amigos prendas «para o casal»! No princípio era romântico. Qualquer prosaica prenda parecia uma peça mágica porque nos transformava num «casal». Depressa se encheu a casa de inutilidades que só mais tarde percebemos não destoarem do romantismo que tínhamos perdido, mas que na altura não combinavam com nada. Assim completámos o serviço Cozinha Velha, que raramente usamos. Sim, convenhamos! Achas que ia preferir gastar um sábado a preparar um jantar para os serôdios dos amigos «do casal» e brincar às casinhas em cima da toalha de linho de dois metros e meio, em que a santa da tua mãe se aplicou a bordar rendas e dedos, para depois a ter que mandar para a lavandaria e garantir-lhe que “Sim, Dona Céu, ficou impecável”? São assim as provas de vida comum. Ah! Só essa frase: “vida comum”, me dá vontade de rir.
Hoje, além dos três segundos que demoraste a fechar a porta, resolves dar uma olhadela ao correio. Os meus dois segundos alongam-se e aproveito esse pretexto.
Nem me mexo da posição no sofá. Comando na mão e pernas dobradas, só movimento os olhos na tua direcção e logo deixo escorrer um langoroso sorriso: o sorriso com que me conheces. Vês-me dali e hesitas os passos. Devolves o olhar distraído para os envelopes, mas sem lhes prestares nenhuma atenção. Nesse recôncavo momento, ofereço-te magicamente a solução para o teu mal-estar:
- Tenho estado aqui a pensar. Que tal se este ano fizessemos o jantar de Natal cá em casa?
- Hm, hmm.
- A Rita e o Pedro não estão, que vão para os sogros com os miúdos. A Anabela vem este ano passar o Natal com os pais e resolveram juntar-se. Não me parece mal. Enfim, é por uma razão de peso.
- Hm, hmm.
- A minha mãe podia vir com o meu irmão e com a Paula.
- Pois.
- A tua mãe vai adorar ver a toalha na mesa!… E o nosso serviço tem tudo a ver com bacalhau. Que dizes? - tento não dar nenhum tom irónico ao bacalhau.
- Tu adivinhas-me, querida! - deixas escapar, aliviado. - A minha mãe hoje ligou-me para o escritório e senti-a meio tristonha. Percebi logo que estava com ciúmes por a Rita ir para casa dos pais do Pedro. Continua a não entender estas coisas dos casais… - e olhas-me com ternura, certo de encontrares eco de cumplicidade.
- Deixa lá. Para o ano faz-se em casa deles.
E rasguei-te o meu mais franco sorriso. Não podes saber ainda, claro, mas este vai ser o último Natal que vamos passar juntos. Feliz Natal, meu querido!

Publicado por mjm • às 05:00 PM • Categoria: Prosa blábláblá (10) •

:: Sexta-feira, Outubro 07, 2005

para o caso de não me lembrar


by artofgold

para o caso de não me lembrar, fiz uma pequena marca no dedo indicador esquerdo. posso esclarecer que funcionou. sempre que a vontade empurrava a minha decisão, bastava-me olhar para aquela marca. era uma espécie de pacto que tinha feito entre mim e a memória. depois, reformulei os gestos e consegui iludir esse pacto, quase sem que parecesse um incumprimento. reparei que, quando se dava o caso de não me lembrar, lembrava-me da pequena marca que tinha feito no dedo indicador esquerdo. lembrava-me, até, de como a tinha feito. sabia perfeitamente porque a tinha feito e, sorria. é nesta altura que tenho que esclarecer que continuou a funcionar. poderia levar-vos a crer que não, mas continuou a funcionar. o sistema era simples: quando se dava o caso de não me lembrar, lembrava-me da pequena marca que tinha feito no dedo indicador esquerdo e a vontade parava de empurrar a minha decisão. até um dia. até ao dia em que se deu o caso de não me lembrar. tornara-se estranho. não me lembrava e não havia nenhuma marca para mo lembrar. é nesta altura que tenho que esclarecer que, mesmo assim, poderia ter continuado a funcionar, não fosse ter-se dado o caso de me ter habituado a andar de mão no bolso. a pequena marca que fiz no dedo indicador esquerdo, para o caso de não me lembrar, continua a existir. só deixou de funcionar porque nunca mais se deu o caso de não me lembrar.

Publicado por mjm • às 09:32 PM • Categoria: Prosa blábláblá (7) •

:: Quarta-feira, Agosto 24, 2005

“A Razão do Silicone”

Hoje é aqui

Publicado por mjm • às 12:47 AM • Categoria: Prosa blábláblá (12) •

:: Quarta-feira, Agosto 17, 2005

Uma história para Camelotes

psiuuu
galop galop Sir Lance o Lote?
Hindu não Gwynevere aqui hoje

Já outro Galahad cantar - disse ela - Não tou pa te Arthur ar! Afinal o que é que eu Gawain com isso?
- Dou-te uma bola de Merlin, rematou ele!
- ahaha, Mordred aqui a ver se eu deixorasberry

...e Avalon, 100 OB ter resposta, não fosse estar em Porto Graal…

ah, mas ele respondeu: Você num Távola ou a da cabeça… num távola ou arre, tonta! sua Graal lha maluca.
Cálice - disse ela - Viviane os horríveis consigo… e tungas atirou-lhe cuma stonehenge à carola!

Sir Kay-o e disse-lhe:
- Tás harm Ado em Camelot, O Q?
Mas Percival mal não aceitar a bola de Merlin.
Haveria mais Knights e aquela pedra seria Pó desperar…

Tinha Druídas sobre aquela 10 sisão, por isso o mandou pra cama

(que pés que iça mais Fu leira!)

Arthur, sabendo da Tróia som da rainha, limpou os Visigodes sujos dasse ir Beja e 100 tem-se e ou: há-de ter morte Celta, Huno me chame Penis Dragon. Ibero ou-se pó carrasco dizendo: Pendura a Gana Vira pruma corda até ela ficar em Vickings dos pés… Depois te darei mais ins trousse ões…

Nu entre tanto Merlin ia dizendo: Ela é (sentou-se à mesa) puta. Ame-a! Já foi uma melher Síria, sim, m’anão lhe deste hot em som.
Ouvindo a kilo, Arthur ficou sem Egipto… Vermelho de raiva mais parecia um T(o)urquia arremeter contra o Cow Valério…

... Arthur socorreu-se do seu poor táctil pa registar a afronta… Mas foi tal o azar que tava com um Chipre avariado. Ainda hoje ele Irlanda pa saber se foi vírus ou trenguice sua. Mas foi Suméria cu incidência.
Arthur suava por todos os poros. Ainda oi Germânia um odor pestilento…
Eu sei que é chato, dizia Merlin, mas olhe, se é chato, Escócia!…

15 Anos antes…

Arthur era um reles criado d1 Cow Valério famoso. Uma das diz tracções do senhor era ir à pesca com o criado.
Certo dia....
Vamos lá à pesca a ver o que a Canadá.
Assim o fizeram. Tá visto que Arthur num pescava nada.
O senhor já impaciente, gritou-lhe:dasse, num pescas nada! Tás armado em Ontário, moço?
- Otawwa 10 traído, sinhor, desculpava-se Arthur…
E o senhor: Pesca ali, burro!
Arthur assim fez e logo lhe saiu um peixe espada.
Obrigado, senhor, disse Arthur! em sua honra vou-lhe chamar “p Excalibur..ro"…

(2 be com tino, Ed)

Anne T. Culture pela pena de MJM e Conde-Lírios, in “A Lêndea de Urrei Arthur e outros contos pa Camelotes”

Publicado por mjm • às 09:10 PM • Categoria: Prosa blábláblá (16) •

:: Quinta-feira, Julho 21, 2005

Bichos novos


by Penelope

| arte poética
esquece tudo muitas vezes.
depois, lembra-te.| jms

Vogamos pelo impossível e aí construímos a casa. Quando nos encontram, estranham os nossos gestos - desformatámos o óbvio e isso ancilosa-lhes a compreensão. Usamos um léxico comum mas é impossível que nos entendam! Só nos câmbios quotidianos nos parecemos todos e, se usamos os músculos do rosto para esboçar sorrisos, não é para que nos acolham, mas para que não nos escorracem. Se não guerreamos até nos vencer o cansaço, é para usufruir a paz dos néscios! Cruzamo-nos nos mesmos espaços e partilhamos os corpos, o sebo, a garupa do desejo - mas não a casa!
A nossa casa foi construída de despojamento. Anos e anos a deitar fora ensinamentos torpes, herdados pela repetição errónea de gerações porosas que absorveram as nódoas e as validaram como sinais particulares da identidade humana. Parecemo-nos imenso. Confundimo-nos na mole como tribalistas civilizados a catar ideais contrafeitos.
Quando descemos ao povoado, é para nos mesclarmos no anonimato e largarmos em pilhas no chão os monos que a outros servirão de corolário. A nós, atafulha-nos a casa!
- Cuspimos bolas de pêlo como os gatos, rasgaram-se asas no dorso das línguas e lambemos o areal porque o vemos verde. - Domesticámos o esquecimento, mas não a memória!

- Bichos novos, sim! Que estranheza aí encontram?
Já nos dói o azar. De vós, só queremos o riso; não mais o improviso das causas perdidas.

Publicado por mjm • às 04:59 PM • Categoria: Prosa blábláblá (12) •

:: Terça-feira, Julho 19, 2005

Vozes caóticas


by Penelope

intróito pretérito

Inúteis!
- Como elefantes sem dentes.

presente perpétuo

Não consigo dissipar a tristeza. Sobra-me, ainda assim, saber que nada me retrai. Excepto, talvez, a excepção. Essa, contrai-me.
Conjugo os verbos de movimento, e lembro-me que em Francês o passado composto se conjuga com o verbo être.
Qual é a vantagem de me demorar em códigos, de achar piada à tradução que me alerta para o facto de que être é simultaneamente ser e estar? Ou sorrir, por achar caricato que se possa rotular de passado composto um tempo verbal e que, para o fazer, se conjugue o auxiliar no presente?
Não consigo dissipar a tristeza. Posso, até mesmo, antecipá-la, diferi-la; dramatizá-la. Mas só me apetece conjugar o presente perpétuo, numa gramática perfeita.
Já nem sei se isto é tristeza; mas é constante. Parece um presente contínuo e gerundífica, a tristeza.

futuro imperfeito

Publicado por mjm • às 05:08 PM • Categoria: Prosa blábláblá (17) •

:: Domingo, Maio 15, 2005

Passajando rotinas


Variações à Papoila by Penelope, in Ferohormonas

Não me venham dizer que os limites se reconhecem por se ter inventado uma sinalética e por proliferarem cartazes normalizados perfeitamente decalcados sobre os rostos, porque Maria da Graça desconhece códigos e é regida pelo instinto que lhe veio das coisas terrenas e nem sabe que alguém as apelidou de realidade. Se sonha paraísos, ninguém lhos mostrou. Talvez a teia da imaginação seja isso: um intrincado de necessidades que passam a fronteira física - talvez por isso alguém um dia se aventurou num passeio maior do que a área do seu quintal e deu de caras com o universo.
O que é certo é que Maria da Graça sente os pregos retorcidos a rasgarem-lhe a pele dos sonhos e reconhece amarelecidas as manchas que cunham as lembranças, mas não a vontade. Não sabia muito bem porquê, nem se interrogava sobre isso; sabia apenas que em cada dia se levantava com o sol e que quando abotoava o último botão da camisa e erguia os braços na última volta do nó do lenço, enquanto os descia já os trazia eléctricos de vontade, tal um ciclo pela repetição, mas novinho em folha o gesto da navalha que corta pão e queijo e os leva instintivamente à boca. Aquela fome sem hora, que faz dos olhos boca e das mãos ceifeira que sega trigo, joio, tudo o que vem da terra e dos bichos à volta. Uma fome sôfrega que desperta a saliva e abre directo o caminho entre dentes e estômago e todo o âmago se transforma num infindável aparelho digestivo e voraz.
Numa dessas tardes soalheiras, àquela hora entre o turno do chão lavado e a loiça a secar no escorredor, e o do migar das couves para a refeição da noite, passajava trapos, entretendo mãos e pensamento - não necessariamente por esta ordem -, quando num ímpeto irreprimível se levantou e se lançou a correr pátio afora. Só parou quando pernas e fôlego lhe negaram outra distância e espojou-se. Terra vermelha, pólen, restolho; a terra toda num turbilhão dentro dela. Ali deitada, sob um céu azul enorme, subitamente rasgado pela estridência da sua imensa gargalhada.
Estremeceu a terra toda, na tarde em que Maria da Graça vomitou papoilas.

Publicado por mjm • às 04:38 PM • Categoria: Prosa blábláblá (6) •

:: Quarta-feira, Maio 04, 2005

Talvez te invente


Misha Gordin

Talvez te invente para não sucumbir ao olhar dos dias. Mas nasces na memória que se abre à noite e por isso vogas sem limites. Se te roubar à tua existência e te trouxer para este plano sem barreiras, saberás crescer comigo? Se te arrancar as ervas do peito e te mostrar este plano entre a prosa e a poesia, crescem jasmins? Faltam jasmins dentro das sombras arcaicas dessa existência, não sentes isso? Talvez te invente, sim, e me agradeças por te permitir reclassificar a devastação dessa existência. Repara, não nos quero juntas, mas lado a lado, a aproveitar os relampejos que somam a sombra e a luz. No artifício do inseparável, a revelação a queimar pupilas, era isso. Isso, e os jasmins. Um punhado de minúsculas flores a transfigurar a inexpressão do teu rosto, se as deixasses colar-se oleosas na pele, naquele instante exacto em que se cega e só se vê jasmins!… Não te prendas à geografia das coisas! Deixa-as vogar entre si, se trespassarem, amalgamarem, roubarem identidades; brincar aleatoriamente. Os teus rituais estão cansados de contar estrelas, e nem sequer são as mesmas, não vês?
Talvez te invente, e ainda hoje se dê o prodígio de seres feliz.

Publicado por mjm • às 10:25 PM • Categoria: Prosa blábláblá (16) •

:: Sexta-feira, Abril 22, 2005

Não é fácil morrer com método - V


Face It by artofgold

Não se prescreviam lobotomias para casos limite daquele tipo. Isabel, revolvendo ponderações, não conseguia vislumbrar em que pontos viciados se detivera, em que intrincados meandros se tinha enleado; apenas sabia que não queria para si aquele estado alienado de profusão de humores instáveis que faziam antever a loucura.

As árvores da minha infância
Exibiam uma profusão de pássaros
Que nunca mais alcancei
Havia uma asa que os lembrava
Quando da primeira vez te encontrei
Quis retrazer esses pássaros
Pousei na árvore e tombei

O limiar da dor, quando ultrapassado, despoletava em cadeia reacções ilógicas com laivos de sobrevivência. Fremiam nela as oscilações instáveis da desistência. Prometia-se controlá-las, mas sentia-se incapaz. Os contratos que se tinha contraído eram desonrados vezes demais. O tempo, aparentemente ganho com os seus discorreres lógicos, caíam no segundo exacto em que dele chegavam notícias. Ele transformara-se no magnete que atraía todos os elementos da sua vida - «O amor derrama-se em tudo, enquanto o amor tudo derrama.». Parecia que tudo voltava ao início; que em cada novo momento se renovava uma esperança, mas intuía saber que aquele era um amor gorado, sem o eco que o amor pedia.
Era desumano viver assim. Estava cansada. De si, do mundo, do mundo dentro de si.
«Às vezes, fazem-nos viajar no tempo. Outras vezes, apenas nos perdemos nele.»

...

Conferiu as velas; acendeu-as. Tinham chegado as flores; dispô-las. Olhou o relógio de parede e deixou cair o olhar sobre o relógio da lareira no momento preciso em que os ponteiros se sincronizavam. Acabara de matar o Amor.

Publicado por mjm • às 07:15 PM • Categoria: Prosa blábláblá (7) •

:: Quinta-feira, Abril 21, 2005

Não é fácil morrer com método - IV


Looking Out by artofgold

Alguns bocados de madre-pérola tinham caído e os embutidos, que formavam uma geometria floral, lembravam aqueles sorrisos das crianças na idade cómica da muda dos dentes. Os bordos da tampa eram polidos, num redondo onde apetecia demorar o indicador direito, repetindo o gesto, como quem enrola uma melena de cabelos e depois deixa que se desencaracole, lentamente, deslizando suave por entre os dedos. Abriu a caixa muito devagar, para poder absorver aquele aroma do cedro.
«Minha querida,
Não prometo mandar-te esta carta de França, mas o que eu te tinha prometido era escrever de França, e o que é prometido é devido. Mas nem sequer é por dever que te escrevo; escrevo-te pelo puro prazer de estar contigo, ainda que separados por quase dois milhares de quilómetros.»
Descansar os olhos sobre a pele de uma carta era como atirar-se sobre um fofo edredão de penúgem e deixar o corpo embutir-se. Pegara na caixa porque lhe apetecia recriar as sensações que tinha ao lê-lo. Já não sabia distinguir se era a ele que amava, se ao que sentia quando o lia.
Anulava-se a distância por se evocar uma presença? A ausência era mais espessa quando o evocava, logo, nenhuma evocação equivaleria a uma presença. Que ilusão, recriar o espaço e viver dele! A imaginação construía imagens mas não conseguia trazer os objectos. Uma carta era um meio de viajar e de encurtar distâncias. Mas não supria a falta.
«(...) No fundo, isso inscreve-se plenamente nas minhas preocupações centrais: saber o que é o bem e o que é o mal; saber - ou procurar determinar - o que é uma vida humana e, sobretudo, o que é uma vida humana que mereça a pena ser vivida. E nisso tenho gasto a minha própria vida. É uma busca, às vezes insana, mas que vale a pena realizar.»
Guardara naquela caixa todas as cartas que ele lhe enviara, e relia-as a tempos; já quase as sabia de cor. Era através daqueles pedaços de escrita que conseguia provar a si própria que não o criara; que existia, que lhe escrevia, que lhe relatava sobre a sua presença no mundo e isso era dar provas de existência. Quanto ao local de onde lhe pudesse escrever, era-lhe indiferente. Tanto podia estar em França, como na Nova Zelândia, como em Lisboa, que a proximidade não diminuía o espaço que os separava. Isabel já o tinha alojado na sua cabeça. Era aí que ele habitava.
«(...) Assim se passaram… dias no país que foi, no seu tempo, o centro do mundo civilizado.
(...) P.S. - Descobri uma trilogia de um tipo que se chama Jean-Claude Guillebaud. Estou a ler o primeiro livro, que se chama La Tyrannie du Plaisir. Daí te mando esta pérola para reflexão:
“Le commerce avec la mort serai l’ultime aphrodisiaque de nos sociétés aux désirs éteints"»

Publicado por mjm • às 06:09 PM • Categoria: Prosa blábláblá (9) •

:: Quarta-feira, Abril 20, 2005

Não é fácil morrer com método - III


Leafless by artofgold

Já não provinham do acaso, os sentimentos que agora a possuíam. Outrora, quando eram imortais, todos os corpos, todas as pessoas, todos os ideais lhes pertenciam e não havia lugar a dúvidas. Podiam amar o amor errado, que o tempo estaria do seu lado. Sobravam horas inertes, e podiam ocupá-las sem objectivo e sem traçados estudados, pois não conheciam o valor do tempo nem da perda. Irreflectidamente, outro dia viria e logo a seguir outro, atrás de outro, era certo; muito tempo para remendar o tempo, os ideais e a procura.  Agora, cada sentimento tinha cadastro. Desde que se tornaram mortais que se revalorizara o tempo, os ideais e os sentimentos.
Quando tentava perfilar a biografia da memória, era com espanto que verificava não conseguir reconstruir diacronicamente eventos passados. As recordações tinham-se agrupado de forma quase estanque, como se não fosse possível encadeá-las num curso lógico, ou como se a sua vida tivesse sido construída aos supetões e não linearmente.
Por exemplo, recordava de forma vívida aquele período da sua infância onde guardara o cheiro da areia negra, aquela areia que misturava a praia e a mata e que deixava as mãos tingidas entre os dedos.
«Ai, rapariga! Cheiras a maltês! O que é que andaram a fazer, que os fui chamar e não os vi? Onde é que se meteram? Andaram outra vez a desenterrar pinhões e a trepar às árvores?» A avó Joaquina brandia o poder de guardiã num tom peremptório, mas que não intimidava, já que os seus olhos não condiziam com o que inflectia pela voz de mando. Era fácil. Bastava corar ligeiramente enquanto lentamente se baixava a cabeça e se descia o olhar pela sua figura esguia e seca, de vestes sempre pardas, entre o preto e o cinzento, e deixar-se permanecer num silêncio respeitoso e envergonhado. Ela entenderia que o seu poder tinha sido acatado, que aqueles eram meninos travessos mas obedientes. Era quanto bastava para renovar a desculpa: «Foi só desta vez».
Agora, repetia-se esse ritual perante tudo. O perdão decorria do bom desempenho daqueles gestos tantas vezes ensaiados e experimentados, como se o essencial fora mecanizá-los e a eles recorrer em situações análogas. A previsibilidade era um jogo em que cada um tomava a sua vez. Errar um gesto era desequilibrar uma história, alterar-lhe abruptamente as regras e desafiar-lhe os preceitos. Serviu-se muitas vezes desses ensinamentos, adaptando-os às mais diversas situações. Não interferira na conduta alheia; não era da sua natureza alterar um jogo, se iniciado tacitamente. Entendia quando lhe dirigiam algum «Foi só desta vez» e cumpria a sua parte da mentira ao fazer transparecer que os aceitava. Não era apenas para obter uma paz que a tranquilizasse, mas para não lograr o desempenho do outro no jogo.
Errara. Ao alimentar uma linguagem que não era a sua, ao invés do equilíbrio, desmoronara-se interiormente. Pegava agora em cacos soltos, mirava-os e meditava. Quantas vezes lhe teriam dito: «Foi só desta vez»?

Publicado por mjm • às 05:39 PM • Categoria: Prosa blábláblá (6) •



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