baby lónia

[a poesia habita quem não tem morada]

:: Quinta-feira, Maio 22, 2008

s/título


windwriting by Robert and Shana ParkeHarrison



Não há objecto que fale por mim
Em contrapartida
sou objecto da minha fala
Adorno o espaço que o meu silêncio sempre ocupa
Na decadência da luz
qualquer sombra nos absorve


Publicado por mjm • às 12:40 AM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Quarta-feira, Maio 21, 2008

labirinto


by Josh Sommers


| os que produzem obras geniais não são aqueles que vivem no meio mais delicado (…) pois o génio consiste no poder reflector e não na qualidade intrínseca do espaço reflectido | Marcel Proust


Depois de decifrado
o labirinto
enrolei metros de recta
para descobrir que
deliciosos
eram os ângulos!…
Então
divertida
como criança
que seriamente brinca
devolvi-a à sua real importância
: reintegrei-a
num labirinto
. E repousei
a contemplar a obra reparada.

Publicado por mjm • às 12:49 AM • Categoria: Poesia blábláblá (1) •

:: Sábado, Maio 17, 2008

.deslocalização.



The Eastern Garden (1980) by Olivia Parker


                          nenhuma urgência no mundo
                  depende de
                              um poema

                          nenhuma urgência no mundo
                  é já por si
                              um poema



| Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma - variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca - que pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver, um pouco de lugar ao sol e ao ar e ao menos o sonho de que há paz do lado de lá dos montes. |
Fernando Pessoa, in ‘Livro do Desassossego’

Publicado por mjm • às 12:30 PM • Categoria: Poesia blábláblá (3) •

:: Quarta-feira, Maio 14, 2008

desejo suave


light veil by r.e.

| Todos os desejos são contraditórios (...)
Infelizes os seres a quem o cansaço subtrai esta energia suplementar que é a fonte do desejo.
Infeliz, também, aquele a quem o desejo cega.
É preciso arrastar o desejo até ao eixo dos pólos. |
Simone Weil, in ‘A Gravidade e a Graça’


experimento a barbárie
de um desejo suave
há nele uma superioridade
de dedos supérfluos

se a escrita desliza fica por conta própria
qual líquido escorrendo
a desaguar na memória dos dias

no mais
é sempre a morte a repetir-se
a incendiar as cinzas
ao espólio do pensamento

Publicado por mjm • às 08:41 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Terça-feira, Maio 13, 2008

olhar para trás


coloured pearls by r.e.

| toda a beleza conjugada no passado
dói. é de lei. por isso é que
todos os poemas felizes mentem |
pedro jordão


Não estavam já ali. Talvez
    a ausência
os tivesse chamado para outros lugares
para outros pomares. Talvez
    a memória
essa arrecadação de polpas
    do paraíso
os tenha atraído à maçã primordial.


Publicado por mjm • às 12:15 AM • Categoria: Poesia blábláblá (1) •

:: Sábado, Maio 10, 2008

ó poeta estranho



by Brad Holland


| O texto é a única forma de identificar o sexo e a humanidade de alguém porque, ó poeta estranho, o sexo de alguém, é a sua narrativa. A sua, ou a que o texto conta, no seu lugar. Assim o sexo será como for o lugar do texto.

Quando se deseja alguém, como tu desejas Infausta, e ela deseja Johann, é o
seu lugar cénico que se deseja,
os gestos do texto que descreve no espaço
e chamar-lhe
precioso companheiro;
de mim, direi que fui uma vez enviado,
trouxeste a frase que nunca antes leras,
o meu corpo a disse, e não reparaste que ficaste com ela escrita. |

( Lisboaleipzig 2) Maria Gabriela Llansol


Não. Não me vejas só
por mim. Nem só. De mim
um crânio sobrará. E ossos. Como
os que quando escrevo
vou quebrando. O crânio
por duro
inteiro se observará
não tanto quanto só quebrando
o escrevo. Não. Nem só.
Deste ser que escreve nem um só
osso eu conheço. Mas sinto-lhe a carne
e quebro-me quando
a cada frase escrita
se solta um osso. O crânio
me dita ao doer nele a ossada
de cada palavra mais ousada.
No mais
estou só. Em mim sem corpo.
Na escrita entrecruzada.

Publicado por mjm • às 11:58 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Sexta-feira, Maio 09, 2008

o.r.d.e.n.a.r



desert rose by Ofelia Pagani


| ... É compreensível que um engenheiro se entregue à sua especialidade, em vez de se perder na liberdade e na vastidão do mundo; pois ninguém lhe pede que transfira a ousadia e a novidade da alma da sua técnica para a sua alma privada, tal como não se espera de uma máquina que aplique a si própria o cálculo infinitesimal sobre o qual se baseia. |
in O Homem Sem Qualidades, Robert Musil, pp. 71


Se categorizasse
cada único gesto teu
como te arrumaria?
Em inúmeras ordenações
sendo que a nenhuma pertencerias.
Ainda que me detenha
meticulosa
olhando uma única rosa
- escolho e recorro ao que o socorro
pertence a rosa - de entre as rosas
esqueceria a que é bravia.
Por isso esquece - deter-me-ei por algo em ão
como emoção ou até razão até esgotar o coração
de fantasia.
Sem argumento
esqueço o momento em que elegia
escolher falar-te. Pois
nada entendes de gente livre
nem de poesia.


Publicado por mjm • às 01:46 AM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Quinta-feira, Maio 08, 2008

a minha rua




há uma fiada de muros ao longo da minha rua
por onde os gatos caminham. de vez em quando
um hiato de portão. uma sebe
bem cortada espigada por flores teimosas.
um som de porta de carro
bate no silêncio e distrai-me os cotovelos
do parapeito da janela. o moderador da minha atenção
segue a fiada de muros ao longo da minha rua
e integra o hiato de um portão. um som de porta de casa
ecoa a batida anterior no silêncio e distrai-me dos cotovelos.
há uma fiada de parapeitos ao longo da minha sebe
bem cortada de gatos que caminham por flores teimosas.
a minha rua é uma janela espigada por onde
caminham os meus pensamentos porque
há um lar de vez em quando onde os gatos se detêm.



photos by Giacomo Costa

Publicado por mjm • às 12:49 PM • Categoria: Poesia blábláblá (1) •

:: Quarta-feira, Maio 07, 2008

anónimo acto



finalmente
tenho por profissão descrever
nada de importante. a vida suave e redonda
que nada altera e ninguém que agite
a quietude das horas certas.

a importância é morosa de artifícios árduos
sempre exigente por provas expiradas. compleição enxuta que
rescende a colónias como se por deuses
o labor sudasse. não. desta vez
há homens dentro desta história.

homens pequeninos da estatura de homens. de estrutura
mansa sem longas palavras. pensares em forma de
bifes no prato e prantos bravios com lágrimas e socos.
a mole anónima presta-se a enlaces
pois simples, folclóricos, do real fadado, têm
complexos minúsculos com anexos ralos.
nos sonhos pululam crianças que berram
brigas com fadigas de pais separados. esp’rança em medalhinha
em fio fino dourado faz pendant com as pérolas
no anel de noivado. o dia é uma rota ainda que enfadonho
e o clima suporta queixa e desconsolo.

não. nesta história houve homens de perfil bem sério. mais alma que corpo
que o coração é que manda. sabe-se lá se choram
sabe-se lá porque amam. quem faz perguntas
vive pouco o plano e se se explica há por certo engano.

finalmente
integram o que é importante. transpiram
subúrbio. obedecem a um amo.


photos by Lois Greenfield


Publicado por mjm • às 11:55 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Terça-feira, Maio 06, 2008

inumano

a atenção
para a frente se redige - o pescoço hirto -

nenhum fascínio
a redirige. a lua - um disco plano - imóvel
poalha de poemas - sobra

        há uma hérnia nos dedos
        há uma catarata na íris
        há um homem a mais - que soçobra -


e um prisma invertido
divertido com antigos medos



by M. C. Escher

| Não podemos mesmo deixar de nos surpreender ao ver a tranquilidade, a resignação e mesmo o secreto alívio com que os humanos concordaram com o seu próprio desaparecimento.
Rompemos o laço filial que nos ligava à humanidade e passámos a viver. Para que toda a gente possa ver, vivemos felizes. O que era inultrapassável para os homens, as forças negativas do egoísmo, da crueldade e da cólera, já não existe para nós. Pode dizer-se que vivemos uma vida completamente diferente. A ciência e a arte continuam a existir na nossa sociedade, mas a procura da Verdade e do Belo, menos estimulada pelo aguilhão da vaidade pessoal, adquiriu um carácter menos urgente. Para os humanos da antiga raça, o nosso mundo parece o paraíso. Por vezes acontece que cheguemos a qualificar-nos a nós próprios - de uma forma, pode dizer-se, um pouco brincalhona - como «deuses», essa palavra tão cheia de ecos para os humanos. |
in ‘As Partículas Elementares’, Michel Houellebecq


Publicado por mjm • às 12:35 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Segunda-feira, Maio 05, 2008

papel memória

| O tempo que passa não passa depressa.
O que passa depressa é o tempo que passou.
| Vergílio Ferreira



[ in this site ]


| A esperança, sempre adiada, de um relacionamento mais humano e mais completo nunca desaparece completamente, porque nenhuma relação humana se contenta com limites definitivos, restritos e rígidos. Permanece, portanto, a esperança, de que haja um dia uma relação «autêntica e profunda». E permanece durante anos, até mesmo décadas, até que um acontecimento definitivo e brutal (em geral, uma coisa como a morte) vem dizer-nos que é demasiado tarde, que essa «relação autêntica e profunda», cuja imagem tínhamos amado, também não existirá; não existirá, tal como as outras.|
in ‘As Partículas Elementares’, Michel Houellebecq


não sei porque não se escreve a luz
que cada um emana

se cada indelével
raio
única assinatura
traz nos caracteres inscrita
a criatura

(porque se impressiona
no papel memória
o panning da amargura?)

Publicado por mjm • às 11:58 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Domingo, Maio 04, 2008

Tu és o outro


A Reasonable Argument (1980) by Olivia Parker


| A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver.
Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar. |
Fernando Pessoa in ‘Livro do Desassossego’


Tu és o outro
-- que outros outros despedaço --
Em ti não quero fímbria de remorso!

Regaço aberto
-- que outro novo abraço --
Em mim só fogo bravo e sempre moço!

Enquanto assim escorrer de mim
o tempo—lasso o laço—
Solto o brado e lanço o braço!



Nenhum recado o amante eleva
além do muito querer—depois não querer—
Perde o outro em si se a si se nega!


Publicado por mjm • às 01:38 AM • Categoria: Poesia blábláblá (1) •

:: Sexta-feira, Maio 02, 2008

in.satisfação


Possibility (1979) by Olivia Parker

| desafio duas impossibilidades:
despertar a tua fantasia ou
adormecer a minha
| mjm


como se todas as cordas vibrassem
em uníssono
o mesmo silêncio. esgaça-se a mão
que o tange.
         a tua boca
a tua boca
timbra o som de todas as linguagens
que de longe te trouxe. são as mesmas
que nunca conheceste. o indivisível
plural.
             | as primeiras
de entre as mesmas. se repetidas são
inaudíveis reverberam. |
     evoca nome nenhum. nenhum nome toca
a emoção denunciada.
inominável segue.
             | o silêncio é o encontro de quem se acha. |
pingam palavras, da tua boca
     da tua boca
         o suco inevitável. ainda assim
nenhuma sede significando sede
será saciada.
             | sobre essa boca. esta outra
boca há-de ecoar numa linguagem
inusitada. |


Publicado por mjm • às 01:18 AM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Quinta-feira, Maio 01, 2008

fantasia


by Robert & Shana ParkeHarrison

[ Zona das metáforas

Estou só, na zona das metáforas
(que é todo o pensamento),
em nenhum resíduo nada exprimo
(mas sempre metaforizo).

Não sinto a solidão total
dos poemas, talvez grutas,
o mar quieto, nem silêncio.
Apenas espero o outro,
um amor esplêndido,
alheio e desejável.

Fiama Hasse Pais Brandão ]


é intrigante
a fantasia.
achar o motivo
para entender
parece ser o nosso ofício.
mas é mania

[
corre o vento.
quando ele não corre
acaso dizemos
: pára o vento
?
]

deve ser mania
imaginar o vento
em eterna correria

Publicado por mjm • às 01:15 AM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Quarta-feira, Abril 30, 2008

O segredo dos dias


by Lilya Cornely

[ Zona das metáforas

Estou só, na zona das metáforas
(que é todo o pensamento),
em nenhum resíduo nada exprimo
(mas sempre metaforizo).
Não sinto a solidão total
dos poemas, talvez grutas,
o mar quieto, nem silêncio.

Apenas espero o outro,
um amor esplêndido,
alheio e desejável.

Fiama Hasse Pais Brandão ]

No redemoinho da roda
dos dias. Sem o teu olhar
definharia. Por isso me dependuro dos segredos
que tecemos. A cada dia.
Se as almas se desmanchassem
- diz-me tu – em que taças as recolheríamos?
Nas dos olhos com que vemos
por dentro
os dias que fantasiamos – dirias -. A taça
cheia. De nós connosco dentro. Dos olhos.
Com que nos vemos
a inventar dias felizes.
No redemoinho dos olhos. A cada dia.
Tecemos almas
dependuradas nos segredos
dos dias. Felizes.


Publicado por mjm • às 01:45 AM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •



Página 2 de 14 Páginas
 <  1 2 3 4 >  Último »