Conta-me uma história, vá lá!
Como aquela que começa por “Era uma vez uma cabrinha...” e que nunca consegui saber como terminava. Porque de cada vez que te pedia que ma contasses, esquecias qual o fim que lhe tinhas dado e eu protestava e dizia “- Não é assim!”. Então, engasgavas e recomeçavas o ”Era uma vez uma cabrinha...”
Muitas vezes a contaste; muitas vezes precisei de a ouvir. Porque era da tua voz que precisava – como agora. A tua voz doce, doce, a falar-me de mundos distantes, cheios de estranhas magias. A preencher-me o imaginário de esperança, de vontade de me ver lá, nesse prado verdejante, a saber da história da cabrinha que tinha uma perna presa por uma corda, e eu, amarrada também à corda da história da cabrinha.
Que a criança não cresceu. Continua com vontade de encher o imaginário de esperança – mesmo que a tua voz tenha mudado, mesmo que a cabrinha se tenha soltado; porque eu continuo a ter vontade de me ver lá, nesse prado verdejante e saber que novos finais imaginaste para a cabrinha, que tinha uma perna presa por uma corda, e eu, amarrada também à corda da história da cabrinha.
| Insistir em sóis poentes que adormecem flácidos
É negar auroras fartas no baixar dos braços | mjm
Silêncio
Experimento
nada dizer.
Talvez assim
o brilho não fira
a ave seja só bicho
e o mar uma tina de água.
Todas as coisas
aquietadas.
Só coisas
geometrizadas.
Nem um fonema
por mim perpasse.
E eu
descanse.
Inerciar
.
Não há poesia.
.
Não há ponte.
.
Nem estrela a querer ser onda.
.
Nem sintaxe que me devolva.
.
Dentro não tem litoral.
.
Não há céu.
.
Nem temporal.
.
Deitando
Deito as palavras.
Quero que descansem.
Deito-me nas palavras.
Canso-me.
Queria-me palavra em descanso.
Deita-me.
| Ficam as palavras
sem tecto, a fazer tecto sobre
as minhas mãos no teu corpo |
mjm
[Photos by Misha Gordin
(top) Siege
(bottom) Mental Door]
by Rodney Smith
Instinto
Lá do alto
olha-me o falcão
em voos curvilíneos.
No instinto dele
sabe
que me pega;
No meu instinto
sei
que não me agarra.
Quanto de nós
pensa saber
o instinto
de quem nos observa?
Ser do ser um ente
Ser do ser um ente
Entre tantos
Sem saber
Com os anos
O que dizer
Sem voltar ao antes
Faz do dizer
Um modo antigo
De ter sido
Mas não é
Nem por instantes
O ser
O que havia de ser
estatura
a cada qual a sua estatura
nem mais nem menos
do que o tamanho
do seu pensamento
assim
se nivelasse
as palavras que não leio
as palavras que não escrevo
as palavras que não lendo nem escrevendo
existem
porém fora do meu pensamento
a imensa planície
seria o terreiro lavado pelas chuvas
o raiar do dia nascido das brumas
assim
penso e não percebo
nem as palavras
nem o tamanho
porque
as que penso estão fora
e se
estando fora existem
não sei pensar nem na chuva
nem no terreiro
nem no sol a nenhuma altura
assim é a minha estatura
Amputações latentes
Descrês dos teus próprios
pensamentos e o clamor
não pára de vociferar por dentro.
Crê-los dissonantes
das verdades corrigidas
que circulam em panfletos,
a negarem a luz dos fósforos que riscas
no breu do silêncio. Não confiras
inventários! Mede a capacidade
incomensurável, mas não te percas
a validá-la pelos que chegaram antes e viram
o depois, antes de ter sido tempo.
A circunstância mede a pegada
não a distância.
Entre os teus passos
e os meus,
ninguém reclama o firmamento.
Se fremem gritos são do futuro
no esconjuro do seu próprio chamamento.
| - ah a imensidão da gente que se crê pertença
se consola e se agasalha
com tão fraco sol de pão migalha - | mjm
Nada ter para tudo ter
Não conquistar
É árduo. Exige paciência.
Saquear. Outro vício da pan-querença.
Nada ter para tudo ter
É tão difícil
Que ter apenas o ensejo
É ter já conquistado
E saqueado a essência.
Despojado do haver
Talvez o ser nos devolva a competência
De querer não querer.
Antes se achar sem procurar
Alienar no sedimento da carência.
Sorvo breve
Não é nossa
a casa.
Nem dos corpos
somos donos.
Não há, por isso, nem
posse, nem abandono.
O que nos capta
é memória
Pela passagem, o
tempo empregue
E quem se
usa, acrescenta
Não abusa, reduz ou
tira para além do
Sorvo breve.
Circunstância
Pouco importa
Se a lua se derrama sobre
As coisas
Ou se os peixes da memória
Formam correntes
Somos esta circunstância
Um quase nada
Um hiato na linguagem
Um átomo a mais nesta paisagem
Uma viagem sem regresso
Um esquecimento
Liquidamando
Deviam ensinar-nos o nomadismo
da água. Sabes, a água não tem casa;
só caminho. A água perde pedaços, quando desenforma
dos leitos. Há um não sei quê de clandestino e
inato que a água teima em transportar, mas que
não vemos. A nossa água toda liquefaz-se aprisionada
na casa do corpo. Faz puxar ao corpo um
outro corpo; um corpo leito. Sedentariza
nas veias, depois; e nós sem vermos. Tem que haver
muitos olhos de água no amor; a água nómada
a escorrer-nos sobre o peito. A água nómada a nascer-
-nos sob o peito.
[paintings by Brad Holland]
by TCA
suco lento
Acho que amadureci / No pretexto de te espremer os lábios.
Sei agora que a boca / É um contexto para fermentar o mosto
De cada um e todos / Esses frutos, vários.
anoitecem diurnas cidades
dobro as palavras
como quem espreme lábios
que pingam beijos
mas que não saciam
nem gastam desejos
fecho-me os olhos
e os ícones elásticos
espreguiçam-se
e escorrem como óleos
langorosos
empastando-me os poros
anoitecem cidades
cada beijo põe uma luz em cada beijo
a alvorar insaciedades
fica-se assim
colado no avesso dos olhos
onde as imagens recriam o que não vejo
a orgasmar pelas vielas do desejo
Indistante
A fazer esquina com os sentidos
A dar sentido a todas as esquinas
A aglutinar o inabraçável
Tu!
À distância de um toque num sonho indistante
O meu instante de romeira de abraços
A pendurar sentidos nas minhas esquinas de pregos flácidos
Eu!
Sem sentido que dê sentido ao exacto
A engolir sonhos dum trago
Que o sentido com sentido não faz sentido
E o consentido é regurgitar actos inexactos
Tu?
Derramado no sonho indistante
No meu instante de abraços
No limite da palavra
não se chama boca
à boca
com que te beijo
nem beijo
ao que te ponho na boca
boca e beijo
são palavras desgastadas
do sentido dos sentidos
e se saliva
é desejo
o que te ponho na boca
equivoca o que em mim sinto
são sensações
desgarradas
e se tas dou
salivadas
espero que saibas
que sinto
não chamar boca
à boca
nem beijo
se esse beijo
nascer na boca onde minto
para objectivar
pela palavra
nunca serve uma usada
ficam
boca e beijo
pelo desejo
como presos
boca e beijo
no limite da palavra
A pena
Eu bem me invento
Adornada de silêncio
Só levemente
Humanecida - é bem verdade
Adivinhavas
Lentamente essa vontade
Sem palavras
Apenas beijos no teu corpo?
Não digo tudo
Quando não te digo nada
Nem me extravio
Se no teu peito derramada
Me digo inteira
O meu poema
Escreve com a boca no teu corpo
E eu calo a pena
- a verdadeira
Aos pares
Morre-se aos pares
Faz mais sentido
Perder-se em labirintos
De umbigo
É só depois
mental thing
a elasticidade com que te deixo existir
retrai-te
é a alma
a meter a matriz do medo
dentro da pele
almografia
quando o que escrever me leia serei não ser que peleia em cada letra escassa
almografia em metáfora desformatada vazia
um ser ser que se volatiliza do registo sem letra sem poesia a ler me a escrita
a ler me escrita
-la
pegar
num traço
de alma
espremê
-la e esquartejá
-la
mostrá
-la num poema
e depois rasgá
-la
Adlábios
os meus lábios
Advérbios
Adlábios
os teus verbos
[Nenhuma gramática funciona]
de.mim.go
é só
domingo
dor
em mim
minguo
só
.
é
domingo
só
de mim
mingua
a dor
é só
.
Dialéctica
Passa a mão / solta e espalha / o verso sobre a pele
Sob a pele do verso / passa o resto que o espalha e / solta a mão
[photos by Lois Greenfield]
| cinturar o eixo ao pensamento é amestrá-lo e proibir a pérola à areia nas ostras | mjm
talvez
no nada dizer se diz
o sim e o não, talvez
que o silêncio
urde enormes catedrais
magnete de peregrinas dúvidas
dízimo sempre adiado
como o vinho dentro das uvas
A pena da poesia
convicta
que o amor e a agonia
são frente e verso
esconde-se atrás do poema
a pena
escreve mágoa e alegria
dobra-se à dor
de um amor estranho
à luz do dia
milhentos versos
o constroem
existe e cresce em despudor
indiferente
aos olhos de quem o guia
usa da dor o mote
não da alegria
exerce o preconceito
mostra do peito
essa agonia
sustendo a pena
a pena da poesia
enaltece a dor mais do que devia
Inverter a lógica
só os gemidos Do Corpo nos acordam
e adivinham cisnes aqui perto
que o Saber de nada serve neste infinito
breve e inteiro
em que as garras da abundância nos devoram
em que os cristais brilham sem ter lume
rasos de água
levitam poços no deserto
só a palavra
pode inventar O Silêncio Provisório
dentro do búzio
o mar é vocábulo que se equivoca
e o verbo é boca
a trepar rente à planície do lúcido
Não quero então sonhar. Nem.
Lá vai a imaginação percorrer
em círculos as fronteiras do verbo.
Reduz-se o pensamento à medida das palavras.
Percebes agora porque te não digo?
Se digo a necessidade falta o horizonte
Se digo tempestade falta o tempo do corisco
Por isso têm plumas as flores
E são azuis os veios das pedras
E as aves não podem ser pássaros poisados mas a voar.
Se te trago enganadas as cores dos meus objectos
Como te poderei as formas dos meus sonhos trazer inteiras
Se só posso sonhar o verbo dentro das fronteiras?
Não quero então sonhar. Nem dizer. Então. Nem.
Transvio palavras mas são esquálidos retratos que lembram imagens de falácias
E não me agarras se me perco
Tanto quanto me não perco nessas garras de ninguém.
Não me servem as palavras nem os sons nem as imagens
Se dentro delas não correr o vento dos avessos do pensamento.
Desumanizo no descalabro das cigarras
Se te disser velocidades fragmentadas
Como passeios à beira-mente
E ainda me sento cansada de dizer nada que te acrescente.
Os pássaros voam pelos veios azuis das pedras até às plumas das flores.
Mas ficam presos dentro das fronteiras do verbo
Num exercício geométrico de pavores.
Não quero então sonhar. Nem dizer. Então. Nem.
Há-de haver algum lugar além-palavra onde aguardar a primeira palavra-além.
Dizer caminho
Dizer caminho
É já sair do espaço.
Trilhar palavras
Que o tempo produz.
E a penumbra aloja-se inteira
Descansando imersa
Numa esteira de luz.
Intocar
Liberto as palavras quando
não lhes toco.
Sempre.
As agrafadas inibem
o uso
de outras. As intangíveis.
As que não escrevo não existem.
São imensas. Porque não existem.
Mas é nessas que a pontilha metálica franja
as que quero possuir.
O espaço em que o agrafo se dobra em arco e enforma
abdómen de
ponte suspensa sobre a água corrente.
É o lugar onde
se realiza o binómio da palavra.
É no vácuo
translúcido e impalpável
em que o arco se suspende
que sou tocada.
Ou seria
ponte suspensa sobre a água corrente.
Mas esse ser não é o meu.
Esse é o ser da palavra tocada.
Atrás do infinito alojam-se
sem tecto
as palavras que desconhecem
o meu tacto.
São as que não escrevendo evoco.
Livres de maltrato
e eu nelas suspensa
em arco.
Tudo o mais são frases ou
aquedutos fossilizados.
Que transportam o mesmo.
Mas nunca o vácuo que adormece entre a
ponte suspensa sobre a água corrente.
rosa inicial
escrever sem risco
riscando riscos perceptíveis
é dizer nada e sublinhá-lo
fica o material no éter
a deleitar os olhos
adormecer é ser feliz
*
pegue-se numa rosa
encanto imediato – símbolo garantido, sucesso adivinhado
mas
melam as pétalas, esvai-se o aroma – fenece o gesto que se queria prolongado
a rosa roça aquele bem imediato
inala-se rosa num percurso de nariz, olhos – um tacto
decepe-se corola, cor – faça-se um trato
dizer da rosa apenas caule, seiva – ler-se a raiz
risque-se puro nesse risco abstracto
o concreto do cheiro – não o olfacto
*
dizer tudo é dizer nada, só artefacto
sobra a rosa inicial de quem a diz
Renomear
quando as mãos não tocam
chamam-se fim de braço
quando a um braço se encosta um corpo
chama-se a esse braço cadeira
quando uma asa de pássaro não escreve nos lábios sorriso
boca é uma parte do rosto que se chama boca
de pouco serve a poesia que se explica
porque a poesia não serve; renomeia
observe-se se o falador
se cala ou se fala a dor de outra maneira
| (...) Espalmo o pensamento contra a vidraça / Uma estrela faria toda a diferença | mjm
A cerca de uma quizena de fazer dois anos de publicações, entre o baby lónia I e este II, e praticamente sem tempo para escrevinhar, pensei ir republicando alguns dos poemas que mais me deram gozo escrever.
em carne viva
experimenta
falar em carne viva
verás se tem nexo o teorema
quando a língua perde a memória
amar é um idioma que balbucio
e cada beijo erra um vocábulo
não sei
não quero amar
não sei
só sentimento
errando a pele
é dor bastante
e nascem estrelas nos olhos
que duram mais do que o instante
em que me perco
a pensar
que amar é bem
não quero ver
nem pensar
não sei
se é medo amar
me encolho
que se me encontro
sob o teu céu de desencontro
reclamo a luz
que o céu não tem
- e a sombra, eu sei
Acústica (II)
se te digo
amo-te
fica a verdade inacabada
pareço operativa de desejos
quando basta
no eco gutural
dos gemidos que me arrancas
conseguires ouvir-me
amo-te
e reverberar
no táctil cingir das ancas
Ama-se
Ama-se
É tudo
Razão rasante
A mirar o amor a amar
Escrevê-lo é minguar
Lê-lo é desgastante
Ama-se
É tudo
Do Coração
- A palavra latina que se identifica com o coração, a que nós damos funções que não são as do cérebro, pois ele faz o favor de fazer muito mais, a palavra latina é ‘cordis’, donde vem cordial – coração, afectuoso. Os Italianos, descendentes directos dos Romanos, chamaram-lhe ‘cuore’ e os Franceses ‘coeur’. Mas nem os Portugueses nem os Espanhóis caíram nessa, deram-lhe mais importância! Introduziram-lhe um aumentativo, porque ‘coeur’ deu em português ‘coração’, e em espanhol ‘corazón’, com uma acentuação nítida no aumentativo. Para se ver como isto é claro, perguntem-lhes o que é que fizeram de ‘cabeça’? Fizeram a palavra ‘cabeção’, que é uma coisa que não vale nada, é um simples acessório no vestuário. Ora, o coração é que é o polo a que as coisas se têm de referir, é o sentimento, é… mas ainda tem outra coisa, sabe? ‘Coeur’ no indo-europeu, tem a mesma raiz que a palavra ‘acreditar’ – ‘credere’ – portanto deu ‘crença’, ‘crer’, etc. Sabe-se perfeitamente que o coração não é guia para a matemática, que é uma matéria complexa, a não ser quando serve para resolver problemas práticos. (...) Porque parece que no mundo há uma porção de coisas que escapam à matemática! Bom, mas a paixão, o amor, são coisas que, quando existem, é difícil que existam.
- Acha que sim?
- Eu acho. Quando você me diz: “Gosto muito de quintas”, eu posso perguntar-lhe de imediato: “Tem alguma?” E você responde-me: “Tenho uma!” Então eu desconfio que isso não tem nada a ver com amor… É simplesmente lucro, é a comodidade, qualquer coisa do género… Se, por outro lado, você me diz: “Não tenho nenhuma quinta, nem quero!”, então aí já eu penso: “Este sabe o que é amar.” Como vê, são dois verbos distintos, o verbo ‘amar’ e o verbo ‘ter’; a posse destrói sempre o amor.
- Mas a paixão muitas vezes está associada à posse…
- Se tem a ver com a posse não é paixão.
Bom, mas vamos então à posse: se uma pessoa faz as coisas no mundo ‘por’, é uma coisa; se as pessoas fazem alguma coisa ‘para’, é diferente. (...) Deus criou ‘por’ (não ‘para’). O pintor que pinta para depois vender o quadro, pintou ‘para’. Quem ama, ama ‘por’, não há confusão possível com o verbo ‘ter’. Às vezes, é muito difícil viver bem com o ‘por’, porque o ‘para’ entra muito em conflito com o ‘por’.
In A ÚLTIMA CONVERSA AGOSTINHO DA SILVA, entrevista de Luís Machado, Notícias Editorial, Lisboa, 5ª ed., 1997
(reedição)
passiênsia
(...)
AS - Olhe, há uma porção de coisas passivas que nós muitas vezes não aceitamos como tal. Por exemplo, quando você me diz: a vida custa, portanto, é mesmo preciso paciência para ela, não é!? Muitas vezes acontecem contrariedades para as quais é preciso ‘paciência’, é por isso que eu digo que «paciência» se devia escrever tudo com «s», para mostrar como ela é passiva. Creio que, para aturar a vida presente, não é paciência que precisamos; o que é preciso é acreditarmos no futuro com entusiasmo…
in A ÚLTIMA CONVERSA AGOSTINHO DA SILVA, Entrevista de Luís Machado, Notícias Editorial, Lisboa, 5ª edição, 1997
(reedição)
A sombra só tem o tamanho do pé quando é pisada.
Arte na Sombra, Museu Telaviv
Para lá do que há se mostra o que é
O que é se esforça por parecer
No que há, detrito se apresenta
Descansa na espera de vir a poder
Ser visto para lá do ser
E ser o que parecer não pode
A imagem que se resolve
Projectada sem muro haver