by Mário Cruz
E de vez em quando é assim: vivo numa suspensão de tudo, de interesses, de leituras, de escrita. Possivelmente é um erro supor-se que um interesse, seja qual for, reside nisso mesmo em que se está interessado. Não está. Um interesse remete sempre para outro e outro, até ao interesse final que tem que ver com a própria vida, o motivo global que nos impulsiona. Há pelo menos que haver uma razão final e genérica para que as razões circunstanciais ou ocasionais tenham um efeito propulsor. Há que termos essa razão, mesmo inconsciente, para que todas as outras actuem em nós. E o que não acontece quando por exemplo dizemos que estamos sem interesse. Não nos apetece ler, não nos apetece escrever, não nos apetece ir ao cinema, ouvir música etc, quando falta uma razão global em que isso se inscreva. E então dizemos sumariamente isso mesmo: que não nos apetece. Se temos um grande desgosto, se estamos condenados por uma doença etc. justifica-se o desinteresse por essa razão. Significa isso que essa razão é o fundamento global que nos falhou para qualquer outro interesse subsistir. Os que superam esse estado são excepcionais, ou loucos ou de força de vontade ou obsessivos, o que tudo é um modo de dizer que se está fora dos limites normais. Hoje estou em dia de suspensão - venho-o estando, aliás, há já dias. Só não sei a razão fundamental para que seja assim. Vou pensar aplicadamente, a ver se sei.
ai o fantasiar perene
a manufacturar o teu rosto
enquanto tudo está a acontecer
não ter ilusões
deixar que mature o mosto
na ilusão de te reter
photos by Maggie Taylor
civilian defense II (1942) by Edward Weston
| As Grandes Histórias são aquelas que já ouvimos e queremos voltar a ouvir. Aquelas onde podemos entrar e morar confortavelmente. Que não nos surpreendem com o imprevisto. Sabemos como acabam, porém ouvimo-las como se não soubéssemos. Tal como, embora sabendo que um dia havemos de morrer, vivemos como se o não soubéssemos. Nas Grandes Histórias sabemos quem vive, quem morre, quem encontra o amor e quem não o encontra. E, contudo, queremos saber de novo. |
Arundhati Roy in ‘O Deus das Pequenas Coisas’
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Há dentro de mim
um punhado de palavras
que me espreitam
na ponta dos pés
a derramar silêncios
Há fora de mim
um punhado de silêncio
que me espreita
na ponta do lápis
a desenhar palavras
Entre-mim
há um universo
de indecisas palavras
desgovernadas pelo silêncio
Enquanto tudo isso acontece
enquanto o dentro e o fora são de mim
lugares que desconheço
esboroa-se o entre-mim
em palavras de silêncio
E é tudo o que acontece
E é um conhecimento imenso
prisioner by Misha Gordin
| Parece estranho, mas é verdade: os nossos sentimentos, as nossas vontades, e mesmo nós próprios ainda não estávamos inteiramente em nós. Mais estranho ainda seria eu dizer: ainda não nos tínhamos afastado suficientemente de nós próprios. | Robert Musil in ‘O Homem Sem Qualidades II’
não me quero
à mercê do que desconheço
pelo que conheço, já me custa
estar à mercê!
por mim já temo, se bem me conheço
por isso só subjugo
o que não entendo
quando não se vê