baby lónia

[a poesia habita quem não tem morada]

:: Sexta-feira, Maio 30, 2008

ser poeta


Mirror Women - Mirror Heads (1982) by Dalí


| Fazer poesia é como fazer amor: nunca se saberá se a própria alegria é compartilhada. |
Cesare Pavese


sai o verbo das gramáticas
quando lido
e ganha novos sentidos
como quando
destes dedos
a vontade se desprende
e a verbo rende
esbaforidos
cada um e todos
os mais recônditos sentidos
frase a frase
letra a letra
sem ponto ou vírgula que submeta
limite ou pausa
e ensaie sôfrego
o impulso solto
de pela escrita o escravizar
a uma vontade incontrolada
de ser palavra
a correr louca
pára se alcança o orgasmo
o espasmo
de ser poema em tua boca


Publicado por mjm • às 12:14 AM • Categoria: Poesia blábláblá (2) •

:: Quarta-feira, Maio 28, 2008

clonagem

manufacturas


Jelly Fish, Coney Island Aquarium, 2005 by MATTHEW PILLSBURY

| (...)
O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro.
Manufacturamos realidades.
| FP



incartografável
o homem
avulsamente polinizado
abandonando-se
das lágrimas
saiu de si
a nenhum sítio pertence
lugar algum o reclama

a geografia humana será mapeada
até que o sal a seque

Publicado por mjm • às 01:16 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Terça-feira, Maio 27, 2008

clonagem


Looking at the Corner, Tate Modern, London, 2007 by MATTHEW PILLSBURY



| A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado.
E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade.
O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro.
Manufacturamos realidades. |
Fernando Pessoa in ‘Livro do Desassossego’




a geografia humana será mapeada

________ incartografável ________

[
(o homem)
saiu de si
( ~ abandonando-se ~ )

a nenhum sítio pertence
lugar algum o reclama

( \ avulsamente polinizado )
]

até que o sal
( ~ das lágrimas ~ )
a seque

Publicado por mjm • às 11:45 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Sexta-feira, Maio 23, 2008

escrevo para pensar


Converging Territories #43, 2003 by Lalla Essaydi


diz-se que escrevo
para poder pensar mas
o que penso escrever escreve apenas
sem que diga o que penso e
o pensamento a descrever se faz

diz-se que digo da escrita
para poder dizer mas penso que escrevo apenas
sem que diga o que escrevo e
o pensamento ao dizer desfaz

se alguma coisa me prende
desprende-se o pensamento nela
e a escrita vai atrás dele sem nela mais se apegar
por isso escrevo por ela
por isso largo atrás dela pensamento escrita à vela
para dizer que se escrevo é apenas para pensar

diz-se que escrevo e não digo
penso o que escrevo e prossigo
se penso que o consigo duvido e volto ao mesmo lugar
nenhum pensamento é abrigo se a meta é escrever sem pensar

digo que escrevo e não penso
que a cada novo começo ela me foge ao pensar
escrever é mero pretexto de fazer de cada texto
um pensamento um lugar

Publicado por mjm • às 12:50 AM • Categoria: Poesia blábláblá (2) •

:: Quinta-feira, Maio 22, 2008

s/título


windwriting by Robert and Shana ParkeHarrison



Não há objecto que fale por mim
Em contrapartida
sou objecto da minha fala
Adorno o espaço que o meu silêncio sempre ocupa
Na decadência da luz
qualquer sombra nos absorve


Publicado por mjm • às 12:40 AM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Quarta-feira, Maio 21, 2008

labirinto


by Josh Sommers


| os que produzem obras geniais não são aqueles que vivem no meio mais delicado (…) pois o génio consiste no poder reflector e não na qualidade intrínseca do espaço reflectido | Marcel Proust


Depois de decifrado
o labirinto
enrolei metros de recta
para descobrir que
deliciosos
eram os ângulos!…
Então
divertida
como criança
que seriamente brinca
devolvi-a à sua real importância
: reintegrei-a
num labirinto
. E repousei
a contemplar a obra reparada.

Publicado por mjm • às 12:49 AM • Categoria: Poesia blábláblá (1) •

:: Sábado, Maio 17, 2008

.deslocalização.



The Eastern Garden (1980) by Olivia Parker


                          nenhuma urgência no mundo
                  depende de
                              um poema

                          nenhuma urgência no mundo
                  é já por si
                              um poema



| Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma - variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca - que pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver, um pouco de lugar ao sol e ao ar e ao menos o sonho de que há paz do lado de lá dos montes. |
Fernando Pessoa, in ‘Livro do Desassossego’

Publicado por mjm • às 12:30 PM • Categoria: Poesia blábláblá (3) •

:: Quinta-feira, Maio 15, 2008

nomear. Digo. cancro



    Houve aquela altura em que tive
    que o nomear. Não bastavam os sinais do corpo parado
do olhar a vogar longe de cada palavra proferida. A tua mão estendida mostrava o teu coração despido e sentia frio por ti
que beijo algum guardava     na paridade dos teus.
             Antigamente tínhamos que marcar com lacinhos de cor diferente cada gesto nosso para distinguirmos meu e teu.
         antigamente.  digo.antigamente. Por ser tão distante de ontem que nem eu nem tu parecemos personagens de história nossa. E se agora me detenho a retro-ver é para me certificar de deixar tudo bem arrumado:

             dois corações de plástico que se autocolavam a um canto do celofane de um ramo de flores por altura de um aniversário;
             uma tira de photomatons que tirámos naquela máquina do outro lado da rua do arquivo de identificação quando fomos actualizar os BIs;
             uma caixa de madeira que embalou um conjunto multicolor de copos de shot que algum dos convidados nos ofereceu onde continuo a guardar as fotografias do evento sócio-nupcial. sim. ainda por organizar;
             os bilhetes do Béjart no coliseu em que eu não parei de chorar. recordo os olhares dos parceiros de camarote e as minhas lágrimas que caíam incessantemente. completamente despudoradas. o silêncio em que te mantiveste. respeitoso. julgando saber que emoções me moviam. equivocado na cumplicidade;

     arrumos parcelados. sem umbigos. sem mundo exclusivo. sem eternidades de para-o-bem e para-o-mal.

     Houve aquela altura em que tive
que o nomear. Dei-lhe o nome de fim. Como se dito passasse a ser real. E resultou.
ainda nos dávamos as mãos na rua. em casa. no cinema. nas exposições. jantávamos nos nossos restaurantes e escolhíamos os mesmos pratos.
     mas éramos apêndices sem qualquer nexo funcional.

     Hoje renomeio-o. Dou-lhe o nome
de cancro. Há metástases de mãos dadas às lágrimas do Béjart
     BIs multicoloridos de algum aniversário
         tiras de corações de plástico
             photomatons de flores numa caixa de madeira
                 o teu silêncio do outro lado da rua
                 completamente equivocado



          [Maurice Béjart - Queen . Mozart - Ballet for Live]

”Overture"

Publicado por mjm • às 07:59 PM • Categoria: Memories blábláblá (2) •

:: Quarta-feira, Maio 14, 2008

desejo suave


light veil by r.e.

| Todos os desejos são contraditórios (...)
Infelizes os seres a quem o cansaço subtrai esta energia suplementar que é a fonte do desejo.
Infeliz, também, aquele a quem o desejo cega.
É preciso arrastar o desejo até ao eixo dos pólos. |
Simone Weil, in ‘A Gravidade e a Graça’


experimento a barbárie
de um desejo suave
há nele uma superioridade
de dedos supérfluos

se a escrita desliza fica por conta própria
qual líquido escorrendo
a desaguar na memória dos dias

no mais
é sempre a morte a repetir-se
a incendiar as cinzas
ao espólio do pensamento

Publicado por mjm • às 08:41 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Quarta-feira, Maio 14, 2008

Escrever não é viver


by Olivia Parker


| Senta-te diante da folha de papel e escreve. Escrever o quê? Não perguntes. Os crentes têm as suas horas de orar, mesmo não estando inclinados para isso. (…)
Como é que outros escrevem em agnosticismo da sensibilidade? Decerto eles o fazem sendo crentes como os crentes pelo acto extremo de o manifestarem. Eles captarão assim o poder da transfiguração e do incognoscível na execução fria do acto em que isso deveria ser. Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante. |
Vergílio Ferreira, in ‘Pensar’



Pode falar-se de amor emprestado, sem que se perceba. Quem o dita fá-lo seu
porque a posse do comum difere em género, número, tempo ou lugar,
mas não em esquema.
O amor emprestado pode ser um seu. Mas não necessariamente.
Com a dor sucede o mesmo. Intensidade e espectro,
lágrima, grito ou silêncio, não a alteram na sua essência.
A dor emprestada pode ser uma sua. Mas não é fundamental que o seja.
Pode ser-se humano de empréstimo num palco
de códigos perceptíveis. Há sempre algum traço que se partilha
suficientemente credível que reflecte
a imagem de uma imagem, onde alguém se reconhece.
Pode ser-se humano como si mesmo. Mas a imagem reflectida
não tem que ser a sua.
O que é comum usa a linguagem comum
para que nada se perca. Para que muito se entenda.
O sentimento pede partilha. Não se satisfaz de memória.
Já, não sentir, é isolamento. Uma espécie de quarentena dos sentidos.
Envolver várias emoções ao mesmo tempo, é possível. Até humano.
Desumano seria revivê-las no simultâneo em que
a incapacidade não suportaria.
Porque, pode falar-se de amor emprestado, de dor emprestada,
mas nenhum humano se empresta o incomum sobre-humano.
Assim, a solidão prevalece sobre um texto intimista, ainda que o narrador
transforme em cúmplice o seu leitor.
Tão certo como a escrita ser um acto solitário; uma não-vida.
Ou como serem as palavras veículos, tão importantes no transporte
do pensamento quão inaptas quando falhas na sua representação.
Escrever não é viver; é reflectir a vida.
Uma frase pode ser uma prece. Uma metáfora, um enigma.
Um poema, uma oração.


Publicado por mjm • às 12:05 AM • Categoria: Palavras Compridas blábláblá (2) •

:: Terça-feira, Maio 13, 2008

olhar para trás


coloured pearls by r.e.

| toda a beleza conjugada no passado
dói. é de lei. por isso é que
todos os poemas felizes mentem |
pedro jordão


Não estavam já ali. Talvez
    a ausência
os tivesse chamado para outros lugares
para outros pomares. Talvez
    a memória
essa arrecadação de polpas
    do paraíso
os tenha atraído à maçã primordial.


Publicado por mjm • às 12:15 AM • Categoria: Poesia blábláblá (1) •

:: Sábado, Maio 10, 2008

ó poeta estranho



by Brad Holland


| O texto é a única forma de identificar o sexo e a humanidade de alguém porque, ó poeta estranho, o sexo de alguém, é a sua narrativa. A sua, ou a que o texto conta, no seu lugar. Assim o sexo será como for o lugar do texto.

Quando se deseja alguém, como tu desejas Infausta, e ela deseja Johann, é o
seu lugar cénico que se deseja,
os gestos do texto que descreve no espaço
e chamar-lhe
precioso companheiro;
de mim, direi que fui uma vez enviado,
trouxeste a frase que nunca antes leras,
o meu corpo a disse, e não reparaste que ficaste com ela escrita. |

( Lisboaleipzig 2) Maria Gabriela Llansol


Não. Não me vejas só
por mim. Nem só. De mim
um crânio sobrará. E ossos. Como
os que quando escrevo
vou quebrando. O crânio
por duro
inteiro se observará
não tanto quanto só quebrando
o escrevo. Não. Nem só.
Deste ser que escreve nem um só
osso eu conheço. Mas sinto-lhe a carne
e quebro-me quando
a cada frase escrita
se solta um osso. O crânio
me dita ao doer nele a ossada
de cada palavra mais ousada.
No mais
estou só. Em mim sem corpo.
Na escrita entrecruzada.

Publicado por mjm • às 11:58 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Sexta-feira, Maio 09, 2008

o.r.d.e.n.a.r



desert rose by Ofelia Pagani


| ... É compreensível que um engenheiro se entregue à sua especialidade, em vez de se perder na liberdade e na vastidão do mundo; pois ninguém lhe pede que transfira a ousadia e a novidade da alma da sua técnica para a sua alma privada, tal como não se espera de uma máquina que aplique a si própria o cálculo infinitesimal sobre o qual se baseia. |
in O Homem Sem Qualidades, Robert Musil, pp. 71


Se categorizasse
cada único gesto teu
como te arrumaria?
Em inúmeras ordenações
sendo que a nenhuma pertencerias.
Ainda que me detenha
meticulosa
olhando uma única rosa
- escolho e recorro ao que o socorro
pertence a rosa - de entre as rosas
esqueceria a que é bravia.
Por isso esquece - deter-me-ei por algo em ão
como emoção ou até razão até esgotar o coração
de fantasia.
Sem argumento
esqueço o momento em que elegia
escolher falar-te. Pois
nada entendes de gente livre
nem de poesia.


Publicado por mjm • às 01:46 AM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Quinta-feira, Maio 08, 2008

a minha rua




há uma fiada de muros ao longo da minha rua
por onde os gatos caminham. de vez em quando
um hiato de portão. uma sebe
bem cortada espigada por flores teimosas.
um som de porta de carro
bate no silêncio e distrai-me os cotovelos
do parapeito da janela. o moderador da minha atenção
segue a fiada de muros ao longo da minha rua
e integra o hiato de um portão. um som de porta de casa
ecoa a batida anterior no silêncio e distrai-me dos cotovelos.
há uma fiada de parapeitos ao longo da minha sebe
bem cortada de gatos que caminham por flores teimosas.
a minha rua é uma janela espigada por onde
caminham os meus pensamentos porque
há um lar de vez em quando onde os gatos se detêm.



photos by Giacomo Costa

Publicado por mjm • às 12:49 PM • Categoria: Poesia blábláblá (1) •

:: Quarta-feira, Maio 07, 2008

anónimo acto



finalmente
tenho por profissão descrever
nada de importante. a vida suave e redonda
que nada altera e ninguém que agite
a quietude das horas certas.

a importância é morosa de artifícios árduos
sempre exigente por provas expiradas. compleição enxuta que
rescende a colónias como se por deuses
o labor sudasse. não. desta vez
há homens dentro desta história.

homens pequeninos da estatura de homens. de estrutura
mansa sem longas palavras. pensares em forma de
bifes no prato e prantos bravios com lágrimas e socos.
a mole anónima presta-se a enlaces
pois simples, folclóricos, do real fadado, têm
complexos minúsculos com anexos ralos.
nos sonhos pululam crianças que berram
brigas com fadigas de pais separados. esp’rança em medalhinha
em fio fino dourado faz pendant com as pérolas
no anel de noivado. o dia é uma rota ainda que enfadonho
e o clima suporta queixa e desconsolo.

não. nesta história houve homens de perfil bem sério. mais alma que corpo
que o coração é que manda. sabe-se lá se choram
sabe-se lá porque amam. quem faz perguntas
vive pouco o plano e se se explica há por certo engano.

finalmente
integram o que é importante. transpiram
subúrbio. obedecem a um amo.


photos by Lois Greenfield


Publicado por mjm • às 11:55 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •



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