baby lónia

[a poesia habita quem não tem morada]

:: Quarta-feira, Abril 30, 2008

O segredo dos dias


by Lilya Cornely

[ Zona das metáforas

Estou só, na zona das metáforas
(que é todo o pensamento),
em nenhum resíduo nada exprimo
(mas sempre metaforizo).
Não sinto a solidão total
dos poemas, talvez grutas,
o mar quieto, nem silêncio.

Apenas espero o outro,
um amor esplêndido,
alheio e desejável.

Fiama Hasse Pais Brandão ]

No redemoinho da roda
dos dias. Sem o teu olhar
definharia. Por isso me dependuro dos segredos
que tecemos. A cada dia.
Se as almas se desmanchassem
- diz-me tu – em que taças as recolheríamos?
Nas dos olhos com que vemos
por dentro
os dias que fantasiamos – dirias -. A taça
cheia. De nós connosco dentro. Dos olhos.
Com que nos vemos
a inventar dias felizes.
No redemoinho dos olhos. A cada dia.
Tecemos almas
dependuradas nos segredos
dos dias. Felizes.


Publicado por mjm • às 01:45 AM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Segunda-feira, Abril 28, 2008

mediação


by Misha Gordin

| And so it is/ The shorter story/ No love, no glory/ No hero in her sky/ I can’t take my eyes off of you/ I can’t take my eyes... |
‘The Blower’s Daughter’, Damien Rice

se me desse para escrever seria contra
a ausência. ocupar algum do espaço onde
caberiam mãos com gestos soltos cabelos livres
passeando pelo espaço onde as palavras
pronunciadas devagar
a serem ditas
ocupariam. se me desse para escrever
seria contra o vazio. redecorar o branco com
um novo branco
poderia. mudar-lhe o lugar
devagar
recolocá-lo no tecto que protege as paredes
e murá-las
de palavras como gestos de mãos em cabelos
soltos ou como espaços sem paredes
pronunciáveis
a serem ditas. se me desse para escrever seria
contra a palavra. contra a palavra dita. porque
a cada hora em que me sobram ausência vazio branco
o lento branco do redito
é a palavra que me medita.

Publicado por mjm • às 01:04 AM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Sexta-feira, Abril 25, 2008

Stumbling on Memories - XVIII

Nas aritméticas da vida, terei sempre, a cada aniversário, mais onze anos.
Nas equações a várias incógnitas, os resultados alterar-se-ão sempre, à medida que me distanciar das lembranças—porque a memória, obreira dos arredondamentos, se encarregará sempre de mas adulterar, a cada aniversário, ainda que aritmeticamente continue a ter mais onze anos.
Mas o sistema é infalível: faça-se a prova dos nove aos pontos de referência e verificar-se-á que, desde que a abordagem seja a sonora, a memória seleccionará estas duas letras, para sempre aprisionadas a um teorema de liberdade:


[… o menino da foto tem hoje mais trinta e quatro]

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei…

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

Paulo de Carvalho, ‘E Depois do Adeus’
Música: José Calvário/ Letra: José Niza

*


tretaycuatro* años de estar juntos,
esta tarde se han cumplido,
para ti flores, perfumes
para mi...! Algunos libros!

No te he dicho grandes cosas
porque no me habrian salido,
! ya sabes cosas de viejos!
! Requemor de no haber sido!

Hace tiempo que intentamos
bonar nuestro Destino,
Tú bajabas la persiana.
Yo apuraba mi ultimo vino.

Hoy
En esta noche fría
casi como ignorando el sabor
de soledad compartida,
quise hacerte una canción,
para cantar despacito,
como se duerme a los niños.
Y ya ves solo palabras,
sobre notas me han salido.

Que al igual que tú y que yo,
se soportan amistosas,
ni se importan ni se estorban,
mas non son una canción.

...Qué helaba está esta casa.
...Será que está cerca del Rio.
...O es que entramos en invierno.
...Y están llegando…
...Están llegando los fríos.

Patxi Andión, ‘Veinte Años’

* desculpa aí, ó Patxi, pela adaptação

Publicado por mjm • às 11:58 PM • Categoria: Memories blábláblá (1) •

:: Quarta-feira, Abril 23, 2008

Dia Mundial do Livro


O Dia Mundial do Livro foi assinalado com a edição exclusiva de um livro que reúne dez excelentes contos inéditos. Foram convidados dez escritores prestigiados: Mário Cláudio, Lídia Jorge, João Aguiar, Filipa Melo, Rui Zink, Luísa Costa Gomes, Nuno Júdice, Manuel Jorge Marmelo, Maria Teresa Horta e Francisco José Viegas. Todos eles acederam ao convite; o resultado foram estes dez contos inéditos, superiormente ilustrados por António Jorge Gonçalves, que aqui configuram O Prazer da Leitura.

(4€)
O valor da venda reverte inteiramente a favor da AMI.
Exclusivo FNAC


__________
curiosidade:

Comemorado desde 1996 e, por decisão da UNESCO, a 23 de Abril, dia de São Jorge.
Esta data foi a escolhida para honrar a velha tradição catalã, segundo a qual, neste dia, os cavaleiros oferecem às suas damas uma rosa vermelha de São Jorge, recebendo em troca um livro.
Para além disso, é prestada homenagem às obras de Shakespeare e Cervantes, falecidos em 1616, exactamente a 23 de Abril.

Publicado por mjm • às 11:45 PM • Categoria: Divulgação blábláblá (0) •

:: Terça-feira, Abril 22, 2008

o lado visível


by Misha Gordin

[…] O curto discurso do médico fá-la reparar com grande clareza que as palavras nunca estão sós. Há o timbre da voz, a entoação da frase, os gestos do corpo, a expressão da cara. Uma palavra isolada não se percebe. As palavras nunca estão sós. Vivem umas dentro das outras numa espécie de comunhão. A casa das palavras é o espírito. Uma palavra morta é uma contradição. Parece-lhe curioso. Mesmo as palavras escritas têm de se tornar vivas ao serem lidas. E há várias maneiras de as ler. Um belo poema pode ser destruído por uma péssima leitura. [...]
Pedro Paixão in ‘Rosa Vermelha em Quarto Escuro’


há sempre uma opacidade
num corpo. um lado visível. contra o qual resvalam lânguidas
as palavras.
expressões. paredes porosas. camas
de bolor. onde se expande. se entranha. ou perspira
a inanição.

de encontro à transparência.
as palavras.
móveis. mudas de espanto obedecem. formam
corpo. encorpam expressão. bolor ou condensação
lâminas.

rombas. rasgam invisíveis
conversas. de silêncio.

há sempre uma palavra em silêncio
no corpo da palavra. inanimada. perspira
a entranha muda. ou lânguida. ou
embolorada voz.


Publicado por mjm • às 07:49 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Sexta-feira, Abril 18, 2008

Faz hoje. Com certeza.

| A Mentira é a recriação de uma Verdade. O mentidor cria ou recria. Ou recreia. A fronteira entre estas duas palavras é ténue e delicada. Mas as fronteiras entre as palavras são todas ténues e delicadas.
Entre a recriação e o recreio assenta todo o jogo. O que não quer dizer que o jogo resulta sempre. Resulte seja o que for ou do que for.
A Ambiguidade é a Arte do Suspenso. Tudo o que está suspenso suspende ou equilibra. Ou instabiliza. Mas tudo é instável ou está suspenso.
Pelo menos ainda.
Ainda é uma questão de tempo. Tudo depende da noção de tempo ou duração ou extensão. A aceleração do tempo pode traduzir-se pela imobilidade pois que a imobilidade pode traduzir-se por um máximo de aceleração ou um mínimo de extensão: aceleração tão grande que já não se veja o movimento ou o espaço ou a duração.
Tudo está sempre a destruir tudo. Ou qualquer coisa. Ou alguém. Mas estamos sempre a destruir tudo ou qualquer coisa. Ou alguém.
Os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pormos pedras ou palavras: sinónimo de construção. Ou destruição. Ou acção. |
Ana Hatherly, in ‘O Mestre’



by Lilya Corneli


Faz hoje
não sei quanto tempo que
alguma coisa aconteceu
para lembrar. Com certeza. Alguma coisa que
devia estar a comemorar.
Não me lembro.

Dei comigo a medir
quanto disto de
me comemorar. E não me lembro.
Mas sei que faz hoje
não sei quanto tempo.

Com certeza. De alguma coisa
disto. De qualquer coisa que
me mede no tempo.
Quanto mais me aproximo
insisto. Não me lembro. Roubo tempo
ao tempo e persisto. Tem que haver
algo a comemorar!

Rememoro o tempo
onde existo. Não me lembro. Um momento. Perdi
a marca ao lugar.
Com certeza. De mim há tempo
com tempo por vir. Devagar.

De muito de mim
hoje disto. E não me lembro. Redemoro
no tempo
a passar. Com certeza. Faz hoje
não sei quanto tempo que
o tempo era tempo a marcar.


Publicado por mjm • às 02:25 AM • Categoria: Poesia blábláblá (3) •

:: Segunda-feira, Abril 14, 2008

Stumbling on Memories - XVII


AS ASAS DO DESEJO (Der Himmel über Berlin), 1987

Realização: Wim Wenders
Argumento: Wim Wenders, Peter Handke
Banda Sonora: Jürgen Knieper


Lied Vom Kindsein
– Peter Handke -

Als das Kind Kind war,
ging es mit hängenden Armen,
wollte der Bach sei ein Fluß,
der Fluß sei ein Strom,
und diese Pfütze das Meer.

Als das Kind Kind war,
wußte es nicht, daß es Kind war,
alles war ihm beseelt,
und alle Seelen waren eins.

Als das Kind Kind war,
hatte es von nichts eine Meinung,
hatte keine Gewohnheit,
saß oft im Schneidersitz,
lief aus dem Stand,
hatte einen Wirbel im Haar
und machte kein Gesicht beim fotografieren.

Als das Kind Kind war,
war es die Zeit der folgenden Fragen:
Warum bin ich ich und warum nicht du?
Warum bin ich hier und warum nicht dort?
Wann begann die Zeit und wo endet der Raum?
Ist das Leben unter der Sonne nicht bloß ein Traum?
Ist was ich sehe und höre und rieche
nicht bloß der Schein einer Welt vor der Welt?
Gibt es tatsächlich das Böse und Leute,
die wirklich die Bösen sind?
Wie kann es sein, daß ich, der ich bin,
bevor ich wurde, nicht war,
und daß einmal ich, der ich bin,
nicht mehr der ich bin, sein werde?

Als das Kind Kind war,
würgte es am Spinat, an den Erbsen, am Milchreis,
und am gedünsteten Blumenkohl.
und ißt jetzt das alles und nicht nur zur Not.

Als das Kind Kind war,
erwachte es einmal in einem fremden Bett
und jetzt immer wieder,
erschienen ihm viele Menschen schön
und jetzt nur noch im Glücksfall,
stellte es sich klar ein Paradies vor
und kann es jetzt höchstens ahnen,
konnte es sich Nichts nicht denken
und schaudert heute davor.

Als das Kind Kind war,
spielte es mit Begeisterung
und jetzt, so ganz bei der Sache wie damals, nur noch,
wenn diese Sache seine Arbeit ist.

Als das Kind Kind war,
genügten ihm als Nahrung Apfel, Brot,
und so ist es immer noch.

Als das Kind Kind war,
fielen ihm die Beeren wie nur Beeren in die Hand
und jetzt immer noch,
machten ihm die frischen Walnüsse eine rauhe Zunge
und jetzt immer noch,
hatte es auf jedem Berg
die Sehnsucht nach dem immer höheren Berg,
und in jeden Stadt
die Sehnsucht nach der noch größeren Stadt,
und das ist immer noch so,
griff im Wipfel eines Baums nach dem Kirschen in einemHochgefühl
wie auch heute noch,
eine Scheu vor jedem Fremden
und hat sie immer noch,
wartete es auf den ersten Schnee,
und wartet so immer noch.

Als das Kind Kind war,
warf es einen Stock als Lanze gegen den Baum,
und sie zittert da heute noch.

Publicado por mjm • às 04:47 PM • Categoria: Memories blábláblá (1) •

:: Sexta-feira, Abril 11, 2008

Falar sentidos


by Tabaimo in James Cohan Gallery


Pensei ter-te já dito o que sabia
Terei tão-só sentido; dito o refrão
Pois se o amor se sente – então, fervia!
Dizê-lo não sabe, nunca, o coração

Se já dizê-lo sabe é porque algures
História se tornou e a mente o conta
Se língua houvesse nele – bem que a procures!
Lográ-lo-ia assim de ponta a ponta

Ter siso era nem se questionar
Sentir; não sentir – apenas ser-se
Porém, não pára a mente de girar
“Como seria?”; “Será isto pertencer-se?”

Se hoje aqui retorno na eterna dúvida
Se falar sabe, se mente ainda com a mente
O amor perdi e a história me esconjura
A falar de memória – pois já não sente…

***

Irónico é o ponto em que a verdade
Tenta encontrar na vida e na saudade
Resposta que equilibre o desatino

Quando se é jovem, tem-se sempre pressa
Quando se é velho, nada disso interessa
- Cativos a intentar contra o destino!



_______________________________

Quer o destino - o acaso, o que seja! - que se caminhe amiúde em paralelas.
Raramente quer, esse mesmo acaso, que de facto se encontrem no infinito!…
Mas, quando tal acontece, chamamos-lhe, por exemplo, Fado.
Daí que aqui ofereça estes versos à Cristina Nóbrega para que um dia o cante, caso eu o mereça.
Fixem este nome. Raro é o momento em que o infinito é de excelência!…


Publicado por mjm • às 12:12 AM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Segunda-feira, Abril 07, 2008

Imagino almofadas


by Rodney Smith


(...)
aqui pensámos nos dar as mãos e os abraços
aqui nos falámos das pequenas tristezas e olha aquela é a cor exacta dos teus olhos. quem nos parte habita depois os lugares
longe longe
em que a memória concebe outras histórias e os nomes se instalam em nós
devagarzinho e muito devagarinho nos enxugamos de tanta água
Blimunda


E eu, que tanto falo,
quando te falo acabo por te dizer tão pouco!…
Sempre uma prestação em atraso,
entrecalada, entrecortada, entretelada a prumo naquilo que uma-rapariga-tem-que-ser…
             Não sejas assim, rapariga! Uma menina há-de um dia ser senhora, e uma senhora há-de ser feminina!
                        Há-de ser feminina. Há-de ser feminina.
     Se tivesse acatado o ensinamento só bordava agora raminhos miosótis em tons pastel no teu lençol de sonho. Não saberias nadinha das minhas pernas entrelaçadas no monograma da almofada; só o que uma-rapariga-tem-que-ser a estragar-te a imaginação.

Visto-me em alma e ninguém me reconhece.

Falo pelo peito,
falo, falo, mas quando é a ti que falo acabo por te dizer tão pouco!…
     Deve ser deste meu corpo enroscado nas palavras, miosótis, ponto pé de flor de amor, nada que uma-rapariga-tem-que-ser possa na outra entender.
                         Há-de ser feminina. Há-de ser feminina.
Trago doridas, pesadas, as pernas de tão enroscadas.
     Imagino almofadas.      Imagino almofadas.




______________________
a tribute

Ler-te é embebedar-me de pólen, Bli!

Ubíqua
a tua palavra
quando se cola às minhas papilas.
Trouxe-te
; vesti-me de ti
para me despir.


Publicado por mjm • às 06:08 PM • Categoria: Poesia blábláblá (0) •

:: Segunda-feira, Abril 07, 2008

o querer


by Rodney Smith


| o querer | se não doesse / como se saberia / quão bom não doer seria? |
Márcia Maia


no inverso
meço o meu verso
e impeço
nexo
sexo
; o amplexo
; o excesso
de amar

no complexo e sinuoso
processo
reescrevo

ouso
ou esqueço
o medo de me entregar


Publicado por mjm • às 12:51 AM • Categoria: Poesia blábláblá (1) •

:: Sábado, Abril 05, 2008

Perfeição


by Rodney Smith

“(…)
Até à data não existe uma única interpretação que te leve a dizer É isso mesmo! Ele conseguiu! Sabes porquê? Porque esta sonata é, em si própria, imperfeita. Robert Schumann, que conhecia bem as sonatas de Schubert, classificou-a de «divinamente longa». (…)
- Voltando à primeira pergunta – indago eu -, porque ouve as sonatas de Schubert? Sobretudo quando vai a conduzir?
- As sonatas de Schubert, especialmente esta, deixam de ser arte se te limitares a ouvi-las vezes sem conta. Como Schumann apontou, esta é demasiado longa e demasiado idílica, e, de um ponto de vista técnico, demasiado despretensiosa. Quando tocada de um modo convencional, torna-se desinteressante, insignificante e sem estilo, como uma antiguidade cheia de pó. E é por isso que todos os pianistas que a interpretam acrescentam qualquer coisa de si próprios, uma coisa nova. Como acontece com esta gravação – ouves como ele articula isto aqui? Acrescenta rubato, que é como quem diz, altera o tempo, a modulação, o que for. E quando isso não acontece, tocam quase sem fazer uma pausa. Mas, se não estiverem com atenção, todos esses estratagemas novos correm o risco de destruir a dignidade da peça. E nesse caso deixa de ser música de Schubert. Não há um pianista, sem excepção, que tenha interpretado esta Sonata em Ré Maior e que não se tenha debatido com estas contradições.
Oshima deixa-se ficar durante algum tempo a ouvir a música, a trautear baixinho a melodia. Depois prossegue.
- É por isso que eu gosto de ouvir Schubert quando viajo de carro. Precisamente pelo facto de a imperfeição por detrás de cada interpretação espreitar a cada curva. Essa profunda imperfeição artística estimula a nossa consciência, desperta os nossos sentidos. Se eu escutar uma interpretação absolutamente perfeita de uma peça absolutamente perfeita enquanto vou a conduzir, posso cair na tentação de fechar os olhos e querer morrer, ali mesmo. Mas ao escutar a Sonata em Ré Maior apercebo-me das limitações próprias da capacidade humana e torna-se claro para mim que, até certo ponto, a perfeição só pode ser atingida através de uma série de imperfeições. Além de que, pessoalmente, acho isso inspirador.
(…)
- As pessoas fartam-se depressa de tudo o que lhes provoca excitação mas não do que é monótono. É assim em tudo. No meu caso, posso dar-me ao luxo de ficar enfastiado, mas nunca corro o risco de me fartar de uma coisa. A maioria das pessoas não distingue entre uma coisa e outra.
(…)
Quando a «divinamente» longa sonata de Schubert chega ao fim, acaba-se a música. Permanecemos ambos em silêncio, cada um de nós perdido nos seus pensamentos.


in Kafka à Beira-Mar, Haruki Murakami, Casa das Letras, Lisboa, 2008, pp. 146, 147, 148




Publicado por mjm • às 01:33 PM • Categoria: Divulgação blábláblá (2) •

:: Terça-feira, Abril 01, 2008

caligrafia


Gustav Klimt, O Beijo

| Sonho contigo porque a noite é uma lente que magnifica as emoções.
Mas então, porque persiste este sabor a ti,
se acordei há tanto tempo? | mjm

só o desejo
aperfeiçoa
a caligrafia do beijo
e o meu corpo boca
anseia escrever
pela tua boca corpo
até corpo boca
não serem palavras escritas
até meu teu
se tornarem ilegíveis


Publicado por mjm • às 05:27 PM • Categoria: Poesia blábláblá (6) •



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