baby lónia

[a poesia habita quem não tem morada]

:: Sábado, Agosto 26, 2006

construções


Belvedere, litografia, 1958, M C Escher (*)

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

| Construção, Chico Buarque |

Começou pelo fim feito deserto máximo
Fechou-se no seu quarto feito eremita rústico
E a cada dedilhada na guitarra acústica
O som embrionário se escondia opiácio
Vibrando entre dedos de ossos vetustos
Como se a eternidade fosse feita de plástico
E o seu desejo vário variasse em mono
Cercou-se de instrumentos de derrame inválido
Sorrisos comprimidos em dádivas últimas
Como se o seu destino fosse ser seu hóspede
Nasceu de mil bocados em alicerces torpes
A voz bem recolhida em colcheias de barro
Na música aflorando pedaços de escrita
A pele a vibrar sons sem nexo de consolo
Retornando ao embrião que gera sonhos cálidos
Caíu na encruzilhada dos desejos bárbaros
O amor era o corsário desses desejos vários

Começou pelo fim feito derrame inválido
Fechou-se no seu quarto feito um opiácio
E a cada dedilhada na guitarra de barro
O som embrionário se escondia cálido
Vibrando entre dedos de ossos acústicos
Como se a eternidade fosse feita de dádivas
E o seu desejo vário variasse em sonhos
Cercou-se de instrumentos eremitas rústicos
Sorrisos comprimidos em dádivas torpes
Como se o embrião gerasse sonhos bárbaros
Nasceu de mil bocados em alicerces plásticos
A voz bem recolhida em desertos últimos
Na música aflorando pedaços de mono
A pele a vibrar sons sem nenhum nexo máximo
Retornando ao embrião que gera corsários
Caíu na encruzilhada dos desejos vários
O amor era uma espécie de consolo hóspede

_______________________
(*)
O rapaz que está sentado no banco tem em suas mãos um objecto com a forma de cubo que, visto de cima, representa uma realidade diferente da de quando visto por baixo. Ele observa pensativamente o objecto impossível e não parece aperceber-se de que o belvedere, atrás das suas costas, é construído desta forma. No piso inferior, no interior da casa, está encostada uma escada pela qual sobem duas pessoas. Mas chegadas a um piso acima, estão de novo ao ar livre e têm de voltar a entrar no edifício.

Publicado por mjm • às 01:44 AM • Categoria: Poesia blábláblá (5) •

:: Domingo, Agosto 20, 2006

eu faço o ninho

quando as palavras têm o peso de um passarinho
eu faço o ninho
num canto do teu sorriso
alongo o olhar pelos pêlos dos teus braços
que são só braços
a luzirem ao luar
deixo-me entreter devagar
na paródia de uma história
num desfiar da memória

é leve e brilha a pupila
cintila levita sem ciso que me prenda
é só renda a rendilhar
brincamos no faz de conta
tu és quem conta eu sou a tonta
até o dia clarear

depois
jogamos palavras com emoção mais pesadas
espreitando nelas as margens do voo a saber voar

assim vamos
construindo coisas simples sem destino
imos novos novos rimos
sabemos nada assim vimos
sozinhos somos num par

Publicado por mjm • às 05:12 PM • Categoria: Poesia blábláblá (5) •

:: Sábado, Agosto 19, 2006

O Peso das Palavras - I


Klimt

Alvião

A nossa casa ficava a meio da encosta. Na Primavera, pela tardinha, descíamos ao rio por um carreiro de pedras, entre estevas e vinhedos. Um dos cântaros iludia a sede da laranjeira; com a outra água, a minha mãe fazia a sopa, lavava a louça. A que sobejava era para nosso asseio. Ao cair da noite, eu e a minha mãe sentávamo-nos na soleira da porta a colher o cheiro doce da laranjeira. Eu sei, vai duvidar da minha história. Mas todos nós tivemos uma infância: a minha adormeceu nessa casa térrea a olhar um rio. O avô, pouco interessa o nome, o meu avô plantou a laranjeira em frente da casa, na terra de xisto, como se quisesse afrontar a Natureza. Venceu. Mas vezes sem conta rumou ao rio, quando o Verão seca as fontes. Eu e a minha mãe recebemos e tratámos, zelosas, a herança. Desconheço se a casa resiste, terá telhado, a porta. Qualquer dia, meto-me no comboio e afugento a dúvida. Uma coisa é certa: não vendi a casa. Se o tempo a diluiu na paisagem, força não teve, nunca terá, para engolir o chão. Um pedaço acanhado de terra, afinal tudo o que me resta. Por que me olha? O meu corpo… Sim, meto-me no comboio e regresso a casa, à memória da casa. Nada terei a temer, ninguém me conhece: a aldeia ficava tão distante como o rio, ou mais longe. E as pessoas da minha criação, como eu, também fugiram; aos velhos da terra, no devagar secreto, bebeu os olhos. Talvez a laranjeira desobedeça à morte. No fim de abrir a cova, a golpes de alvião, sabe o que é um alvião?, na terra de pedra solta, o meu avô chamou a filha. Em tom de prece, disse: «S. Frutuoso bote o fruto». E S. Frutuoso, pelo menos enquanto vivi na casa, foi benigno, como parecem ser todos os santos de devoção dos homens laboriosos. Meto-me no comboio… Por que não olha para mim? Se quiser de verdade conhecer a história, observe o meu corpo. Muitos homens o percorreram. Homens a tresandar a álcool, suor; homens perfumados. Bruscos, homens silenciosos como choupos, um ou outro tocado de delicadeza. Por todos reparti amargura, a todos emprestei felicidade. Não. Peço-lhe, pare. Felicidade é palavra tresmalhada na minha história!
Enquanto recua a fita, falo da tristeza dos choupos. Enfim, é tontice… Se me via triste, o avô dizia que eu parecia um choupo. O meu avô amava deveras as árvores… Expulsou a felicidade? Quando o meu avô me comparava à tristeza dos choupos, ficava furiosa, os meus olhos lampejavam como as pedras que o alvião esmiola a rasgar o monte. Sabe o que é um alvião? Para entrar na minha vida, precisa de saber o que é um alvião. Alvião, alvião… conhece, diga-me, conhece outra palavra leve e tão veloz? Eleva-se no ar como libelinha e logo se precipita como cutelo. Você não acredita mesmo. A mulher da minha rês vedado está o ofício de sopesar a Língua. Todo o meu vocabulário, terá você imaginado, cabe no reverso de um bilhete de comboio. Engana-se. De herança, o avô deixou-me ainda um livro: nunca o abri, mas, se assim o desejar, posso contar-lhe o enredo. Nas tardes de Primavera, degustava em voz alta, sentado na soleira, essa história de paixão. Quem ouve palavras envoltas no aroma de laranjeira florida jamais as esquece. Lhaneza, sabe o significado de lhaneza? A palavra irrompe nas primeiras páginas do livro; quando a escutei, pedi ao avô para parar. E perguntei-lhe o que queria dizer essa palavra que nos obriga por momentos a colar a língua ao céu da boca. O meu avô… Acabou a fita? Não há problema, eu não me esqueço do que ia dizer…
Posso?
O meu avô não soube explicar, e pareceu-me ter ficado ofendido com ele próprio. Nunca mais lhe interrompi a leitura… Por que quer você gravar a minha história? Numa tarde de Verão, desci sozinha pelo carreiro, que cruzava estevas e vinhedos: a laranjeira clamava por água. Um homem meteu a mão ao bolso, mostrou-me moedas. Deixei-o com o brilho na concha da mão, segui caminho. No rio, demorei mais do que o costume, talvez a espera o afugentasse. Devagar subi a encosta, cântaro de barro na cabeça, você não é do tempo dos cântaros de barro, e o desassossego, conhece palavra mais sinuosa?, e o desassossego desvanecia à medida que a vinha escorria. Já via as estevas, mirradas, refúgio de perdizes e víboras… mãos de silêncio e lume apertaram-me os seios. Ao contrário das víboras, atacou-me por detrás, à falsa fé como dizia o meu avô, e eu tinha as mãos a aparar o cântaro. Com o homem grudado a mim, fui descendo a vasilha, e ele, sem me soltar, permitiu que me curvasse e a poisasse. A mão esquerda largou o seio, este, este!… por que não me olha?, e tapou-me a boca, mas um grito havia golpeado a brandura da tarde. Valerá a pena, a dor, contar o resto? O alvião, fica a saber o que é um alvião, no ar, gume de ferrugem, depois da morte do avô ninguém lhe deu uso, e logo a descida fatal.
Um dia meto-me no comboio. Compro uma tesoura de poda, corto os galhos mortos da laranjeira. Desço ao rio, desta vez sem o cântaro, sem o homem a espiar-me da vinha… O fotógrafo? Pois, amanhã, já me tinha dito. Avise-o: quero a fotografia assim. Não me acha bonita! Olhe as minhas pernas, a mão no sexo… O corpo. A minha história. Desligue o gravador, desligue: deite-se a meu lado, como um tímido amante. E serei a menina, cântaro à cabeça, por entre os vinhedos. Poise as mãos de silêncio e lume nos meus seios. Não tenha medo - alvião é uma palavra perdida.

Francisco Duarte Mangas in PUTAS - Novo Conto Português e Brasileiro, 1ª Edição, Quasi Edições, 2002 (pp.37-41)

Publicado por mjm • às 05:18 PM • Categoria: Divulgação blábláblá (4) •

:: Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Epitáfio


R Gonzalez Fernandez

|porque volver no siempre significa regreso,
nunca el hombre regresa a su primer momento,
ni son nuevos los ojos
que miran hacia el mar. |
Jose Infante in ‘Elegia y No’

De toda a coragem
A que lhe sobrara
Era a de dormir sem sonhos
Pois de sonhar cansara.
A noite de tão longa,
De tão negra e avara,
Tremendo o deixara.
Que o sono ora lhe forre
As penas da almofada.

Publicado por mjm • às 01:21 AM • Categoria: Poesia blábláblá (2) •

:: Segunda-feira, Agosto 14, 2006

A polpa e a fibra

| E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. | Vinícius de Moraes

Também adentrei pelos livros. Peguei nessas literaturas com mãos de içar candeias.
Também me vi neles escrita ou tive a vontade de me confundir nos enredos. - Acho que nunca o escritor suspeitou; nem pelos sinuosos sublinhados que atestam ter estado parada repetindo a leitura de pedaços sumarentos, o real-polpa que então me alimentou.
Também me reinventei, descobrindo-me. Não naquela monocultura que gira em torno das coisas dos sentimentos amestrados, mas nas outras, as bravias, que afinal crescem em nós e que nos permitimos quando as confirmamos na narrativa alheia. - Tão estranho, isso! O reconhecimento… A nossa realidade submersa trazida à tona por alguém que nem nos conhece, que irrompe do nada com a maior naturalidade, para nos provar que aquilo que escondemos por vergonha, ou que não sabemos nomear, existe e é afinal serenamente mortal…
Também me desflorou a descoberta, os passos dados sem saber caminhar, os que levam a labirintos indecifráveis mas que não nos deixam descontinuar. - A clareira!? A clareira!? Tenho que chegar à clareira!…

Adentrei algumas almas, como quem adentra livros. Mas aí fui quem se entreteceu com os enredos. - Sugada a polpa, sumarenta polpa, sobra a fibra emaranhada dos fios com que escrevo. - Escalo a escarpa da palavra; é ainda a clareira que procuro. Até não restar mais nada.

Publicado por mjm • às 01:35 AM • Categoria: Prosa blábláblá (4) •

:: Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Se quisesse enlouquecer, podia (*)


Patchwork, Lilya Corneli

Mudos
Persistem os gritos
Continuamente
Infinitos
A asfixiarem-me a pele

Se quisesse
Enlouquecer, podia
Se a aragem da fantasia
Me penetrasse
Real


_____________________________

“(...)
- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às 4 da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a 2 ou 3 tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo.”

(*) Herberto Helder in ‘Os Passos em Volta’, Assírio & Alvim, 1980

Publicado por mjm • às 04:21 PM • Categoria: Poesia blábláblá (3) •

:: Quarta-feira, Agosto 02, 2006

tudo por dizer


Dust Road, Wim Wenders

tantos se alonjam
só tu permaneces
porque me habitas
és tu, amor
serás aquele que nunca foi nem está
serás aquele das horas todas
das palavras inomináveis
entorpecidas pelo não-dizer
há um lugar tranquilo
fascinante e intransitável
onde sempre estás deitado
no meu grito a entardecer
tantos se alonjam
só tu permaneces
pois nunca foste ou vieste
e eu com tudo por dizer

Publicado por mjm • às 01:35 PM • Categoria: Poesia blábláblá (5) •

:: Terça-feira, Agosto 01, 2006

Vicentinando a solo

| Todo o conhecimento é uma resposta a uma pergunta. |Bachelard

Não me peças
Que detenha as palavras
Que entrecruzo.
Abuso é poder dizê-las
- transcritas, cópias lá delas -
Coladas vão as ideias
De quem por as ter as criou
Eu?
Eu brinco com elas
Se ideias tenho ao dizê-las
Se ideias dou ao escrevê-las
Isso já me ultrapassou

Se escrevo hoje sobre o ontem
E o ontem se te revelou
Acha-lo inteiro aqui. Correcto?
Logo, há um encantamento
Que nos mente, nessa lente
Que usa as frases como tecto
Eu?
Não fui! To juro!
Certo?

Ser quem não sou até posso
Uso do abuso o alicerce
Corto cerce; recrio o excesso
Fímbria a tíbia - mínimo osso
Quem já fui escarnece
- ri aqui, depois esquece -
O universo engrandece a cada
Remoque de gozo
- fala-me tu do caroço! -

______________________________
[ para ti, exclusivamente, Helder! rasberry ]

A Exploração da imaginação criadora
Valorizando a liberdade criadora, Bachelard reabilita a imaginação. Próximo da fenomenologia ou da psicanálise, rejeita uma concepção «coisista» da imagem. Segundo ele, a imaginação está aberta, «toda para o futuro». Através da psicanálise das imagens, como da inteligibilidade da ciência, procura penetrar na riqueza inesgotável do real, cuja profundidade é vivida antes de ser pensada. A imaginação é a própria força do psiquismo, mas é preciso saber aprender a sonhar, pois o devaneio poético, que Bachelard opõe ao devaneio da sonolência, pressupõe uma disciplina. Ele é «desenvolvimento do ser e tomada de consciência». Contrariamente a Bergson, defende a força da linguagem, que cria o ser. Se o imaginário pode ser criador de realidade, se nos «abre uma via nova», não é porque a imaginação exprime, antes de mais, a afirmação do ser humano na natureza? «A descoberta do outro passa pelo Cosmos», escreve Bachelard.
(fonte)

Publicado por mjm • às 02:07 AM • Categoria: Poesia blábláblá (3) •



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