| Porque o encantado, o milagre, o bendito, pertence àqueles que erguem monumentos vivos que, se não celebra todos, abraça pelo menos o outro que tem sido a inspiração do paraíso - ainda que por uma noite ou pela vida inteira -, mas sempre em movimentos que não voltem para detrás do tempo vazio, não sinta saudades, não tema facas e não pereça pela fidelidade. | Ilidio Soares
Ah!
Poder chamar-te a mim
Sem medo algum de perder-te…
Repaginava os dias
Lambendo as pontas dos dedos
Ah!
O tempo
O dos beijos suaves
Aquele em que fomos milagres
Susteve-nos a meio da ponte
(...)
Soubeste que a tinham alargado?
Sim! Ruíu-lhe uma trave de lado
Chamaram peritos, houve inquérito a aflitos
O tal do processo foi analisado
Nas pontes, parar, avaria os sensores!
Imagina: engenheiros, técnicos; todos doctores
Não consideraram que houvesse amores
Nas pontes, sem fim destinado…
(...)
Se há pontes, amor, transitemos
Parados no amor viajemos
A ponte do amor é maior
Se no sonho do amor, meu amor,
Não tivermos parado
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Three Stages of Expectation I, II, III, Lilya Corneli
gold orbit by r.e.
| quero um dia outro
um dia antes
um dia sem mundo
um mundo sem dia |
r.e. in ’redundância‘
De que é feita a madrugada?
De alvorada, se a acendem astros
Sem mais nada
Se o sono a esconde apsisionada
Naquela morte descansada
Envolta em luas adormecidas.
Porém se os olhos
Se abrem em feridas
Colando os dias a tantas noites sucessivas…
Crivá-la ousasse; corrigi-la pudesse
Má e drogada - assim seria -
Decepava-a pela palavra!
Assim o cepo se transformasse
Em testemunha ensanguentada
Clamando a justiça que não nasce
Nessa morte executada ao irromper do dia.
| Pensei que há flores que quando arrancadas retrofenecem e que os nossos gestos necroflorescem de algum passado… | MJM
Que importa o cais
- se tu não vens -
Se os barcos
- que me navega? -
São papéis . O sal dos dias
Espera o sol que o seque
- eu espero a brisa quente que me derrete -
- a pele na pele do tempo -
Ser apenas líquido elemento
Uma onda, um bicho
- um nome ao vento -
Sovada maresia num tropel
- ser nada de importante -
- nenhum instante -
E toda a eternidade condensada
- aquele grão de areia -
- o quase nada que erode lentamente -
Na decisão eternamente adiada
Soltar a jangada? Prender o batel?
Na clareira
- o pó da estrada -
Acende o céu uma lua apagada
Crepúsculo que medeia dois limites de tempo
- resíduo de firmamento -
Mescla imperceptivelmente
O rastro de um momento
- um fio interligando a dimensão errada -
- a ténue intercepção de terra e nada -
HIRAKI SAWA, Going Places Sitting Down